dezcobertas

a arte que ninguém vê na tevê, deitado na cama, embaixo de dez cobertores

Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018)

Os injustos, o Justo

Um grande risco para a própria honestidade é este: crer-se bom só porque outra pessoa é ruim.


Foto de Michele Marcial.jpeg Foto de Michele Marcial.

Um grande risco para a própria honestidade é este: crer-se bom só porque outra pessoa é ruim.

Vejam: um homem fumava debaixo da marquise, bafejando os traços sinuosos de fumaça no rosto dos passantes, enquanto outro homem, bêbado, cambaleava por ali, trombando nas mesmas pessoas da calçada. Era meio-dia. Os dois homens eram odiados pelos que passavam, julgados, mas dentro de seus corações eles pensavam mal apenas um do outro. "É melhor fumar do que ser esse bêbado que tromba em todo mundo", o fumante meditou. "É melhor beber do que poluir o ar como esse idiota", o bêbado refletiu. E as pessoas que por eles passavam, pensando o pior dos dois, ao tentar desviar de ambos trombavam em mais alguns, que também internamente xingavam a eles e trombavam em outros, etc, etc, etc.

Um grande risco para o próprio caminho é este: crer-se no caminho certo só porque outra pessoa está no caminho errado.

Vejam: há quem xingue e pense "pelo menos não bato". Há quem bata e pense "pelo menos não xingo". E há quem vendo estas duas pessoas pense que age com justiça, apenas porque não xinga nem bate, ou pelo menos porque só faça isso em seu próprio coração. Quem mata, está errado. Mas quem pensa em matar, como ousa dizer que tem as mãos mais limpas do que as mãos do assassino?

"Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo'. Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a juízo", disse o Justo.

E, como sempre, a sabedoria está em Sua voz.

Eu me ofendia com as feministas, quando elas diziam que os homens (no sentido de gênero masculino) são estupradores em potencial. Hoje não me ofendo, e ainda completo: tudo o que os homens (no sentido de espécie humana) são de ruim, eu também sou, em potencial ou na prática. "Pode um ser mortal ser perfeitamente justo diante de Deus?" - eu não posso.

Compreender que em todos os povos, em todas as nações, todos os indivíduos têm consciência de uma lei maior do que eles próprios, e que fracassaram ao tentar cumprir essa lei, constitui o início da real liberdade. O próximo passo é confiar que Jesus, o supracitado Justo, foi quem cumpriu integralmente esta lei, sendo assassinado em nome dos injustos que creem nele, justificando-os.

Porque se apenas o Justo pode jogar a primeira pedra contra quem erra, e a primeira pedra não foi jogada, quem mais ousará apedrejar quem quer que seja?

"Quando Jesus se ergueu, não vendo a ninguém mais, além da mulher, disse a ela: 'Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?' Disse ela: 'Ninguém, Senhor.' E assim lhe disse Jesus: 'Nem Eu te condeno; podes ir e não peques mais.'”

Amém!

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Luiz Guilherme Libório

Autor de "Instruções" (Penalux, 2018).
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