devaneios e embriaguez duma rapariga

um monólogo introspectivo livre, tal qual o estado dos sonhadores e embriagados.

Íldima Lima

Relações Públicas de formação. Pensativa, curiosa, comilona e faladeira por natureza

Quem quer ser Lupita Nyong'o?

Muito além da repercurssão provocada por suas roupas e da sua celebrada conquista pelo oscar de melhor atriz coadjuvante há exatos 30 dias, Lupita Nyong'o tem hoje a oportunidade de se estabelecer para uma geração de crianças como uma referência exatamente do que lhe faltou na sua infância: um reforço positivo na construção e fortalecimento da autoiamgem da criança negra.


Tricia Messeroux01.jpg foto: Tricia Messeroux

- Eu quero ser paquita.

- Você não pode. Você é preta!

E foi assim, como uma foice afiada que, aos oito anos, recebi minha primeira sentença de vida. O crime, ser negra e por sê-lo não poderia ser mais nada além disso.

O sonho infantil, construído por uma representatividade exclusivamente branca massificada diariamente na tv, foi engolido à seco e por anos permaneceu soluçante internamente. Por toda infância tive que ser um alguém à parte das brincadeiras que criávamos pois “não havia papel pra mim". Depois daquela frase, mesmo junto à minha irmã de criação, nas nossas brincadeiras particulares onde eu podia ser quem eu quisesse sem julgamentos externos, no fundo me sentia uma farsa, porque internamente, cada vez que fingia com ela ser uma paquita ou uma Xuxa saindo da nave, eu sabia que era uma mentira. Que, como fora dito, eu não podia porque era preta.

Tal experiência pessoal - e transferível, foi certamente vivenciada por inúmeras meninas negras da década de 80 e 90. Não recordo de ter na época alguém negro na tv para me espelhar. Não queria ser nenhum deles. Todos eram empregados, escravos, ladrões, trapaceiros...eu não queria aquilo. Não me achava nada bonita porque não me reconhecia no que era dito belo. Detestava meu cabelo por me fazer perder tempo arrumando-o, um sofrimento diário, enquanto todas as minhas amigas, maioria branca, já estavam brincando com seus cabelos finos e ao vento. Não gostava de ir à praia com elas. Detestava a sensação de que, simplesmente, parecia que os meus cabelos densos e crespos não ficavam molhados. Não era isso que eu via na tv, nem nos filmes, nem nos desenhos, nos livros e nas revistas. Então porquê haveria de estar satisfeita com isso?

coresebotas01.jpg Imagem do curta "Cores e Botas" dirigido por Juliana Vicente

Não encontrando referências externas, me fortaleci internamente através da figura de minha mãe e minha avó. Pausa para pensar em minha avó. A história de luta de vida dela não cabe em uma folha de papel e não há tinta que consiga registrar com precisão toda luta dela, mulher, pobre, negra, mãe de cinco filhas, igualmente negras e pobres. Minha mãe - mulher, divorciada, negra e também pobre, criou-me sozinha. Ao tempo que descobri e pude perceber o quão valiosos exemplos elas eram, entendi que não precisava de referências externas. Minha avó, minha mãe e minhas tias, são culpadas por eu ter me apaixonado pela minha cor, minha ancestralidade e tudo que ela simboliza.

No entanto, quantas meninas puderam viver isso? Quantas negaram sua cor, sua origem, seus familiares por conta de uma ausência de identificação e representatividade numa fase onde naturalmente nos espelhamos em alguém que possui características que ansiamos internalizar? Não lembro em nenhum momento de minha vida de ter tido vergonha da minha cor, mas e quantas outras podem dizer o mesmo hoje?

Com o tempo, essa questão ficou adormecida em mim. Hoje, com sobrinhas, primas (e num futuro filhos) negros na família, sempre tento observar qual a percepção que eles estão tendo, assim como eu vivenciei. Pouca coisa mudou. Ainda somos aqueles que ninguém quer ser na mídia, com algumas exceções que às vezes não soam naturais. É como se fosse um incômodo, uma obrigatoriedade. Mas, recentemente algo me trouxe uma alegria genuína e singular: Lupita Nyong’o. Um nome e muitos significados.

