dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018)

Parecenças em "Do mesmo modo, ao fim da ceia", de Paulo Gonçalves


Primeiro pensei "tem algo de bíblico".

Isso foi no primeiro poema ("Ante as grandes tragédias,/ a única coisa que resolve/ é não ter nascido") porque lembrei de Eclesiastes ("Por isso considerei os mortos, mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver! No entanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol").

Há o título do livro, também, litúrgico quase a ponto de ser vela.

Depois, pensei, "há algo de Guimarães Rosa". Acho que foi quando li "O sol da tarde calca a corcunda do Pico da Pomária./ Meu olho faz por quê? para a luz despencada da Pedralva./ O dia vai terminar".

Lindíssimo.

E meditei: por que isso me emociona?

Vejamos: quem já amassou bem a folha da pitangueira para sentir seu cheiro, conhece a saudade do fruto que há na folha. Lendo Paulo, sinto novamente meus anos interioranos, faço das palavras de seu livro a folha de pitanga dos meus dias; só troco Maria da Fé, cidade natal do autor, por Valentim Gentil, minha terrinha.

Reparem a exatidão com que vemos nele vendo: "Quando você é o terceiro ou o quarto da fila da lotérica,/ se olhar para a direita, pela travessa Tiago Corrêa,/ você poderá ver as oliveiras no último morro da fazenda Vargedo./ O verde clarinho revirado pelo vento".

Desse modo, por mais que eu tenha achado que "Do mesmo modo, ao fim da ceia" parece com Lavoura Arcaica, Sagarana, sei lá, ele parece mesmo é com a minha vida.

Mas, cuidado, o poeta diz, "Se você amou um lugar,/ nunca volte a ele".

Tarde demais, meu caro.

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Link para comprar a obra: https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/do-mesmo-modo-ao-fim-da-ceia


Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018).
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