dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo

4 canções & 4 covardias no amor

Vinícius de Moraes, Lulu Santos, Racionais, Cazuza, a covardia e o amor.


Faz algum tempo que ouço frases como "não faço mais nada por homem", "não faço mais nada por mulher". Isso me enraiveceu, ao longo do tempo. Como é melhor escrever, ao invés de socar quem nos aflige, escolhi algumas canções brasileiras que gosto muito e giram, ao meu ver, em torno do tema. Ouçamos, pois.

John William Godward When the Heart is Young (1902).jpg"Quando o Coração é Jovem" - John William Godward, 1902

"Canto de Ossanha" - Vinícius de Moraes

A covardia de quem tem medo de amar por temer sofrimento e fica remoendo um amor passado. Ossanha como aquela que leva à alquimia do retorno, enquanto o coração pede um futuro.

Essa música guarda os mais belos versos que conheço sobre o assunto, aceitando o sofrimento ("Pergunte pro seu Orixá / O amor só é bom se doer") como caminho para algo mais além:

Vai! Vai! Vai! Vai!

Não Vou!

Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor

Que passou

Não!

Eu só vou se for prá ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor

Sinto profundo respeito por palavras tão sagradas. Vossos corações não tem vontade de se rasgar de paixão, também?

"Apenas Mais Uma de Amor" - Lulu Santos

É o tipo de covardia que mais me entristece, embora seja a forma mais inofensiva de todas aqui apresentadas. Inofensiva, sim, para o mundo exterior. Porque quem ama dessa forma, totalmente para dentro, pode ver surgir uma espécie de bomba que explode no coração do tímido - sem que ninguém ouça tal explosão. Mas, na canção, até ocorre um conforto por tal sentimento: "A alegria que me dá / Isso vai sem eu dizer". Talvez seja uma fotografia de um platonismo ainda no início...

Longe de rir do sentimento dos tímidos, até porque a timidez é minha velha companheira. Acontece que a partir de "Como uma ideia que existe na cabeça / E não tem a menor obrigação de acontecer", como diz a música, mundos de possibilidade deixam de existir! Quem sabe no que daria, falar com a pessoa admirada?

Por fim, a confirmação de tal covardia está presente na própria voz de Lulu Santos: "Pode até parecer fraqueza / Pois que seja fraqueza então"...

"Estilo Cachorro" - Racionais Mc's

Esse tipo de covardia passa por um amor específico: o duradouro. Mil corpos, nenhum porto: isso também é medo. Na canção, inclusive, há a demonstração de um trauma que deu origem a tal Estilo Cachorro:

Uns e outros aí, bom rapaz

Abre o coração e sofre demais

Conversa com os pais ali, no sofá da sala

Ouve e dá razão enquanto ela fala

E fala, cai no canto da sereia

Vê que ele é firmão

igual um prego na areia

[...]

Pra levá no trampo lá na Barra Funda

10 graus, cinco da manhã, sem problema

Se ela não morasse em Diadema

Pontual como o Big Ben, 4 ano assim

Nem Shakespeare imaginaria o fim

Te trocou por um vadio, sem vergonha

Que vende até a mãe quando acaba a maconha

E ela diz que é feliz, que ele é cabuloso

Cê pisa pra caralho, moscão, pegajoso

Bom, pra dizer algo assim, sugerindo "pisar", o Mano Brown deve ter visto o que todos nós, que viemos do subúrbio, vimos: relacionamentos amorosos sendo pivô de tragédias. Mas é razão para que haja covardia de tal tipo em relação aos amores futuros? Não.

"Blues da Piedade" - Cazuza

Das quatro, é a canção que melhor resume o não estar preparado para o amor. "Vamos pedir piedade / Pois há um incêndio sob a chuva rala": há quem ame como um chuvisco sobre o fogo, assim, com medo de molhar. Perigosíssimo, pois, para que haja amor em relação a outra pessoa, é preciso que haja amor em quem ama, primeiramente. A maior prova disso é se adaptar SIM às pessoas, e não esperar apenas "quem caiba nos seus sonhos". Pobre daqueles que só irão querer um relacionamento quando encontrarem alguém perfeito, que "não mudam quando é lua cheia". Pobre de nós! Piedade...

E além de tudo é uma oração!

Amém, senhores e senhoras: amem.


Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Luiz Guilherme Libório