Tiago Santos Lima

Smog

Smog, ou: de como a cena musical independente escapou por pouco após quase morrer sufocada.


automatic-people.jpg Grupo curitibano Automatic People. Abaixo, o clipe de Smog, dirigido por Eduardo Baggio. Acesse o EP completo no Bandcamp da banda.

Para quem acompanha qualquer segmento do cenário musical, mesmo que de longe, não será necessário repetir aqui a trajetória decadente do modelo de negócios que esteve em vigência durante um longo período da história da indústria fonográfica.

Dá para contar em meio tweet: um dia veio o Napster, e depois disso o mundo nunca mais foi o mesmo.

Se, depois da ascensão e da queda da fita magnética, o CD e o DVD já começam a soar como tecnologias meio datadas e o Blu-ray às vezes pode parecer uma brincadeira retrofuturista, o fator que mais teve peso nisso tudo foi a popularização do formato digital “puro”—isto é, sem levar tanto em conta o suporte físico sobre o qual vai se mostrar pro mundo.

Sejam os arquivos conseguidos por meio da compra em lojas virtuais tais como a do iTunes e da Amazon, seja via downloads gratuitos de páginas situadas em zonas legais cinzentas, tais como o Megaupload ou o Rapidshare; sejam ainda executados por meio dos próprios softwares de navegação, através de um serviço de streaming, ou puxados direto de computadores alheios, via P2P, o fato é que as vendas de CDs já deixaram há um bom tempo de representar uma fonte de renda significativa para a maior parte dos artistas, quando não para as próprias gravadoras e distribuidoras que os representam.

Segundo um relatório recente, em 2012 a venda de CDs caiu 12,8% em relação ao ano anterior, enquanto a comercialização de música em formato digital viu uma ascensão de 9,7%. Surpreendentemente, a venda de vinis foi em boa medida responsável pelo crescimento de 3,1% no volume total de vendas, tendo crescido pelo quinto ano seguido, dessa vez a uma taxa de 17,7%, e fechado o ano com um ~escoamento~ de 4,6 milhões de LPs.

Diante dessa realidade já não tão nova assim, vários artistas do mainstream têm optado por experimentar modelos alternativos de distribuição.

Um dos casos mais famosos é o do grupo britânico Radiohead, que, em 2007, lançou seu álbum In Rainbows primeiro na rede, facultando aos internautas pagar quanto quisessem por ele. Não pagar nada também era uma opção. O mesmo álbum foi posteriormente lançado pelas vias tradicionais e, em parte por conta da fama prévia da banda, em parte pela estratégia de marketing adotada, alcançou o primeiro lugar em vendas no Reino Unido.

Já antes disso, em 2006, os veteranos do The Eagles tinham fechado um contrato que previa exclusividade de vendas de seu novo álbum para o gigante Walmart. 20 milhões de álbuns foram vendidos para a rede numa única tacada, e na primeira semana nas prateleiras 700 mil cópias foram vendidas, fazendo do primeiro álbum dos Eagles em 13 anos o número um da Billboard—quando a previsão era que a parada fosse dominada pela Britney Spears, que então lançava seu quinto disco de estúdio, Blackout.

É claro que estratégias semelhantes dificilmente funcionariam para artistas que não consolidaram sua reputação no período em que vender discos com o apoio da indústria fonográfica era sinônimo de sucesso. De todo modo, o que se testemunha hoje em dia é o surgimento de uma nova safra de bandas que produzem e distribuem seu trabalho de forma independente e gratuita, tendo a internet como principal veículo de divulgação. Atualmente, a principal fonte de renda dessas bandas é a apresentação ao vivo, recurso de que mesmo nomes consagrados têm lançado mão para se manter.

A consequência disso é que hoje o mercado musical é mais democrático. Embora não se façam mais megabandas como antigamente, há mais espaço para os iniciantes e os apaixonados pelo seu trabalho, em detrimento de hits empurrados pela propaganda para o consumo das massas. Esses continuam existindo, é claro. Nem pretendo taxá-los de nocivos. São antes produtos da indústria, e sempre que houver consumidores desejosos haverá uma indústria para satisfazê-los. Mas é bom constatar que a indústria e a produção independente, antes ameaçada de morte por sufocamento, podem conviver em paz.


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