diário de uma vida estranha

Divagações de um observador de felinos

Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas.

O processo

Kafka é um dos autores mais icônicos do século XX. Suas obras, envolvidas em uma atmosfera onírica, reconstruíram os cenários de uma Europa devastada pela miséria do ser humano. Em "o processo", ele narra o absurdo da vida humana em cores angustiantes e opressoras.
Acompanhamos um protagonista agonizante por entre os corredores infindáveis de um tribunal, que pode ser em qualquer lugar e em qualquer época.


É o absurdo da vida humana!

Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum

O processo.jpg

Um certo dia, ele viu-se detido sem saber o porque e sua vida foi arrastada por um turbilhão de emoções e situações surreais em um processo fantástico onde o acusado não sabe de que é acusado e nem como defender-se, onde funcionários são facilmente corruptíveis e o final já é sabido: a condenação! Assim pode ser descrito o romance O processo de Franz Kafka.

Josef K. é acusado em um inquérito que segue em segredo, onde até mesmo quem o detêm não sabe quais são as acusações; nem mesmo o juiz de instrução o sabe. O tribunal que o acusa – um misto de cortiço e tribunal – fica em um prédio decrépito nos confins da cidade; seus cartórios (onde os processos ficam guardados enquanto o julgador não lhe dá um fim com a sua decisão) ficam no sótão e tem um ar tão carregado que faz K. passar mal. Ele não sabe o porque e nem como se defender; é uma situação completamente absurda.

4Kafka-Prozess.jpg

Como advogado, você se pergunta, quase gritando, “mas, do que ele é acusado?”, “cadê o ‘devido processo legal’?”, “e as garantias?”. Mas essas não são perguntas válidas para esse romance. Ele se pauta no absurdo. As situações mais inesperadas ocorrem.

K. busca ajuda das mais variadas formas – desde um advogado enfermo e que não sai da cama, despertando a sua desconfiança; ao pintor do tribunal, um homem atormentado que pinta os quadros dos juízes. O que vemos é um protagonista agonizante por entre os corredores infindáveis de um tribunal, que pode ser em qualquer lugar e em qualquer época.

o-processo-19621.jpg

O processo que corre não é um processo comum, a defesa não sabe como atuar (pois não sabe qual é a acusação) e qualquer chance de escapatória se deve às relações com os funcionários do tribunal. Estes são descritos como crianças mimadas, que devem ser aduladas para não ficarem de “birra”; devem ser comprados, acariciados, para que o processo suma, perca-se em corredores e armários infindáveis.

Ele foi adaptado magistralmente por Orson Welles em 1962 (tem completo no youtube!!!). O filme é quase ipsis literis o livro e leva para a telona toda a atmosfera do livro de forma fantástica.

Depois de ler as suas páginas, andar pelos corredores do fórum ou do tribunal passaram a ser tarefas bem mais difíceis. Comecei a me sentir oprimido a cada passo, ao lembrar das situações surrealistas criadas pela mente de Kafka. A cacofonia de sons, o sapatos ressoando pelos corredores, as vozes lamentosas que ecoam por tal atmosfera são, para mim, sempre as mesmas que vi descritas por Kafka.

Um processo pode não ter a mesma aura onírica e absurda do livro, mas sempre desperta os piores temores e angústias daquele que é réu. A visão do juiz desperta medos inimagináveis mesmo àqueles mais ilibados. Assim, Kafka descreveu uma atmosfera aterrorizantemente real e que é vivida diariamente nos corredores dos fóruns e tribunais da vida.

url.jpg

O livro só tem um pesar, é sempre o presente de tia chata quando o sobrinho passa no vestibular de Direito. (desculpem a piada!)

É uma obra fantástica! Que nos agarra e leva a outro mundo, nos arrasta à Praga e aos corredores infectos do tribunal – mas acaba sendo um choque de realidade. É um livro que deve ser lido e relido (e quem entende alemão, aventure-se na língua mãe, pois é bem tranquilo).

Se você quer ser alguém interessante, leia!


Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Bernardo Pessoa