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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Réquiem para um leitor de quadrinhos

Um resumo do universo das histórias em quadrinhos a partir da década de oitenta até a data atual, apresentando, sempre por meio da perspectiva de um leitor, os principais acontecimentos e transformações do mercado editorial nacional.


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Uma estante de madeira com portas de vidro guardava edições remanescentes da coleção de meu irmão. Na maioria eram títulos de Tex, que àquela ocasião me causaram repulsa. Caubóis no velho oeste e ainda por cima em páginas em preto e branco não poderia ser atraente para uma criança de 5 anos de idade. Pelo menos não da minha geração. Por sorte, havia mais que isso. Algumas edições de Chico Bento e Pato Donald também estavam lá. O colorido das páginas e a simplicidade dos traços me cativaram imediatamente, mas então veio a frustração: Ainda não sabia ler.

A dificuldade para uma criança juntar as sílabas das palavras e vencer as cerca de 32 página de um gibizinho do Chico Bento ainda está vívida na minha memória. Demorava uma eternidade para virar uma página. A partir de então começaria minha odisséia pelo mundo fantástico das histórias em quadrinhos. Minhas primeiras descobertas foram a turma da Mônica da editora Globo e os títulos da Disney lançados pela Abril Jovem. As idas semanais ao jornaleiro se tornaram rotina, e as revistas, único alvo de minha mesada. Em uma dessas ocasiões, algo diferente me chamou a atenção: O Novos Titãs nº 57. A edição trazia a última parte da saga "Um lugar para morrer". Batman, Asa Noturna, Robin (Tim Drake), Alfred, Duas caras e até uma pequena aparição do Coringa estavam na melhor história em quadrinhos que já havia lido até então. Estava dado o segundo passo no universo das HQ's. O universo dos super-herois era mais parecido com a realidade, e portanto, mais maduro (dentro do possível, é claro).

ze carioca.jpg Então vieram o Homem-Aranha, O Incrível Hulk, Superaventuras Marvel, Capitão América e X-men, todos publicados pela editora Abril. Mas de vez em quando, eu olhava para a estante e através do vidro via as edições de Tex. Me perguntava o que havia de tão bom por trás daquelas capas coloridas. Em uma ocasião na qual estava um pouco enjoado do universo dos super-herois (e também não havia nada inédito para ler)resolvi que era hora de encarar aquelas páginas em preto e branco. A edição foi a nº145 De Tex segunda edição pela editora Globo: "Réquiem para um canalha". Só consegui parar de ler cinco edições após. Novamente aquela sensação de "melhor HQ que já li até hoje". O sangue-frio e o senso cru de justiça de Tex Willer, além de seu senso de humor, se mostraram mais cativantes que qualquer super poder. Estava dado o terceiro passo no universo de fantasia. Cada passo representava um ganho de maturidade. Chegou então a desestabilização da economia nacional. A inflação devorava o Brasil. Pude entender bem o que acontecia através das idas ao jornaleiro. Em um mês, a revista do Homem-Aranha custava 500 cruzeiros. Na edição seguinte, 600 cruzeiros. No terceiro mês consecutivo, 900 cruzeiros. Nesse ritmo não conseguia mais comprar revistas novas. Restavam então os sebos, que ainda continuavam acessíveis, e me permitiam conhecer antigas revistas como Superamigos e Heróis da Tv. Quando o plano Real foi implantado e a inflação estabilizada, o preço dos quadrinhos voltou a ser acessível. As revistas de super-heróis da editora Abril, em formatinho e com 80 páginas custavam R$ 1,45 em dado momento. As edições de Tex eram ainda mais baratas. Um preço realmente acessível para a época. Mesmo assim ainda não podia voltar às bancas. Àquela altura, minha família, pai e mãe comerciantes, ainda passava dificuldades financeiras devido aos estragos anteriores dos governos de Sarney E Collor.

tex.jpg A solução veio de meu pai, que informou que na feira central poderia comprar revistas por apenas cinquenta centavos. Eram tão baratas assim porque não possuíam capa, mas eram recentes. Era possível acompanhar o que saia nas bancas com um atraso de um ou dois meses. Passei anos sem saber como isso era possível, até um jornaleiro me contar: As distribuidoras entregavam as revistas às bancas. Após um prazo (cerca de trinta dias) o jornaleiro pagava a porcentagem referente ao que havia vendido e devolvia o restante para a distribuidora. Esta retirava as capas e as remetia de volta às editoras, comprovando assim que não haviam sido vendidas. Então o pessoal da distribuidora repassava as revistas sem capa para o pessoal que as vendia na feira central. Atualmente acho que o sistema mudou, por há muitos anos as revistas não são mais encontradas na feira. No final de 1995 a situação financeira da família melhorou, e eu pude até ganhar uma assinatura dos títulos da Dc comics (Novos Titãs, Super-homem, Super boy, Liga da Justiça e Batman e Batman). Alguns anos após, cerca de 1997, uma revista em formatinho de 80 páginas custava R$2,30. A essa altura, além de continuar acompanhando o universo DC, ainda sobrava dinheiro para manter o aluguel semanal de fitas VHS, que à época custavam de um a dois reais dependendo da locadora. O custo de alugar filmes e comprar quadrinhos era basicamente equivalente.

