devaneios e embriaguez duma rapariga

um monólogo introspectivo livre, tal qual o estado dos sonhadores e embriagados.

Íldima Lima

Relações Públicas de formação. Pensativa, curiosa, comilona e faladeira por natureza

As cores quentes da Guerra Fria

Se a guerra foi fria nos campos, ela ardeu nas telas do cinema com a difusão de ideologias e discursos subliminares (às vezes nem tanto) de supremacia, soberania e poder.


jamesobvious.jpg

Dia desses, estava bem feliz em casa largada às horas. Eis que me deparo com um lote de reprise da saga Indiana Jones. A atenção era quase nula ao conteúdo do filme e sobressaiu-se a isso um pensamento de escrever sobre como Hollywood “se fez” fazendo propaganda contrária à URSS. Muitas das produções clássicas de 80/90 se sustentam no conceito dualista e maniqueísta advindo da guerra fria.

Eu tenho 32 anos. Isso significa que somado às muitas doses de Nescau (achando eu que era meu suco de frutas Gummy) minhas tardes eram regadas a filmes que hoje são cultuados por gerações saudosistas ou jovens que se sentem deslocados. É interessante pensar que filmes como “Rambo”, “Rock” e “Indiana Jones”, a princípio inofensivos, emergem a disputa entre o bem e mal personificada na figura dessas duas nações. Ora, mas é fato que o cinema foi uma grande ferramenta propagandista da Guerra Fria. Filmes mais diretos como “Moscou contra 007”, “Apocalypse Now”, “Apollo 13” entre tantos outros retratam a forma como a difusão de elementos ideológicos e patrióticos foi tônica desse ciclo e responsável pela valorização da cultura capitalista, leia-se estadunidense, sendo o entretenimento a arma silenciosa que causou mais estragos no período, pois muito além de conquistar apenas territórios criou desejos e necessidades que só o capitalismo é capaz de suprir. Bingo!

Só que a raiz de tudo isso não se restringe aos saudosos anos 80 e 90, onde minhas tardes eram amplas e divertidas. A guerra fria durou quatro longas décadas de tensão e apreensão, como se a qualquer instante o mundo fosse simplesmente explodir de um lado, e porque não dizer, de ambos. O cinema foi usado como instrumento de fortalecimento da imagem de um regime (principalmente capitalista) e consequentemente formação de uma cultura, influenciando comportamentos e formas de percepção da realidade. Quem conta a história, faz um mundo do seu jeito e foram 40 anos e muitas histórias com o objetivo de fazer o mundo de um único jeito.

rocky4obvious.jpg

Desta forma, a diversidade de temas e conteúdo servia para atrair público para tratar do mesmo assunto. De filmes de aventura à corrida espacial, a sombra da batalha abstrata da Guerra Fria impregnou gêneros diferentes, garantindo sua abrangência e eficácia na utilização do entretenimento como difusor político e moldador de posturas, a partir da organização simbólica desses elementos. Daí a importância de Hollywood neste contexto, como parte de uma indústria cultural que é, sintetizar os conceitos e ideologias “benignas” de mundo livre e sonhos possíveis de sucesso e fortuna e dizimar qualquer possibilidade de projeção do “maligno” socialismo, inserido em seu sonho de liberdade, fraternidade e igualdade.

Em 1987 a Conferência de Washington dava fim a Guerra Fria e, dois anos mais tarde, o símbolo da disputa entre os dois blocos econômicos pela hegemonia mundial viraria ruínas. No entanto, não ruíram com o Muro de Berlim as possiblidade do uso do cinema para reafirmar ideologias ou reforçar/ moldar culturas aliadas a um interesse específico. O que ruiu foi a ideia de que no cinema é “tudo de mentirinha”, esta ficou perdida entre os escombros invisíveis da guerra em que o vencedor eliminou seu oponente sem precisar atirar.


Íldima Lima

Relações Públicas de formação. Pensativa, curiosa, comilona e faladeira por natureza.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Íldima Lima