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É tudo tanto...é tanto sentir! - arte, música, literatura, vida e pés descalços -

Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho.

Querido professor

Quando se acende uma vela, não se lamenta por sua efemeridade. A chama finda, mas a imagem vista através da luz jamais se apaga. Da mesma forma, uma ideia iluminada, alimentada por anjos será para sempre um ponto de luz em nossas vidas, guardada em uma gaveta ou transformada em voo. Pelo dia dos anjos, é preciso lembrar que nossos queridos mestres são pedacinhos de vida, ladrilhos brilhantes, degraus flutuantes. Aos que nos emprestaram largos ombros, nossa mais pura e sincera gratidão!


quadro mágico

Quem já não ouviu falar de alguém como "mais do que um mero professor", com um doce sorriso? A intenção foi a mais pura, eu sei, mas, depois de tantos ensinamentos, uma lição não foi aprendida, caro colega. O que seria um "mero professor"? Professores não são meros! Professores são anjos que com seus saberes, suas vivências, seus sorrisos e seus bicos nos fazem grandes! Truques de ilusionismo, musiquinhas pra decorar, histórias de vida, "bom dias", gritos sem fundamento, muita paciência, falta de paciência, trocas de sorrisos, trocas de porquês, aquelas respostas prontas, aquelas respostas que nos surpreendem, aquelas em que nunca acreditamos, as respostam que nunca vieram, as piadas sem graça, as broncas e os elogios, as boas vindas a cada nova turma, as despedidas a cada ano, a torcida pra que deem certo os planos mirabolantes para os quais nos propomos aventurar...

Os professores são quase sempre nossos primeiros amores, sorte daqueles que tiveram o privilégio de amá-los. A tia da educação infantil, com aquele jeitinho maternal, carrega nos olhos muito mais que os cuidados com as pequenas criaturas que fomos um dia, mas o abrir de uma janela que não mais fechará, a menos que carreguemos cadeados nos bolsos. Não os carregue. Dê a mão a um professor. Abrace suas palavras. A tia da escola abre a janela e nos mostra os pinceis e as tintas. Daí, é só colorir, do jeitinho que a gente quiser. Abrem-se os sorrisos e as possibilidades. Os anjos, nossos queridos mestres, vão surgindo e sumindo de nossas vidas feito vento. Alguma coisa ficou. Muita coisa ficou. Alguém nos ensinou a entrar na roda, a pegar a fila, a esperar a hora certa de agir, a cair e levantar, a ajudar o colega, emprestar o apontador, apontar os sonhos. Alguém nos ensinou a colorir a cartolina, a pedir licença, agradecer pelo lanche, a esperar sentado, a não esperar tanto, a cumprir os prazos, a realizar as tarefas para casa em casa. Alguém nos ensinou a ouvir o sinal, a contar os segundos pro início ou pro fim, a aproveitar vinte minutos de intervalo como se fossem uma vida. Alguém nos ensinou que a nota vai de zero a dez, mas o “parabéns” e o “você consegue” valem muito mais que números. Alguém nos ensinou que o vermelho do boletim não é um castigo, é um alerta. Que é possível sobreviver a 14 anos de escola com notinhas vermelhas. É possível.

Alguém nos mostrou que há possibilidades, que há dúvidas também, sempre. Alguém nos ensinou a passear com palavras, a ler músicas, a ouvir os números. Alguém nos ensinou que quem está ali à frente pra ensinar a lição não quer reprimir, quer somar, fazer florescer, alimentar vontades, dar a largada para as nossas realizações. Nossos melhores amigos, nossos primeiros amores, nossos heróis e vilões. Eles, que nos fizeram calar e abaixar a cabeça, também nos fizeram subir degraus sem volta, abrir estradas sem retorno, nos deram asas. Esqueça as fórmulas, as regras, as medidas e as datas, mas não os esqueça. Guarde os pontos de luz que um dia te guiaram. Nossos guardiões bravos ou serenos que tantas vezes nos suplicaram atenção. Guarde-os. Nossos queridos mestres simplesmente não são meros, simplesmente não são simples. São pedacinhos de vida, ladrilhos brilhantes, degraus flutuantes. Eles nos emprestaram largos ombros. Aos nossos gigantes, nossa mais pura e sincera gratidão! A nós, uma vida repleta de grandes professores.


Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho..
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