liga da justiça.jpg A situação melhorou ainda mais quando uma banca de revistas surgiu próxima a minha casa. Logo fiz amizade com o jornaleiro, que convenci a me alugar as revistas pela metade do lucro que ele obtinha com a venda (20% de cada título), no caso 10% do valor da capa. Foi assim que consegui o sistema perfeito. Acesso total. O que não comprava podia ler a um preço módico. Desse modo dei meus terceiro e quarto passos quase ao mesmo tempo. Primeiro com Sandman, Hellblazer, Preacher e os invisíveis. Eram os quadrinhos para adultos da divisão Vertigo da DC Comics. Em formato americano, cerca de 50 páginas por edição e custando cerca do dobro do que custava uma edição da Marvel ou Dc convencionais, as revistas preenchiam o vácuo deixado pelo cancelamento da Vertigo da editora Abril que, a despeito do sucesso, durou apenas 12 edições. Uma das alegações para o cancelamento fora o teor violento das histórias de John Constantine. Magia, sangue, sexo, morte e muitos palavrões jorravam das páginas dos quadrinhos para adultos. Perfeito para um futuro fã de heavy metal. Na verdade, o primeiro heavy metal que conheci foi a edição nacional da publicação europeia que publicava entre outros, trabalhos de Moebius e Sarpieri. Dessa vez demorei um pouco a me ajustar. As histórias vindas do velho mundo eram muito surreais, por vezes sem sentido aparente. Era como experimentar bebida alcoólica pela primeira vez, quando você se pergunta o que as pessoas vêem de bom em algo com sabor tão ruim. Mas todos sabemos o que acontece a um sistema que alcança a perfeição.

hellblazer.jpg No fim do primeiro semestre do ano 2000 a editora Abril anunciou uma nova linha de revistas que revolucionariam o mercado nacional de quadrinhos. Todos os títulos seriam cancelados para dar lugar à linha Premium: cinco revistas em formato americano, com capa cartonada em 160 páginas em papel LWC. Custo de uma edição: R$ 9,90. Para se ter uma ideia do impacto, as cinco revistas regulares da DC Comics à época (Os Melhores do Mundo, Super-homem, Super-Homem o homem de aço, Batman e os vigilantes de Gotham e Batman) custavam ao todo R$12,50, reunindo 500 páginas de quadrinhos. A Linha Premium, com as revistas Super-Homem e Batman reuniriam ao todo 320 páginas por R$19,80. O leitor que comprava todos os títulos mensais Marvel e DC desembolsava cerca de R$31,00 por 1150 páginas. Agora teria de gastar R$ 49,50 por apenas 800 páginas. A Abril ainda aumentou em 1 real o preço das revistas mensais nos dois últimos meses que antecediam o lançamento da nova linha, provavelmente para bancar os gastos. Não me parecia justo, e nem mesmo poderia pagar por esta revolução. As histórias em quadrinhos agora passariam a ser artigos de luxo. Inacreditável: Estavam elitizando os super-herois. No ano seguinte, em 2001, os mangás invadiam o mercado brasileiro com Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, ambas pela editora Conrad. Preto e branco, formatinho, papel simples e 100 páginas por R$3,90. O mangá virou febre, não demorando para outros títulos serem lançados e outras editoras investirem no mercado. A editora JBC atacou com Samurai X e Video Girl AI. O diferencial dessa editora foi o formato estilo livro de bolso e papel jornal. Em pouco tempo os mangás dominaram completamente as bancas em termos de números. Uma verdadeira invasão oriental que tornaria as bancas um campo de guerra.

