Júlia Mattos

Apaixonada por boas histórias, sejam fictícias ou reais. Viciada em livros, filmes, séries, M&M's e Tic Tac de laranja

Missa do Galo pelos olhos de Conceição

Você já imaginou o que se passava pela cabeça de Conceição durante o famoso conto de Machado de Assis, Missa do Galo? Será que ela estava ou não flertando com Nogueira? E se estava, por que? Eu imaginei o que se passava dentro de sua cabeça e essa é a minha versão do conto através dos olhos dela.


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Era véspera de Natal e ela estava no quarto, entediada. Seu marido, mais uma vez, tinha saído para encontrar a vagabunda que ele ainda fingia não existir. Todos falavam que Conceição era uma santa por aceitar as traições do marido. Ela ouvia os comentários representando a boa moça que achavam que era, mas só ela sabia o verdadeiro motivo de aceitar a traição. Tinha tamanha repulsa a Meneses que ficava mais do que satisfeita por ele ter outra. Assim, deixava-a em paz na maioria das noites.

Lembrava-se da primeira vez que ele a levou para a cama. Simplesmente ordenou que levantasse a camisola, entrou nela, gozou e saiu sem nem olhá-la duas vezes. Conceição nunca se sentira tão invadida na vida. Provavelmente foi por causa da sua repulsa que Meneses arrumou outra na rua. E graças aos céus que arrumou! Conceição agradecia todos os dias a Deus e à vagabunda em suas preces noturnas.

Olhou para o relógio. Eram quase onze horas e ela ainda estava sem sono. Andou de um lado para o outro do quarto e parou em frente ao espelho, ajeitando o roupão que vestia. Conceição não era feia. Se tivesse a expressão alegre que possuía quando jovem, talvez fosse considerada até bonita. E ela queria se sentir bonita. Queria se sentir desejada. Se apenas houvesse alguém que...

Ouviu um barulho vindo da sala. Mas quem seria? Ah!, lembrou-se, era o sobrinho do Meneses! Havia se esquecido que ele iria esperar pela Missa do Galo. Mas a Missa só seria dali a 1 hora...

Deixando-se mover pelo impulso, Conceição calçou as chinelas pretas e saiu pela porta do quarto. Quando chegou à sala, viu-o levantar a cabeça do livro. O que estaria lendo?

– Ainda não foi? – ela perguntou, com uma inocência fingida.

– Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

– Que paciência!

Nogueira, sempre muito educado, fechou o livro assim que percebeu que Conceição não iria sair da sala. Ela olhou cuidadosamente as opções que tinha e escolheu sentar-se na frente dele, de maneira que ele não tivesse para onde olhar, senão para ela, que estava vestindo apenas seu roupão branco.

Ele lhe perguntou se havia sido o motivo de ela estar acordada e ela respondeu prontamente que não, que havia acordado por acordar. Não sabia se ele acreditou, pois sua expressão não se mostrava totalmente convencida, mas sua boa educação lhe impediu de questionar.

Conversaram sobre o tempo que faltava para a missa, mas logo Conceição perguntou sobre o que ele estava lendo e assim, engataram a falar sobre livros. Ah! Que falta que ela sentia de conversar com alguém sobre os livros que lia. Seu marido não tinha interesse pela leitura e sua mãe há muito tinha olhos que se cansavam com facilidade.

Ao som da voz de Nogueira, sentiu uma chama ir se acendendo dentro dela. Aquele menino era tão jovem, tão puro. Aquela chama era errada de muitas maneiras diferentes. Mas ela não se sentia assim há tanto tempo, não se importava que fosse errado. Ela só queria se divertir um pouco. Se seu marido podia, por que ela não?

Enquanto ele falava, ela inclinou a cabeça levemente, deixando o seu pescoço à mostra. De vez em quando, passava a língua em seus beiços e observava os olhos do jovem se grudarem por alguns segundos na sua boca, acompanhando o movimento da língua nos lábios. Achou que estava conseguindo mexer com a cabeça dele e se viu sorrindo por dentro.

– Dona Conceição, creio eu que vão sendo horas, e eu...

Conceição levou um susto. Não poderia ter interpretado os olhares do menino errado. Tinha certeza do que havia visto! Em uma tentativa desesperada de provar para si mesma que conseguia conquistar o desejo de um homem, ela falou:

– Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

Ela respirou aliviada quando ele respondeu e a conversa voltou a fluir. Aproveitou-se da resposta e fez um comentário sobre estar ficando velha, jogando a isca para ver se ele iria contradizê-la. Não resistiu e abriu um sorriso quando ele negou com tamanha rapidez e veemência. Os jovens eram tão mais simples, belos e previsíveis.

