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É tudo tanto...é tanto sentir! - arte, música, literatura, vida e pés descalços -

Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho.

Quem tem medo de falar português?

Falar corretamente não dói. Sério!


Sabe aquelas regrinhas básicas da língua portuguesa, aquelas palavrinhas que, frequentemente, ouvimos alguém falar de forma estranha ( que nem ousemos citar aqui para não criar hábito) ou até mesmo a acentuação ou a pontuação indevida ou escassa pelos escritos “internéticos”? Então, nem sempre é falta de conhecimento. Muitas das vezes é medo de acertar. Quem tem medo de falar na segunda pessoa do singular? Eu tenho, mas não deveria. Nossa língua é nosso instrumento maior, uma das mais complexas e bonitas do mundo ocidental, e não custa muito estudá-la e criar o hábito antes de sair cantarolando qualquer estrangeirismo por aí.

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Os meus óculos novos estão sobre a mesa. Ele veio nos buscar. Preciso de uma caneta para eu assinar. Traga uma caneta para mim. O avião aterrissou. Precisamos de aerossol para o bebê. Você vai falar assim e todo mundo vai olhar estranho certo? Certo. Mas no fundo, todo mundo ou quase todo mundo sabe que essa é a forma correta. O medo de falar corretamente e parecer antiquado parece tão ridículo quanto ter medo de assumir que 10 + 10 = 20. Tudo bem, sabemos que a língua não é uma operação matemática, mas o medo de aplicar aquilo que se sabe é, sim, inaceitável. Lembremos que há uma linha tênue que separa coloquialismos, regionalismos e aberrações ou “invencionismos linguísticos”. O mau uso da língua, quando se tem conhecimento dela, é moderno, jovem, normal, e, quando não se tem conhecimento, é aceitável, mas não deveria.

Marcos Bagno em seu primoroso e exagerado “Preconceito linguístico” – o que é e como se faz- traz uma teoria ou algumas ideias que levam ao conformismo de que a linguagem se transforma rapidamente e que devemos correr atrás dela, ou ficaremos perdidos no arcaico mundo do “deve ser”.

“Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem adiá-las, mas por entendê-las.”

O monolinguismo no Brasil é assumido; a homogeneidade linguística não. Assumir as variedades linguísticas no âmbito geográfico, social e econômico é uma coisa. Dizer que a língua muda é outra. O poder público e as escolas, se adaptarem sua linguagem ao seu público, estarão colaborando com o que mesmo?

Quando se ensina a uma criança que aquilo ali é um “colação” ou um “au-au”, é assim que ela vai chamar. Ora, dar acesso à língua é bem mais necessário que se adaptar às distorções. Uma criança tem limitações pra falar, pois ainda está em desenvolvimento e, por exemplo, não consegue falar “coração”, mas fala “colação”, se não vier nenhum adulto, um dia, para lhe falar o correto, é da outra forma que ela vai repetir. E então? A criança vai criar uma nova língua? O mesmo ocorre com os desfavorecidos no acesso à educação.

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Outra coisa a lembrar é o fato de que o mau uso de certas palavras, em alguns lugares, não se trata de falta de conhecimento da exata forma, mas falta de desenvolvimento oral; o ato de falar, articular as palavras, usar da melhor forma o aparelho fonador. Isso se deve a não prática da fala, da leitura. Onde se fala pouco, onde não se é instigado ao diálogo, há pobreza de vocabulário, há dificuldade de articular determinados fonemas. Se pedirmos para aquele senhor de 50 anos que trabalha na colheita de cana e que passou a vida inteira falando pouco, e no pouco que falava, se ouvia “pranta”...experimentemos dizer pra ele: Senhor é planta, PLANTA. Peçamos, então, pra ele repetir. Ele vai dizer “pranta”. Simples. Ele conhece a forma, acabou de conhecer, mas não tem o hábito. Ele não criou outra língua ao falar “pranta”.

Criar o hábito da língua portuguesa para os brasileiros lhes dando educação é bem mais honesto que sair, desenfreadamente, admitindo tudo o que se ouve pela frente e criando dialetos variantes da língua, pois estes não existem.


Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho..
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