distopia nossa de cada dia

Retratos de um caótico mundo pós-moderno e um pouco do que nossos limitados sentidos alcançam

Vital Silva

Nascido na terra dos papagaios, fascinado por seres extraordinários e por este mundo tripolar que me faz rir, celebrar e chorar

O paradoxo do olhar de Claudio Edinger

Nascido no Rio de pai alemão e mãe russa, o fotógrafo Claudio Edinger se estabeleceu como um dos mais importantes fotógrafos do Brasil. Sua arte ultrapassou fronteiras e hoje é reconhecida e exposta em diferentes partes do mundo.


Corcovado, RJ 2015 pro Claudio Edinger.jpg Corcovado, Rio de Janeiro, 2015.

Claudio Edinger nasceu em 1952 no Rio de Janeiro, mudou-se para São Paulo quando tinha apenas dois anos. Sua origem e infância foram grandes inspiradoras de sua obra, principalmente a cidade do Rio, constante musa de seus retratos.

Em 1976 em plena ditadura militar no Brasil se muda para Nova Iorque, em uma atitude que chama “auto-exílio”. Na conturbada e frenética Nova Iorque Edinger teve a oportunidade de fotografar no mais insano e inspirador reduto do tudo que aquela cidade poderia oferecer: O Chelsea Hotel. Edinger diz que “oitenta por cento do hotel era ocupado por pintores, músicos, vídeo-artists, escultores, compositores, fotógrafos, banqueiros, bruxos, psicopatas, paranoicos, drogados e algumas prostitutas de luxo”.

Chelsea Holtel 3, NY 1980 por Claudio Edinger.jpg Chelsea Hotel, Nova Iorque, 1980.

Aquela atmosfera caótica, perturbadora e por vezes desafiadora propiciou o surgimento de um de seus mais incríveis trabalhos, o “Chelsea Hotel”, posteriormente transformado em livro. Durante três anos Edinger fotografou o Chelsea, todos os dias, revelava e ampliava fotografias e as levava para seus moradores, acabando por conhecer outros e, obtendo permissões de fotografar nos quartos. O local carregava histórias por vezes aterrorizantes, como o primeiro andar, onde o rockeiro punk Sld Vicious esfaqueou sua namorada Nancy.

Chelsea Holtel 2, NY 1980 por Claudio Edinger.jpg Chelsea Hotel, Nova Iorque, 1980.

Chelsea Holtel, NY 1980 por Claudio Edinger.jpg Chelsea Hotel, Nova Iorque, 1980.

Logo mais em 1986 Edinger partiu para a Índia a convite do governo indiano para divulgar o turismo no país. Utilizou uma câmera Hasselblad usando flash e tripé para fotografar Varanasi. A religiosidade, as roupas, a arquitetura e os coloridos foram o que mais impressionaram o brasileiro.

Varanasi, India, 1986 por Edinger.jpg Varanasi, Índia, 1986.

Varanasi India, à beira do Ganges - 2014 por claudio edinger.jpg Varanasi, Índia, à beira do Ganges, 2014.

Taj Mahal India, 2014 por Claudio Edinger.jpg Taj Mahal, Índia, 2014.

Quando voltou para São Paulo em 1996, se impressionou com a grande transformação que o país tinha sofrido. Edinger conta que foi nesse período mais incisivamente que partiu em busca de sua identidade. Munido de uma câmera 4x5 começou a fotografar com foco seletivo as cidades de São Paulo, Rio, os estados de Bahia, Amazonas, Santa Catarina e mais tarde Paris, Los Angeles e Veneza.

Paris 2008 por Claudio Edinger.jpg Paris, França, 2008.

Ipanema, Rio, 2013 por Claudio Edinger.jpg Ipanema, Rio de Janeiro, 2013.

Veneza, 2013 por Edinger.jpg Veneza, Itália, 2013.

A partir da década de 90 Edinger fotografou o carnaval de diferentes regiões do Brasil, desde Paraty, Salvador, Rio, Recife e Olinda, o resultado excepcional não poderia deixar de virar o livro “Carnaval” que em 1999 ganhou o prêmio Higashikawa no Japão.

Carnaval 1 por  Claudio Edinger.jpg Ensaio sobre o carnaval, década de 90.

Banda da Carmem Miranda, 1991, Rio Edinger.jpg Banda da Carmem Miranda, Rio de Janeiro, 1991.

Bloco da Lama, Parati, 1995 por claudio edinger.jpg Bloco da Lama, Parati, 1995.

Edinger impressiona pela sensibilidade e pela forma que conduz o ofício da fotografia. Seus trabalhos de maior sucesso na maioria das vezes foram trabalhos demorados, questão de anos de dedicação a um determinado tema, escolha minuciosa das fotografias e muito de si.

Um desses trabalhos impressionantes é Old Havana, quando Edinger embarcou para a ilha cubana na década de 90. Ao mesmo tempo em que fotografou a beleza e o cotidiano da ilha dos Castros, conta da decadência do regime logo após a derrocada socialista, diz que “à noite não tinha nenhuma luz na cidade, era muito estranho, esses apagones. Nem luz de rua, nem nos prédios – só o farol de alguns míseros carros".

Old Havana.jpg Old Havana, Cuba, 1994.

Old Havana, Cuba, 1994.jpg Old Havana, Cuba, 1994.

Old Havana 2, Cuba, 1994 Edinger.jpg Old Havana, Cuba, 1994.

Inspirado pela doença de sua avó, que possivelmente sofreu de Alzheimer, Edinger se interessou em fotografar o Juqueri, maior asilo da América Latina, que na época abrigava mais de 3500 doentes mentais. Localizado na cidade paulista de Franco da Rocha, constituiu um grande desafio de sua carreira. Passou oito semanas negociando com a direção do asilo e tentando explicar que não se interessava em denunciar as péssimas condições do local, e sim entender a loucura. Realiza assim seu trabalho mais controverso: Loucura.

Juqueri por  Claudio Edinger.jpg Ensaio sobre a loucura no Juqueri.

juqueri 2 por  Claudio Edinger.jpg Ensaio sobre a loucura no Juqueri.

juqueri 3 por  Claudio Edinger.jpg Ensaio sobre a loucura no Juqueri.

Claudio Edinger hoje vive em São Paulo e já expôs trabalhos em diferentes galerias, dentre elas no Maine Photographic Workshop, EUA; International Center of Photography, EUA; Galeria Arte 57, São Paulo; Casa 11 Foto, Rio de Janeiro e Photographer’s Gallery, Londres.

Uma carreira tão impecável não poderia deixar de ser acompanhada de importantes prêmios como o Prêmio Hasselblad, Prêmio Abril de Fotografia, One of The Year's Best Books (revista American Photo por Old Havana) e Prêmio Ernst Haas. Dentre alguns de seus clientes estão Forbes, AT&T, Life, Nike, The Washington Post e The Rockefeller Foundation. Edinger é um fotografo em plena atividade, e hoje edita mais um livro, O Paradoxo do Olhar.


Vital Silva

Nascido na terra dos papagaios, fascinado por seres extraordinários e por este mundo tripolar que me faz rir, celebrar e chorar.
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