dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018)

Uma angústia melhor do que eu


Essa cidade (tão cuturalzinha, nas propagandas, tão legal) guarda uma hostilidade especial no entorno da estação de ônibus. São fileiras de barracas preenchidas por dorsos nus amorenados, corpos para os quais não se estende auxílio das mãos apressadas que passam - entre as quais as minhas mãos estavam, entre as que não ajudam. São homens idosos há séculos, mulheres com o rosto escamado pela fumaça oleosa dos escapamentos, crianças. Por eles eu passo, professor recém-formado; alguns dias para ser chamado de filho da puta por algum aluno; alguns dias para presenciar a chegada da polícia na escola, ante agressões mais sérias. Mas passo vindo desse único cômodo que consigo alugar com meu salário parcelado, não de uma barraca aos pés desse construto de insânia que é a estação. O lixo arquiteta um quintal, na frente desses olhos pretos, o lixo próximo do posto de saúde de onde alguns deles invejam os pacientes que têm leitos. Passamos ilesos, passamos curvados e infelizes, mas ilesos.

Até que o frio.

Era segunda-feira, se não me engano, esse dia escorrendo arrependimento pelos caninos. Ao descer a escadaria gorda da estação, virei meus passos para esse minúsculo bairro, ausente de urbanistas e trasbordando restos de carvão, e vi um de seus desmoradores deitado de costas para a rua, quase completamente nu, no frio das 6h. E me angustiei. Ora, eu sei o que é minha angústia, cotidiana e mesquinha, eu reconheço a face da minha empáfia. E aquela angústia não era minha. Era uma angústia melhor do que eu, como engendrada por Cristo, uma angústia de amor. Naquele instante, rodei os olhos pelo movimento interno da avenida, pelas lojas, portas, viaduto, casas, em busca de um lugar para comprar um cobertor. Mas não parei, mesmo que tivesse achado uma loja de mantas, mas não me virei, e prossegui, espantado pelas lágrimas melhores do que eu a brotar para fora de mim. Meu Pai, até quando terei que suportar-me? As pernas seguiam firmes, o coração gritava. Meu Pai, até quando terei que suportar-me? Na minha prece canalha, nessa fúria ambígua, depois de tantos metros de deserto, uma idosa me parou, pedindo algo mais possível, pedindo café, comida.

Embora banal, esse texto culmina naquela mulher. Ela sabia que estava ali para ajudar? Mas se foi ela quem veio pedir ajuda! Labiríntico caminho. Meu peito se aquietou, depois dela, porque ela veio me auxiliar a auxiliar, dando ao homem que desejava um fardo, mas não podia carrega-lo, um pesinho para cumprir. Como uma criança, que quer ajudar o pai com o martelo, mas não o aguenta, e ganha um martelo de brinquedo. Continuo mau, vaidoso e mau, por isso sei que foi Deus quem nela pediu e que em mim realizou. Deus nos presenteia com martelos de brinquedo. Luzidio caminho. Aquele homem nu continuou dormindo? Este homem nu que sou despertou?

Beggar.png "Beggar" - Theo van Doesburg (1914)


Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018).
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