Lupita-Nyongo-vogue-3.jpg Imagem - Vogue

Antes de desfilar os vestidos mais belos e comentados no circuito de premiações de cinema, Lupita estudou cultura africana e cinema na Universidade de Hampshire, nos EUA. Seu trabalho de conclusão de curso foi o documentário In My Genes e narrava a dura rotina de oito quenianos albinos vítimas de preconceito e violência. Além disso, fez um mestrado em atuação na tradicional Universidade de Yale. Caminhos de quem queria ir além de querer ser alguém que não si mesma.

No entanto, quem vê a atriz hoje pode não saber que não foi sempre assim. Nascida no México e criada no Quênia, a atriz, mesmo com a presença do pai como fortalecedor na construção da sua identidade negra, relatou em algumas entrevistas que não teve uma infância diferente da minha e de milhares de meninas negras. No evento Essence Black Woman In Hollywood, dias após a premiação do Oscar, a atriz proferiu um emocionante discurso sobre sua relação com a cor da pele e o impacto que isso teve em sua formação:

“Lembro-me de um tempo em que eu também me sentia feia. Eu ligava a TV e só enxergava pele pálida, fui provocada e insultada sobre o tom da minha pele cor de noite. E a minha única oração a Deus, o milagreiro, era que eu acordasse de pele mais clara. Na manhã seguinte, eu acordava tão animada em ver a minha nova pele que eu recusava a me olhar até que estivesse na frente de um espelho, porque eu queria ver o meu rosto claro de primeira. E todos os dias eu experimentava a mesma decepção de ser tão escura como eu era no dia anterior.”

Lupita-Nyongo-vogue-2.jpg Imagem - Vogue

A fala reflete absolutamente o problema na questão da construção da identidade negra fortalecido pela mídia. Curiosamente, a atriz que não se via refletida em revistas, programas de tv e telas de cinema, hoje é admirada justamente pela sua confiança, talento, inteligência e beleza. E, ironicamente, foi através de um filme onde interpreta uma negra escrava que é abusada exaustivamente pelo seu senhor e a esposa, no contexto escravocrata do sul dos estados unidos em 1863, que promoveu sua ascensão e lançou-a aos setes cantos do mundo. O filme – 12 Anos de Escravidão, além de render a estatueta de melhor atriz coadjuvante à Lupita, proporcionou que a imagem da atriz fosse propagada e que sua história ganhasse espaço e visibilidade. Adulta, Lupita se tornou o que em sua infância faltava: uma inspiração e referência para milhares de meninas negras ausentes de uma imagem para se reconhecer, identificar e projetar.

“E por isso espero que a minha presença em suas telas e revistas possa levá-la, jovem, em uma viagem semelhante. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também chegue ao mais profundo objetivo que é ser bonita por dentro.”

Não acredito que a presença e destaque dado a ela seja a solução de tudo, assim como sei que, muito além da beleza, existem inúmeras mulheres hoje, à parte da mídia, que fazem de sua vida uma bandeira de luta, tornando-se admiráveis, estabelecendo-se fortemente como influências positivas para uma geração inteira que cresce com um atraso, fruto de uma dívida que não se resolve facilmente. No entanto, é uma alegria singular e quase um reconforto poder ouvir de minha prima, de sete anos: “Você viu a moça pretinha que apareceu na televisão vestida de princesa? Ela ganhou um prêmio! Viu como ela é linda? E é da nossa cor! (olhos de espanto) Não penso em ser de outra cor! Achei ela linda”. Diferente de mim, que na mesma idade dela não tinha nada além de um exército loiro para me dizer diariamente que eu não era bonita, minha prima pode, através de Lupita, se enxergar como é: bela e cheia de possibilidades! É uma luz e frescor perceber que estamos por aí, mais do que nos espelhando em pessoas, construindo nossa própria história, respondendo às sentenças de que não podemos ser ninguém, sendo nós mesmas! Ou ainda percebendo que, como disse Lupita: “Não há tom para essa beleza”.

lupitaoscarfinal.jpg Imagem - Divulgação Oscar 2014


Íldima Lima

Relações Públicas de formação. Pensativa, curiosa, comilona e faladeira por natureza.
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Íldima Lima