diário de uma vida estranha

Divagações de um observador de felinos

Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas.

Her

O cineasta Spike Jonze retrata, com melancolia e angústia, uma paixão entre um homem e um computador. Ou seria a paixão de um homem por si mesmo? Ou pela solidão? Com tais indagações, o filme "Her" impressiona e emociona, com sua fotografia minimalista, sua trilha melancólica e sua trama tocante.


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Em minha concepção, as boas histórias são sempre de dois tipos: ou despertam no público um sentimento inspirador, onde introjetamos aspectos de situações narradas ou dos próprios personagens em nossa vida depois, ou nos identificamos enquanto personagens da obra. Ou seja, uma boa história é aquela onde há uma certa empatia entre o fio da meada e nós mesmos; ou você se vê enquanto personagem ou o assume para si, tentando imitá-lo de alguma maneira. É a arte imitando a vida e a vida imitando a arte!

As vezes me vejo retratado em certas obras. Situações, sentimentos e conclusões se confundem e deixo de saber o que sou eu e minhas memórias e o que é a ficção. Ou, ao contrário, ao ver aquilo ali narrado vejo-me impelido a reproduzir e vejo aquilo como um farol ou uma bússola para ser seguida.

Quando o projetor começou a rodar, iluminando a tela gigante à minha frente, vi um retrato embaçado meu. As desventuras do personagem confundiram-se com as minhas próprias (guardadas as devidas proporções, é claro!) e suas indagações eram as que geralmente faço.

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Já vou falar desde logo, que não é o melhor filme que já vi (o que não é mesmo). Foi bem difícil começar a escrever sobre ele; é só um bom filme, com uma boa história e com a voz da Scarlett Johansson.

Her – Ela, no Brasil, filme roteirizado e dirigido por Spike Jonze, o rei dos indies, é um filme instigante e que deve ser assistido. Talvez você não crie a mesma empatia que tive com o personagem central, mas o filme certamente inspirará uma boa reflexão.

O filme se passa em um futuro retrô e acompanha Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor frustrado, recém separado e totalmente desiludido. Ele equipa o seu computador com um sistema operacional capaz de aprender e evoluir baseado nas respostas do usuário, sua entonação de voz, suspiros, etc. Samantha, como o computador se batizou, tem uma voz doce e meiga, um pouco rouquinha, é inteligente, engraçada, canta, compõe, tem ciúmes, sempre lembra dos compromissos importantes, gosta de passear e ver o pôr do sol...

No início, Theodore é um homem solitário, seu olhar denota sempre tristeza, angústia e medo. Ele acabou de naufragar em um relacionamento por não saber se expressar. Viu a situação degenerar e não conseguiu fazer nada a respeito, só se esconder enquanto a vida escorria por entre os dedos.

Parafraseando Gabriel Garcia Marquez, a memória do coração apagou as más lembranças e deixou só os bons momentos, que ele revive nos sorrisos e nos olhos de sua ex mulher (interpretada por Rooney Mara). Ele julgava que ela era o grande amor de sua vida e começa a crer que já havia vivido e sentido tudo o que poderia sentir.

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Lidar com o passado e com seus desdobramentos é tarefa difícil. Lidar com a memória de um amor só é fácil com a chegada de um novo.

Até que ele compra o tal sistema operacional e escuta a voz apaixonante de Scarlett Johansson. Poucas cenas depois, seu bigode refletido no espelho já denota a alegria de um homem apaixonado.

Não entrarei em mais detalhes da trama, mas já posso adiantar uma coisa: leve um lenço para o cinema.

Com cenas deslumbrantes e uma montagem fantástica, o filme encanta, também, pelo visual futurista retrô (o figurino é um show á parte!) e pela atuação de Phoenix, mas o filme tem seu grande mérito nas questões que levanta.

Em uma era de informação rápida e de facilidade de comunicação, estamos cada vez mais sozinhos. E aceitamos o fato com muita naturalidade. Theodore é um egoísta, que prefere a solidão à encarar novas aventuras amorosas e Samantha é um retrato seu. Por isso, a paixão é inevitável: ele apaixona-se por alguém que se constrói com base nele mesmo.

Há livre arbítrio nas ações do computador? Ou tudo o que ela faz foi pré-programado? É possível ser feliz depois de já se ter amado uma vez?

O filme recebeu cinco indicações ao Oscar 2014 (Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original ("The Moon Song", de Karen O) e Melhor Design de Produção) e ganhou merecidamente a estatueta no quesito de melhor roteiro. Creio que foi injustiçado quando falamos da categoria de melhor música. Tire suas próprias conclusões!

Vi-me alí retratado em vários momentos! Quem nunca olhou o pôr do sol com uma pitada de melancolia?


Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas..
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