diário de uma vida estranha

Divagações de um observador de felinos

Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas.

Islands Blues

Os dias chuvosos são poderosos em sua amosfera irreal e nos levam em ondas de inspiração.


A chuva limpava cada pecado da rua e calava a sinfonia dos gatos. Havia começado mansa algum tempo atrás e, por esses dias, era de uma ferocidade sem igual, castigando telhados e arrastando desavisados para a melancolia. O mofo já começava a aparecer aqui e acolá; rostos cinza esverdeados, de olhos tristes, sempre voltados para o chão em uma busca desesperada de fugir das poças, começavam a embolorar.

O mundo mofava a sua volta e tudo o que conseguia pensar era um emaranhado de lembranças confusas. As gotas batiam em seus óculos, embaçando a vista e atrasando seus passos, o casaco estava ficando pesado, os pés levantavam água. Estava indo.

Subiu pelo velho elevador, de detalhes dourados e buscou ver-se no espelho fosco. Não enxergava a si. No instante entre o toque da campanhia e a abertura da porta, tentou acalmar-se, tentou colocar os pensamentos em ordem. Era só um jantar; um jantar em uma noite chuvosa e fria. Uma ilha.

Ao vê-la, parada na porta a sua frente, pensou em desistir, ir embora, inventar uma desculpa qualquer e voltar para o buraco que chamava de casa. Não havia mais escapatória. Ela estava com um vestido preto, boca vermelha; realmente muito bonita. Isso aumentou sua sensação de desamparo. Pela fresta, entre ela e a porta, viu a sala escura, amarelada pela luz bruxuleante de velas. Poucos objetos, mesa, sofá e um violão encostado em um canto da parede. Uma cortina vermelha com vida própria bailava ao som do vento, deixando transparecer a luminosidade da rua, 20 andares abaixo. Tons de uma fotografia antiga. Um ou outro som abafado do mundo que se alagava abaixo de seus pés, um mundo que seria esquecido.

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“Trouxe uma bebida”, disse, levantando a mão e mostrando uma garrafa de vinho barato. Entrou reticente e começou o jogo. “Desculpe-me, mas não tem luz, não paguei a conta”, diz ela acanhada, aparentando uma vergonha sincera. Era nova, bonita, muito linda, traços limpos e com uma cabeleira preta; “uma verdadeira grega” pensou.

Hello my love

It's getting cold on this island

Soou a música enquanto ele tirava o casaco ensopado. “Gostei do apartamento, simples, porém arrojado” disse ao mesmo tempo em que se arrependia de dizer aquelas palavras. Não queria parecer pedante mas foi inevitável. Preferiu ficar calado e observá-la em sua exasperação para arrumar as coisas.

Sentaram-se frente a frente.

I'm sad alone

I'm so sad on my own

The truth is

Sussurrou de leve a música no toca discos enquanto bebiam. A única luz eram as duas velas sobre a mesa e a luminosidade avermelhada que vinha da janela. Manchado de sombras brincalhonas o rosto dela ganhava tonalidades particulares; era linda, estava linda. Aquele era o perigo que tanto temia. Aquele momento que precede a emoção, em que ainda há uma réstia de razão, onde ainda há tempo de agarrar-se para escapar do abismo.

Naufragou assim que a viu levar a taça lentamente aos lábios, olhando-o intensamente. Ele fazia exatamente os mesmos movimentos, sabia que a mesma angústia desesperada gritava dentro do peito dela. Os dois sabiam o que viria a seguir.

A comida foi servida, macarrão e vinho. Estavam bons ou era a fome que apertava. Ela não comeu nada durante a tarde, preocupada com a própria feitura do jantar; ele, por nervoso. Frente a frente, naquela atmosfera lúgubre e familiarmente antiga; sépia. Uma mecha caiu-lhe sobre os olhos e o blues continuava a dançar pelos seus ouvidos. A noite fria foi se transformando em um sonho morno.

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Uma mão sob a mesa e depois, uma mão sob a outra durante o calor da conversa. Conversavam o que? Trivialidades da vida, livros; passou pela cabeça dele, perguntar qual era a música que diluía o ar da sala, esqueceu ao perceber que duas pedras esmeraldas o fitavam. Olhos com luz dançante, embalados pelos vapores do vinho, engoliam-se. Um pé encostou o outro em um momento de distração. Depois, dedos entrelaçados e, por fim, línguas.

Levantaram-se em uma dança lenta, ela com as mãos na gravata, lutando para retirá-la, ele, com a mão na coxa, alisando-a. Poesia. O beijo sublimou o tempo, a sala ficou aquecida de uma forma cuidadosa, calor confortável de sonho. Os dois perderam-se em si mesmos, percorrendo os próprios labirintos, explorando o mundo novo do corpo. O cigarro morreu entre volteios de fumaça.

A mão dele, persistente, sob a coxa, levanta um pouco o vestido. Ligeira, a mão dela intercepta a dele. “Pode tirar o cavalinho da chuva”, diz entre um sorriso malicioso. “Com toda essa chuva lá fora? Impossível!”. Riram; um riso de intimidade tranqüila. Riram aliviados, a tensão inicial partiu-se e o resto de razão que os mantinha sãos esvaiu-se. O caminho estava livre para afogarem-se naquela poça de sentimentos, chafurdarem naquela paixão recém adquirida.

Ela empurrou-o para o sofá e pôs-se a sua frente. De uma forma um pouco desajeitada, seus dedos encontraram o zíper do vestido que, sem resistência, caiu molemente, escorrendo pelo seu corpo. A langerrie branca deixava transparecer uma sombra de pequenos pelinhos sob seu sexo. Seus seios apontavam a direção a tomar.

Ele a tomou nos braços e perderam-se naquela sombra macia até as velas queimarem-se por completo e o dia os surpreender.

We were much too young

Now I'm looking for you

Or anyone like you


Bernardo Pessoa

Estudante de Direito, leitor compulsivo e sempre cheio de opiniões irrelevantes, vive sentindo saudade daquilo que não viveu. É um eterno sonhador, criando seu próprio mundo a partir do que vai lendo por aí, ao lado de suas duas gatinhas mal-humoradas..
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