dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo

A delicadeza dos hipopótamos, de Daniel Lopes, e a cor certa para um abismo

"Os olhos dela: abismos azuis. Cor certa para um abismo."


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"A delicadeza dos hipopótamos" é um livro escrito com sangue. Clichê dizer isso, depois que Nietzsche já besuntou (com razão) as mãos santas de Dostoiévski com tal imagem. Ocorre que, sim, é uma história visceral. Labiríntica, cheia de fábulas, sombria, mas sobretudo escrita com paixão. O livro foi publicado pela Editora Terracota, de São Paulo, em 2014. A história pode ser resumida a partir da parábola do retorno filial: Léo, o protagonista, volta para a terra natal, a terra dos hipopótamos e suas "delicadezas", para encontrar o destino de todo o filho, isto é, para tornar-se o próprio pai.

Tal mito de retorno, a essência do “ninguém é poeta em sua terra” bíblico, inclusive permeia toda a narrativa. Essa e outras imagens de Daniel se intercalam entre simbólicas e palpáveis, quando, por exemplo, há a descrição de uma mulher, importantíssima para a história, que vai da lucidez à loucura tendo como núcleo o cabelo que ela mesmo cortara, e o texto reúne corpo e espírito em um mesmo fluxo:

"Eu faria qualquer coisa para descobrir o título dessa tragédia que encenávamos. Às vezes, ela, Bia, parecia ser várias. Agora, por exemplo, atravessava a sala com passos muito decididos. Mauro havia retirado a corrente do pé dela. Seu olhar era sensual e direto e, mesmo os cabelos picotados que ainda há pouco me pareciam tão tristes, agora davam a ela as feições de uma medusa"

O livro é forte. O livro nos esmurra. Fisicamente? Pois o mito, quando nos agride, é sobretudo na pele: quem não lembra de ter encenado tal ambiguidade com algum amor? Pois "sem o abstrato, as coisas não se manifestam, quem já viu o amor entre serpentes? As palavras não dizem sem o espírito que nelas habita. O erudito diz: Amor, o poeta diz: Amor, a criança diz: Amor. A taça é a mesma, mas o vinho é diferente".

Por ser escrita com sangue, a história de Daniel está coagulada em meus olhos desde então, como após um murro. Com o olho assim, roxo, lembro da definição de Léo para os olho de Bia ("Os olhos dela: abismos azuis. Cor certa para um abismo") e sei que metade do abismo já tenho.


Luiz Guilherme Libório

Autor de Pagode Violento Sobre as Vísceras do Tempo.
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