diário de uma vida estranha

Divagações de um observador de felinos

Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas.

Albert Camus: o primeiro homem

Simples e tocante: espécie de autobiografia, o último livro de Albert Camus impressiona por esposar a crueza da miséria e a jornada de autoconhecimento do próprio autor. O que vemos em "O Primeiro Homem" é a realidade da existência. Um livro a ser lido escutando boa música é um convite à introspecção.


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Dar o primeiro passo é sempre o momento mais difícil da jornada. Por isso, a escolha do meu debut nesta nova empreitada, que é a Obvious Magazine, não foi fácil. A alegria de ter sido escolhido para fazer parte dessa comunidade foi imediatamente substituída pelo terror de ter de escolher um tema para dar início ao meu espaço. O tema deve ser cativante e intrigante, algo que chame a atenção do público e que, ao mesmo tempo, agrade e emocione a mim mesmo. Com um agravante: não poderia incorrer no lugar comum. Pela minha cabeça passaram-se inúmeros temas de livros ou filmes. Fiquei dividido, balançado, assustado. Afinal, escolhi. Escolhi um livro que tem sido um de meus grandes companheiros ao longo dos últimos anos: "o primeiro homem", do escritor Franco-Argelino Albert Camus. E, assim, escrevi este convite.

Há alguns anos um grande amigo chegou aos berros afirmando ter descoberto a “música mais bela de todos os tempos”. A música em questão era “elephant gun” da banda estadunidense Beirut. A partir desse dia descobri a banda que me acompanharia por longas horas de leitura e de caminhada. Nessa mesma época, peguei nas primeiras páginas de Camus.

Por uma curiosidade estranha, as músicas da banda, principalmente nos discos “Gulag Orkestar” e “FlyingClub Cup”, associaram-se à escrita de Camus, levando-me a ter sensações de quase êxtase ao lê-lo. Essa sinestesia singular, creio, deve-se ao fato de que as canções do grupo terem fanfarras e serem sempre muito melancólicas, compondo uma belíssima trilha sonora aos cenários e me levando à Argélia de Camus. As palavras e a música fundiram-se.

Li O primeiro homem ao som de Beirut em uma tarde fresca de verão e me perdi em meio à angústia, melancolia e realidade que existem naquelas páginas.

O livro é uma publicação póstuma do autor, que planejava escrever uma saga e conta a trajetória de Jacques Cormery. Em uma espécie de autobiografia, Camus nos apresenta à Argélia francesa do início do século XX, povoada com colonos franceses às turras com os nativos, todos nadando em uma miséria extrema. Mostra o início do nacionalismo argelino que mais tarde culminou em na guerra de independência e que foi o um dos motivos que fizeram o autor a deixar o país natal e se mudar para a França.

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De forma tocante, ele narra a infância difícil de Cormery (ele mesmo), seu crescimento e regresso na maturidade. Acompanha o personagem em sua descoberta, em sua busca pelo seu passado e pala sua história. Seu pai morreu na primeira grande guerra, nas trincheiras do Marne e, por isso, foi criado às duras penas pela mãe e pela avó em extrema miséria. É uma recordação do tempo perdido, das angústias da infância vivida em um mundo duro e difícil.

Ele é o “primeiro homem”, o primeiro a ter oportunidade de transcender a miséria, que apagava vidas e histórias e se tornar alguém. Ele é o primeiro a se tornar parte da história e existir. Tornou-se livre.

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Em uma das passagens mais tocantes do livro, Cormery ainda criança pega para si alguns tostões que tinham sido dados como troco de uma compra. Quando indagado pela avó onde estava o troco, ele afirma que havia caído na latrina e a velha, desesperadamente, enfia o braço em uma busca abjeta. A cena marca muito o personagem, que lhe mostra a realidade da miséria de forma brutal. E impressiona o leitor, que se depara com a mais absurda bestialização do homem.

Em outro momento, ele relata como a avó e a mãe pregavam pequenos pregos nas solas dos sapatos para que gastassem menos.

Carregada de existencialismo e crítica, a obra transcende o seu tempo e é um convite à reflexão e introspecção. Não pretendo dar mais detalhes da trama e tudo o que quero afirmar é a sua delicadeza perante a miséria e a história.

Em 2011 o livro foi adaptado para as telonas de forma magistral, recriando toda a atmosfera argelina do início do século XX, sua pobreza e força.

Albert Camus completaria 100 anos em 2013, morreu em um acidente de carro em 1960. Levava em sua bagagem os manuscritos inacabados do “último homem”. É uma obra inacabada inacreditavelmente acabada, mas que segue pouco conhecida do grande público.

É leitura indispensável! Indispensável pela atualidade e imperdível pela beleza das linhas de Camus ao som de Beirut!


Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas..
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