dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Esta lã de sal" (Penalux, 2020). Disponível em: https://www.americanas.com.br/produto/1832039872/esta-la-de-sal#info-section

na estação do escárnio

breve reclamação sobre escrever no Brasil


Existe, pequeninamente, uma cidade para onde vou nas férias. Não é minha cidade natal, nem é onde meus pais ou avós nasceram. É onde cresci, onde cultivei os inimigos comuns à adolescência de qualquer homem, é onde moram minha mãe e meu irmão.

Nesta cidade, encontrei um amigo que também estava de passagem por Valentim Gentil. Ao conversarmos sobre os tempos passado e futuro, ele me fez uma pergunta sobre o presente, questionando se eu ganho dinheiro "com isso de escrever". Respondi que não ganho, mas gasto dinheiro "com isso de escrever". Notei que minha resposta alegrou seus olhos, pois é um grande alívio para a vaidade que um colega dos tempos de escola não esteja rico.

Bem, existe uma imagem que utilizo para explicar a relação do brasileiro com a integridade: trata-se da repetição cotidiana de um erro na estação onde pego meu ônibus, em Belo Horizonte. Nas escadarias desse lugar, existem setas que apontam o lado correto para subir e o lado correto para descer. Ocorre que poucos seguem tais instruções, sendo comum que, entre esbarradas, alguém reclame com quem está subindo pelo lado certo. Isto significa que a institucionalização do equívoco fez, do erro, uma regra, a ponto de ser falta de educação manter-se educado.

E qual a semelhança entre a pergunta do meu amigo e o escárnio brasileiro?

Acerca disso, a pergunta individual representa a postura da comunidade, considerando que o proverbial "perguntar não ofende" é nossa bengala retórica de ofensa comum. Assim sendo, tais palavras trazem no seu bojo a inutilidade da prática intelectual para o brasileiro, pois ele não sabe que existem escritores valiosos e escritores sem valor a partir do que escrevem: para ele, o valor da arte é concebido no dinheiro que pinga no bolso do autor.

Isso parece se estender para todas as práticas intelectuais no Brasil, país que infelizmente eu amo tanto. A seta é esta: estudar. Mas, embora estejamos no lado direito dessa escada, temos que trombar com o escárnio dos que descem por onde pretendemos subir, cada um com dinheiro suficiente para pagar apenas uma passagem de ônibus.

"E esse caminho aí dá dinheiro?"

- ri o brasileiro

enquanto mastiga a placa do escritor futuro

com seus dentes

de ouro(-dos-tolos-)puro.

Aggravation, 1896 - Briton Riviere.jpg "Aggravation", 1896 - Briton Riviere


Luiz Guilherme Libório

Autor de "Esta lã de sal" (Penalux, 2020). Disponível em: https://www.americanas.com.br/produto/1832039872/esta-la-de-sal#info-section.
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