dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018)

na estação do escárnio

breve reclamação sobre escrever no Brasil


Existe, pequeninamente, uma cidade para onde vou nas férias. Não é minha cidade natal, nem é onde meus pais ou avós nasceram. É onde cresci, onde cultivei os inimigos comuns à adolescência de qualquer homem, é onde moram minha mãe e meu irmão.

Nesta cidade, encontrei um amigo que também estava de passagem por Valentim Gentil. Ao conversarmos sobre os tempos passado e futuro, ele me fez uma pergunta sobre o presente, questionando se eu ganho dinheiro "com isso de escrever". Respondi que não ganho, mas gasto dinheiro "com isso de escrever". Notei que minha resposta alegrou seus olhos, pois é um grande alívio para a vaidade que um colega dos tempos de escola não esteja rico.

Bem, existe uma imagem que utilizo para explicar a relação do brasileiro com a integridade: trata-se da repetição cotidiana de um erro na estação onde pego meu ônibus, em Belo Horizonte. Nas escadarias desse lugar, existem setas que apontam o lado correto para subir e o lado correto para descer. Ocorre que poucos seguem tais instruções, sendo comum que, entre esbarradas, alguém reclame com quem está subindo pelo lado certo. Isto significa que a institucionalização do equívoco fez, do erro, uma regra, a ponto de ser falta de educação manter-se educado.

E qual a semelhança entre a pergunta do meu amigo e o escárnio brasileiro?

Acerca disso, a pergunta individual representa a postura da comunidade, considerando que o proverbial "perguntar não ofende" é nossa bengala retórica de ofensa comum. Assim sendo, tais palavras trazem no seu bojo a inutilidade da prática intelectual para o brasileiro, pois ele não sabe que existem escritores valiosos e escritores sem valor a partir do que escrevem: para ele, o valor da arte é concebido no dinheiro que pinga no bolso do autor.

Isso parece se estender para todas as práticas intelectuais no Brasil, país que infelizmente eu amo tanto. A seta é esta: estudar. Mas, embora estejamos no lado direito dessa escada, temos que trombar com o escárnio dos que descem por onde pretendemos subir, cada um com dinheiro suficiente para pagar apenas uma passagem de ônibus.

"E esse caminho aí dá dinheiro?"

- ri o brasileiro

enquanto mastiga a placa do escritor futuro

com seus dentes

de ouro(-dos-tolos-)puro.

Aggravation, 1896 - Briton Riviere.jpg "Aggravation", 1896 - Briton Riviere


Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018).
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