Dardo Lorenzo Bornia Jr.

A Coisa

Já se perguntaram por que usamos tanto a palavra coisa? Na falta de melhor termo, tudo pode ser coisa. Aliás, tudo vira coisa em algum momento. Mas quais são as implicações do uso dessa palavrinha, tão pequena e aparentemente inofensiva? Esta coisa aqui, quer dizer, este texto é uma reflexão sobre a palavra coisa e sobre o quanto ela diz acerca de nossas sociedades ditas modernas.


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Poucas palavras expressam tão bem o espectro cultural das sociedades modernas ocidentais e ocidentalizadas como a palavra “coisa”. Apesar de provir do Latim causa, que significa “motivo”, “razão de”, e em que pese o fato de apresentar diversos significados, a palavra coisa comumente é associada aos objetos, àquilo que objetivamos, que tornamos palpável, tangível, mensurável. E a mesma não é privilégio das línguas neolatinas, haja vista a palavra inglesa thing, de origem anglo-saxônica, que, guardadas as diferenças entre as línguas, tem sentido relativamente similar ao que verificamos, por exemplo, em português.

Não quero propor aqui nenhuma discussão com os linguistas, que me criticarão por ensaiar, talvez irresponsavelmente, acerca de um tema que pouco conheço do ponto de vista científico. Apenas me refiro a um sentido muito peculiar da palavra coisa, que está presente em diversas línguas e que caracteriza, em grande parte, o espírito de nossa sociedade e de nosso tempo.

Entenda. Ao interagirmos com o mundo, com a natureza, paulatinamente construímos uma percepção utilitarista da realidade, em que todo o espaço extra-humano é considerado propriedade humana; tudo está a serviço da dominação humana. Os seres micro naturais e as forças macro naturais tornaram-se objetos domináveis, a fim de que se obtenha a supremacia do homo sapiens sobre o planeta.

Os próprios homens tornaram-se, em um processo que já vem de longa data, instrumentos de conquista humana, de dominação do todo. Esta visão muito singular no que tange à realidade além-homem, concebe, sem sombra de dúvida, o universo enquanto objeto, enquanto seres adquiríveis, pegáveis, utilizáveis, descartáveis. E isto por quê? Ora, porque o homem ocidental enxerga-se fora da natureza, vê-se como ser supremo. Afinal, ele não é pouca coisa, mas, sim, a criatura feita à imagem e semelhança de Deus pai, criador do céu e da terra.

Este homo economicus entende que tudo é seu e produziu uma determinada significação da palavra coisa no intuito de genericamente denominar tudo que lhe pertence. Na falta de melhor termo genérico, atribui-se aos objetos o substantivo coisa, que é vil, prosaico.

Nas sociedades do passado, dominadas pela crença na magia e bem menos arrogantes na compreensão de sua posição no mundo, pelo menos no que se refere às suas realizações práticas na interação com o universo natural, havia uma sacralização dos seres (vivos, sobretudo), que não permitia que os mesmos fossem entendidos como meros objetos, como coisas domináveis.

O termo coisa veio a vulgarizar a existência extra-humana, no sentido de legitimar o domínio humano do espaço e de seus elementos, agora dessacralizados. O desenvolvimento das ciências é parte indissociável do avanço neste processo de objetificação do cosmos. Ao objetivarmos tudo, repartimos o universo, fragmentamos os seus elementos, tentamos entender suas “partes”, a fim de extrair o máximo proveito das mesmas; afinal, trata-se apenas de objetos, de coisas.

As ciências constituem um legado cultural que busca a racionalização das coisas, que pretende analisar, medir, comparar, utilizar, criar, render, fazer, contabilizar, precisar, gerir, dominar, politizar, entre outras “coisas”. Em suma, são o sinal de que avançamos em nosso processo de dominação da natureza, que é motivado por uma compreensão não holística do universo, por uma percepção que vulgariza aquilo que não é humano e que considera que tudo está ao nosso dispor.

As origens disso são longínquas e é difícil precisá-las. Mas não é de se admirar que tal processo tenha se dado em uma sociedade que se vê não como a natureza e o mundo, mas como o criador do mundo, isto é, em uma sociedade que se percebe fora da ordem cósmica e de sua miríade de inter-relações entre os mais diversos elementos.

A objetificação do mundo, a conversão dos seres em coisas é tamanha, que nas suas interações, os próprios seres humanos transformam-se em objetos, utilizando uns aos outros, coisificando as relações entre pares, produzindo formas sui generis de desumanização do homem. Sim, porque se o ser humano transformou aquilo que não é humano em objeto, para diferenciar-se da natureza, que lhe é inferior, o que ocorre quando o mesmo coisifica (com objetivos utilitaristas) aos próprios companheiros de espécie?

Ora, na medida em que um ser humano transforma ao outro em coisa, retira-lhe a condição de humanidade, uma vez que, de acordo com os pressupostos intrínsecos à tradição cultural que herdamos, a não coisificação é condição sine qua non para que sejamos considerados humanos e para que vivamos como tal. Lembre-se: não humano = coisa = objeto = algo de que se pode dispor livremente, para fins diversos, haja vista sua condição de inferioridade e vulgaridade; ser humano = aquele que tem poder sobre o universo das coisas. Logo: se passamos a tratar aos próprios seres humanos como coisas, como seres utilizáveis e descartáveis, estamos coisificando-os, objetificando-os (transformando-os em objetos), isto é, estamos desumanizando-os.

Mas a coisificação do próprio homem não é algo que se dê apenas de uma pessoa em relação à outra. Ao submetermos nosso próprio pensamento, nossas ideias, nossos sentimentos, nosso trabalho, em suma, tudo aquilo que fazemos, a um modus vivendi objetificado, estamos desumanizando a nós mesmos. Ao fazermos de nós mesmos (e de nossa existência) objetos, coisas (mensuráveis, quantificáveis, calculáveis, analisáveis, domináveis, subjugáveis, compráveis, trocáveis, etc.), estamos destruindo nossa própria condição de humanidade e estamos acabando com nós mesmos, assim como fizemos com a natureza e com toda a realidade extra-humana.

Nós, seres que nos achamos superiores e que deturpamos o mundo em nome disso, demos início a um processo de autodestruição, de transformação do homem em coisa, de tudo em coisa. Tudo é objeto. Tudo pode ser utilizado. Achamos, erroneamente, que a natureza não é mais dona do próprio nariz. Temos a convicção de que uns homens e mulheres são propriedade de outros. Talvez fosse melhor se ainda adorássemos o sol e temêssemos o fogo.

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