di sainha

livros, música, cinema, paisagens e relacionamentos.

Mari Rivas

Publicitária, aspirante a fashionista, prefiro ser chamada de “admiradora investigativa” do que “stalker profissional”. Email: [email protected]

Amores Drogados

Não é só um trocadilho barato da minissérie.


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Eu nunca dormi na casa dele. Eu nunca participei de um almoço em família. Ele nunca me apresentou como sua namorada. Nunca viajamos juntos romanticamente para a Europa. Nós nunca fomos um casal normal com um relacionamento estável e saudável. E é verdade, ele também nunca disse que me amava.

Passamos longe do que seria socialmente aceitável. Eu consumia ele e ele me consumia como uma droga perigosa. Ou como naqueles desenhos em que o personagem é pego pela fumacinha do cheiro da comida e levado até ela. Seduzido.

Nós nunca queríamos. Resistíamos. Eu evitava até olhar, acreditem. Mas era como algo que morava no ar, assim como acontece entre os animais selvagens, pelo cheiro, pela pele, pelos sinais. Éramos viciados no cheiro da nuca um do outro.

E é também verdade que nós nunca fizemos planos sobre o futuro. Nós nunca ficamos abraçadinhos num sofá assistindo Netflix. A gente brigava. Brigava, batia, puxava, chorava, gritava e no fim de tudo sempre estávamos lá atracados com desespero de novo.

Sabíamos da nossa maluquice, mesmo que não disséssemos nada. Às vezes até bancávamos o casal “normalzão”, mas não durava muito tempo. Nós não éramos normais. Um tempinho parados no trânsito já era suficiente para a tal tensão pairar no ar. Ele apertava com força a minha perna, eu tentava rasgar a camiseta dele e já estávamos nos ódiamando de novo. Intensos.

Se era saudável? Não, claro que não. Eu poderia elevar o nível da Cantareira com a quantidade de lágrimas que eu derramava dramaticamente. Até a cena de escorregar atrás da porta eu já fiz. Porque nós gostávamos da companhia um do outro, mas a gente não se entendia. Eu queria mais do que chamadas no Skype que pegavam fogo. Eu queria mais do que ligações alcoolizadas na madrugada.
Interesses diferentes. Conflitos. Traições. Fofocas. Tudo isso machucava muito.

Não, nós não éramos inimigos. Éramos amigos. Eu me interessava pelos projetos dele e ele sempre escutava os meus desabafos sobre o trabalho. Em momentos difíceis, ele esquecia as desavenças e não demorava em demonstrar apoio. E eu ficava ao lado dele, mesmo nas situações mais bizarras. Mas ninguém sabia desse nosso lado. Lembrar do que é ruim, nos fortalece. Lembrar do que é bom, nos deprime. É infinitamente mais fácil falar sobre as negativas de uma relação do que admitir o bem que a outra pessoa já nos fez.

E como não quero fazer parte de um Mundo onde supor é mais comum do que perguntar, eu respondo sim a sua pergunta invasiva: Como você superou esse vício?

Com o mesmo diagnóstico de um dependente químico. Abstinência. Tempo. E claro, novas paixões.


Mari Rivas

Publicitária, aspirante a fashionista, prefiro ser chamada de “admiradora investigativa” do que “stalker profissional”. Email: [email protected]
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