dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018)

Eu, um professor brasileiro de escola pública


Embora no mês passado eu tenha decidido sair da escola em que trabalho, ainda sou professor de escola pública. Por que resolvi ficar? E por quanto tempo mais?

Após anunciar meu desligamento, após o feriado de 1º de maio, fui até a escola para assinar o respectivo documento de dispensa. Quando cheguei lá, muitos alunos, informados de minha decisão, cercaram minha caminhada, implorando para que eu ficasse. Alguns pediam rindo, outros quase irados (mais tarde me contaram que houve quem chorasse), mas todos com um tom urgente de recém abandonados. Alguns deles entraram na secretaria, como se protegessem o papel do ataque da minha assinatura, e assim construíram a resposta da primeira pergunta: resolvi ficar porque os alunos pediram.

Agora, resta responder a segunda questão. No entanto, há algo a falar, antes.

Sou professor de Língua Portuguesa. Isso significa que estou em um front sem tréguas, com o rosto encostado no arame farpado do descaso histórico desta sociedade. Mereço explicações? Não; para o Brasil, isso significa que devo explicações.

Todas as outras aulas partem da habilidade de interpretação textual dos estudantes (seja a partir do texto falado da aula expositiva dos professores, seja a partir do texto escrito no livro didático) bem como a maior parte das profissões. Considerando isso, o SAEB 2017 apontou que menos de 3% dos alunos de 9º ano (dou aula para turmas de nonos e oitavos) têm nível adequado de Língua Portuguesa e Matemática para sua série. Menos de 3%.

Eu devo explicações, não acham? Comecei a trabalhar em fevereiro de 2019, estudei minha vida toda em escola pública, mas, com certeza, eu devo explicações. E não as tenho. Não consigo explicar. Eu dou aulas, as mesmas aulas que, como monitor, já dei em colégios cujas mensalidades alcançam entre dois e três salários mínimos. O que muda lá, o que muda aqui? Será que o fato de existirem monitores? Já ouvi muitos palpites: lá há menos alunos em sala, as famílias cobram mais dos filhos, eles têm uma antecedência educacional melhor construída. A minha opinião sobre a causa do problema engloba estes palpites e mais um: não dá certo pela simples postura do adolescente pro qual leciono não ser de estudante.

O conhecimento não tem valor intrínseco para meus alunos, logo não são estudantes, são jovens sem escolha de ir e vir, sem a opção de estarem em outro lugar. O que importa é o resultado monetário, e o conhecimento, portanto, só vale se virar meio para a riqueza, o que talvez já não pese tanto para os que nasceram ricos. Aliás: como posso usar a educação como barganha se pago do meu próprio bolso o ônibus para o trabalho e a direção já me solicitou papel higiênico para abastecer a escola? "Ei, fêssor, funkeiro ganha mais do que você, vou estudar pra quê?" ou "Uai, estudou tanto pra vir de busão todo dia?" são algumas falas possíveis. Tenho que pedir para que não dancem, não cantem, não cuspam pela janela. Já fui empurrado e chamado de filho da puta. Ensinar Língua Portuguesa? Exceção.

Mas (eu ainda não respondi) por quanto tempo mais serei professor deles?

Uma vez, uma aluna disse que oraria por mim. Eu disse que orava muitas vezes por eles. Além do meu trabalho, é isso que também devo fazer. Devo orar por eles - sinto que devo orar por mim também. Ao menos essa oração coordenada aprenderão? Não sei, não sei, não sei.

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Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018).
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