dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo

Humildade & Arrogância: vícios

Sobre casas idênticas que diferenciamos apenas por não morarmos em ambas.


Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos: "O verme pisado encolhe-se. Atitude inteligente. Com isso reduz a probabilidade de ser pisado de novo. Na linguagem da moral: humildade". A humildade assim posta é uma camuflagem que superestimamos, uma postura que esconde do outro o que realmente somos, nossas limitações, sejam elas de qual natureza for. Isto compreendido, aqui vem o que pode soar como novo: a arrogância tem a mesma função desta humildade que pretende enganar. Se o verme que diminui quando ameaçado representa bem o humilde, o baiacu, que incha quando em ambiente hostil, é o animal totêmico do arrogante por excelência. Ambas posições turvam a clareza na relação dos Homens, ambas as máscaras confundem a função do rosto. Por que somente a arrogância é tida como vício, pois?

O mesmo Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano, escreve que "desaprende-se a arrogância quando se tem a certeza de estar entre pessoas de mérito". Isto porque onde até mesmo dobrando de tamanho mantêm-se menor que qualquer um dos presentes, a arrogância é um erro. Como então ser respeitado? Diminuindo a tal ponto que os fortes passem: a ter pena do humilde e a estima-lo. Arrogância e humildade são estratégias diferentes rumo ao mesmo fim, que é ser aceito. A humildade pelo rebaixamento, a arrogância pela ascensão. Vem daqui desconsiderarmos humildade como vício.

Vivemos na Era Cristã já há muito tempo. Os valores que guiam esse tempo está pregado em nós e em todos nossos preconceitos morais há muitas gerações. Um dos principais valores dessa Era se chama compaixão. Já deu pra perceber? A humildade, por ser a qualidade daquele que não se ergue (humildade vem do Latim humus, “terra”, remete àquele que “fica no chão") é considerada um valor nobre porque condiz com o velho preceito da covardia.

Em tempo: outrora se distinguia de fato o humilde do modesto. Hoje, embora os dicionários ainda possam diferi-los, a vida tratou de iguala-los. Por exemplo: diante um abismo que sei não conseguir saltar e me nego a tentar, algo que poderia ser caracterizado como humildade no sentido de auto-conhecimento, me chamarão covarde; se não aceito determinado prêmio com medo do sucesso, me chamarão humilde, embora falta de ambição pudesse ser chamada de modéstia.

Em tempo:

Twin Houses - Jamie Wyeth, 1969.jpg Twin Houses - Jamie Wyeth, 1969


Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo.
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