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É tudo tanto...é tanto sentir! - arte, música, literatura, vida e pés descalços -

Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho.

Não entenda tanta coisa assim

Sinta tudo o que for possível sentir, mas não entenda tanto assim. Você, definitivamente ( ou quase), não sabe de muita coisa e seja grato por isso.


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Eu não acredito em aviões e, por isso, não tenho medo de despencar de sei lá quantos mil pés abaixo. Não se pode temer aquilo a que não se dá o mínimo de crédito, não é verdade? Onde já se viu uma maquininha se atrever a passarinhar e atravessar os meridianos sem pedir licença? Tenho visitado muitas cidades ultimamente, mas juro que não paro pra pensar em como fui parar ali. A ignorância, por vezes, é a cura. Se tivéssemos a mínima noção dos perigos que corremos desde o primeiro batimento cardíaco, não nos atreveríamos tanto, não mesmo.

Eu também não acredito na morte. Onde já se viu dormir e não acordar mais, cair na eterna escuridão, perder a consciência, cessar o existir. Desde que me lembro, eu existo e isso não terá fim, ou pelo menos nunca poderei ver o fim, contar essa história, fotografar o fim da linha. E, mais uma vez, o que não se vê, não se percebe e não se entende, também não se teme, porque não existe, enfim.

Daí vem a ânsia por não entender muita coisa. Tomar conhecimento de algumas coisas me faria, de fato, frear algumas ações. Os saltos, o caminhar, o nadar, até o comer seria cada vez mais evitado, o que não me convém, é claro. Já pensou comer galinhas? Elas são tão bonitinhas, não é? Por vezes, me pego fugindo dos entendimentos, das explicações cheias de pormenores, dos diagnósticos, dos resultados, das justificativas, das razões, dos porquês juntos, do desnecessário. Fujo da nova pesquisa que saiu naquela revista, sabe? Deve ser mentira. É preciso sentir mais que entender. Sentir tudo à volta, pois isso sim faz sentido e até redundância. O que se sente é real e o real não se explica, apenas se tenta. As tentativas são válidas, leia-as, mastigue-as, mas, depois, corra, fuja pra o mais longe que puder.

Viver é passar o tempo a sentir dores e alívios, enquanto se lê bulas. Ah não, das bulas eu não fujo, porque as bulas, meus amigos, são sinceras no seu teorizar. Nas bulas eu encontro o sentir, planejo o cessar, visualizo as sensações colaterais, as pedras no meio do caminho, as dosagens quase exatas, a explicação para o milagre da ciência acontecer, a magia da química e o caos da natureza, mas também prevejo a disfunção, o irremediável persistir dos sintomas, a indicação para que se procure outro médico, outro remédio, outra equação, outro caminho e a gloriosa confissão de que a vida não tem fórmula, que tudo pode dar certo ou tudo pode desabar a qualquer momento. Por isso mesmo, não entenda muita coisa, leia as bulas, mastigue-as, engula-as, mas não as absorva com tanta avidez. Sinta tudo o que for possível sentir, mas não entenda tanto assim. Você, definitivamente ( ou quase), não sabe de muita coisa e seja grato por isso.


Talita Nogueira

Talita Nogueira é advogada e escreve para a Obvious Lounge. Curiosa, amante dos acasos, meio peixe, meio borboleta, meio pedra, meio palavra. Alma extraterrestre, ama tudo aquilo que não conhece muito bem, e escreve pra que a corrente não caia e a bicicleta amarela siga caminho..
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