di sainha

livros, música, cinema, paisagens e relacionamentos.

Mari Rivas

Publicitária, aspirante a fashionista, prefiro ser chamada de “admiradora investigativa” do que “stalker profissional”. Email: [email protected]

Carta para um homem autoindulgente

Ele não deixa você se aproximar. Ele não quer se apaixonar. Ele te afasta e te confunde. Provavelmente você também já conheceu um sujeito assim. Pois bem, hora de dar tchau.


"Mas como você pode estar interessada? Você nem me conhece" - ouvi, calei e concordei. "Verdade" - Mas o que eu pensei foi um pouco diferente.

Eu conheço a sua pele de vampiro. Branca, lisa, perfeita. Eu conheço o jeito que você mexe no cabelo quando te fazem uma pergunta. Como você passa a mão pela testa, segura os fios rebeldes entre os dedos escondendo o rosto e só solta quando já sabe o que responder. Eu conheço a sua voz. Alta, firme, grossa e ao mesmo tempo gentil, educada, melódica. Eu conheço os seus olhos. Azuis, enormes, observadores e ao mesmo tempo inseguros e curiosos como os olhos de uma criança. Eu conheço as suas pernas inquietas. Não param nem por um minuto. E as mãos também. Super agitadas. Eu conheço seus braços com aquela tatuagem infantil que você fez ainda adolescente. Eu conheço a tristeza que você carrega. Tão engraçado, e tão triste ao mesmo tempo. Eu conheço o seu rosto quando ele muda de um sorriso para um vazio, longe, profundo, distante, perdido. Eu conheço a sua postura. A segura, madura, intelectual e cheia de atitude. Mas também conheço aquela postura de menino, entediado, sozinho. Eu conheço a sua boca. E como aquele restinho de barba chega até ela. Eu conheço a sua habilidade de me fazer rir. Rolar de rir. E a mesma habilidade pra me ferir com palavras duras e sem nenhuma piedade. Eu conheço a sua sala. Os seus pôsteres pendurados na parede. Os cinzeiros na mesinha de centro. Eu conheço a sua guitarra e o jeito que você chama ela de “meu bebê”. Eu conheço o seu jeito de me oferecer chá e de perguntar os meus planos pro dia. Eu conheço o seu quarto. Eu conheço as suas drogas, as suas roupas, a sua cama, a sua janela. Eu conheço o seu cheiro pela manhã. Eu conheço a sua timidez por trás da sua espontaneidade. Eu conheço o romantismo que você guarda por trás do seu ceticismo. Eu conheço as suas veias. Enormes na sua pele branca. Eu conheço a sensação de passar meus dedos por elas, fazendo o mesmo caminho seguindo o seu braço magrelo. Eu conheço a sua paixão pela ciência, pela tecnologia, mas também conheço o seu lado que usa uma meia diferente da outra porque acredita que isso atrai sorte. Eu conheço o jeito como o seu cérebro trabalha rápido. Maldito cérebro perspicaz. Eu conheço o jeito como minha opinião foi mudando sobre você, como você foi se tornando curiosamente interessante.

Mas você está certo. Eu não te conheço. Não conheço o seu passado e toda uma vida já vivida. Como foi mesmo que eu vim parar aqui? Como foi mesmo que tudo aconteceu? Como? Por quê?

Eu conheço o seu rosto quando eu disse que você não iria mais me ver. Quando eu disse que eu iria embora. Como os seus olhos ficaram ainda maiores. Foi fácil enxergar nesse momento como você só consegue enganar você mesmo.

Mas você está certo. Relacionamentos são estereotipados. Ninguém precisa disso. Relacionamentos? Bobagem. Eu nem te conheço. Adeus.


Mari Rivas

Publicitária, aspirante a fashionista, prefiro ser chamada de “admiradora investigativa” do que “stalker profissional”. Email: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// //Mari Rivas