Levantou-se e caminhou até a janela. Precisava tomar um pouco de ar. Andou de um lado para o outro, fingindo estar arrumando algo na cortina ou mudando a posição de algum objeto. Ficou satisfeita ao sentir que os olhos dele a acompanhavam, analisando-a. Escondendo o sorriso que tinha no rosto quando estava de costas, virou-se em direção ao jovem.

Perguntou-lhe sobre o motivo de querer assistir à Missa do Galo na capital, mas ela já sabia a resposta. Ouvindo aquela voz leve, ela aproveitou para se inclinar sobre a mesa levemente, apoiando os cotovelos no tampo de mármore e colocando sua cabeça entre as mãos. Assim como sabia que aconteceria, sentiu as mangas do roupão caírem, formando um movimento natural, e percebeu os olhos do jovem deterem-se com desejo por alguns segundos nos seus braços agora desnudos.

Ele continuou a falar sobre assuntos que ela não prestou atenção. Percebia que ele se embolava com as palavras. Manteve-se naquela posição, sem tirar os olhos dele, se deliciando ao perceber que ele ia ficando mais nervoso a cada segundo. Aproveitando-se da proximidade de seus rostos, ela levou o dedo indicador a boca (movimento que ela sabia que seria acompanhado pelo olhar dele) e disse, sussurrando:

– Mais baixo! Mamãe pode acordar.

Eles começaram então a cochichar.

Cansada daquela posição, Conceição deu a volta e foi sentar-se ao lado de Nogueira. Cruzou a perna direita, sentindo o olhar dele fixo no seu movimento. Ela ouvia o que ele dizia sem prestar muita atenção nas palavras. Quando percebia que ele tinha parado de falar, ela lhe fazia outra pergunta, apenas para continuar ouvindo o som da sua voz. Que voz deliciosa ele tinha! Tão leve, tão diferente da de seu marido. Conceição fechava os olhos e sentia a voz de Nogueira acariciar a sua pele.

Quando ele começava a aumentar o tom de voz, ela pedia que falasse mais baixo. Dizia que era por sua mãe ter sono leve, mas a verdade é que aquela conversa aos cochichos deixava-a animada! Ele a fazia se sentir como se tivesse 17 anos de novo, com medo de ser pega pela mãe enquanto conversava com um menino.

Cansada de ficar sentada, Conceição levantou-se e Nogueira fez menção de levantar-se também. Ela colocou sua mão no ombro dele com o pretexto de impedir que se levantasse, mas a deixou ali alguns segundos a mais que o necessário. Seus olhos se cruzaram e ela sentiu um arrepio. A chama estava aumentando.

Com um misto de excitação e medo, ela se afastou e foi para perto dos quadros, que estavam na parede da frente. Falou sobre como os achava insultantes, aproveitando para fazer insinuações sobre como seu marido não tinha o menor respeito por ela. Se Meneses não lhe tinha respeito, por que ela deveria ter por ele?

Continuou a falar sobre vários assuntos, que foram saindo de sua boca sem que ela notasse. Falou tanto que acabou se perdendo entre o presente, o passado e o futuro. Pegou-se divagando, os olhos fixos na parede.

– Precisamos mudar o papel da sala. – disse, em uma espécie de transe.

Ficou ali, completamente calada, vendo a sua vida refletida naquela parede. Esqueceu do menino, da sala, do desejo que sentira; via apenas a si própria. Como foi que a sua vida havia se tornado aquilo? Sentiu a chama ir se apagando aos poucos, conforme via a imagem da mulher infeliz que se tornara.

Foi acordada do seu devaneio por uma batida na porta. Era o vizinho chamando Nogueira para a Missa do Galo. Mandou-o ir e virou-se em direção ao quarto, antes que ele pudesse ver as lágrimas que começavam a se formar em seus olhos.

Conceição se jogou na cama e chorou por uma hora inteira. Chorou pelo seu casamento infeliz, pelo horror em que a sua vida se transformara e, principalmente, pela mulher que fora naquela noite, mas que nunca mais seria.


Júlia Mattos

Apaixonada por boas histórias, sejam fictícias ou reais. Viciada em livros, filmes, séries, M&M's e Tic Tac de laranja.
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