samurai x.jpg Em 2002 a editora Mythos, agora detentora dos direitos sobre Tex, atacou lançando diversos títulos da família Bonelli: Mr No, Dylan Dog, Martyn Mystere, Mágico Vento, Zagor, Ken Parker, Dampyr e Júlia (não necessariamente nessa ordem). Os títulos custavam cerca de R$ 4,90, mas sofreram reajustes quase que constantes, alguns sendo cancelados entre 1 a 2 anos depois. Nesse tempo, continuei lendo a linha premium por meio do acordo de aluguel que firmara com o jornaleiro do bairro. Constatei que, pra infelicidade da Abril, as histórias tanto da Marvel quanto da DC atravessavam um esgotamento criativo, com raras exceções. Além disso, o mercado mais competitivo penalizava os super-herois. Um ano e sete meses depois de lançada, a linha Premium foi cancelada e voltou o formatinho, com o preço novamente acessível, mas com edições quinzenais de apenas ciquenta páginas. Moretti, um editor da Abril, admitiu o óbvio na época : "Tínhamos planejado terminar com a linha Premium, que tem um conceito elitista. Afinal, custava R$ 10,00 por edição, e dificultava o surgimento de novos leitores.". Soltei um sorriso de satisfação, afinal até então guardava um sentimento de soldado traído pela pátria. Mas logo em seguida a Panini ganhou os direitos sobre os títulos da Marvel e DC no Brasil, adotando o formato americano predominante atualmente. Algum tempo depois, a banca de revistas do bairro fechou as portas devido a arrombamentos constantes. E assim abandonei de vez os super-herois. Ao menos no papel.

dc 2000.jpg A popularização dos computadores e o avanço da internet discada também afetou o mercado. Por meio de uma professora de matemática (!) da universidade, descobri o blog Rapadura Açucarada, que disponibilizava Scans (revistas em quadrinhos digitalizadas) gratuitamente para download. Mesmo com internet discada de 56kbps era possível baixar revistas inteiras para leitura. Tive acesso a obras que até então só ouvira falar, em especial os títulos da linha Vertigo, como V de Vingança e Watchmen, ambos de Alan Moore. Outros blogs do gênero surgiram aos montes, mas o Rapadura era referência, tanto que chegou a sofrer ameaças de processos por parte de editores e periodicamente tinha seus arquivos apagados dos servidores. Mesmo assim, o blog existe até hoje.

Ser um leitor de quadrinhos não trazia muito reconhecimento social. Colecionar "gibizinhos" era considerado algo infantil e até mesmo ridículo dependendo da idade do sujeito. Claro que se trata de um preconceito estúpido como tantos outros que nossa sociedade alimenta. O motivo pelo qual parei de comprá-los foi inicialmente o econômico, mas vejo que isso aconteceria cedo ou tarde. Tornar um artigo caro é uma forma de valorização e reconhecimento, mas não acho que seja o caso dos quadrinhos, que deixaram de estar disponíveis a todas as classes sociais. Hoje, vemos em livrarias e bancas, títulos encadernados que chegam a custar R$ 40,00 no mínimo. Os sebos também não são mais opções de compra barata. Depois da ultra valorização, todos passaram a querer a sua parte.

heavy metal.jpg O mercado depende de uma renovação de leitores, mas como atrair novos leitores em quantidade suficiente para sustentá-lo se os custos mantém os jovens distantes? Ao menos os jovens que não tem muitos recursos. O quadrinho deixa de ser uma forma barata de entretenimento, perdendo para jogos de computador, internet, filmes e cd's piratas. Além disso, muitos leitores antigos, como eu, se cansaram de ler pela 20ª vez a morte do Duende Verde ou o retorno do Coringa, ou ainda um novo evento cósmico que vai dividir o universo em 300 terras diferentes. E o que falar dos lamentáveis reboots de eventos e origens? A criatividade está travada pelas grandes empresas por trás dos negócios. Mas até antes da invasão dos mangás, quando se falava em gibis, os super-herois eram a primeira coisa que vinha à cabeça. Outros tipos de histórias sempre existiram em nossas bancas, mas em quantidade bem menor, não se destacando. Os mangás apresentam séries diversas para todos os públicos. Ganham em criatividade e pelo fato de terem inicio meio e fim. No lado oposto, os fumetti da editora Bonneli (Tex e companhia) mantém as mesmas características dos personagens, desde a origem até as roupas que vestem (sempre as mesmas), mas inovam na criação de situações. A linha Vertigo proporciona aos artistas liberdade de criação de novas ideias, mas são quadrinhos para adultos, e como atrair os adultos para esses títulos? Durante minha narrativa mostrando meu envolvimento no mundo dos quadrinhos, falei dos passos que dei em direção a histórias mais maduras (Turma da Mônica, Disney, DC, Marvel, Bonelli, Vertigo e Heavy Metal). Esse seria o caminho natural, mas a ponte parece ter se partido. Ao menos para os menos favorecidos financeiramente.

dylan dog.jpg Caímos em uma questão paradoxal: O título vende pouco porque é caro, ou é caro porque vende pouco? É difícil ter certeza ao responder, mas acho que seria uma mistura dos dois motivos. Os scans proporcionam uma leitura gratuita, mas quem é do meio sabe que a preferência pela revista convencional ainda prevalece. Desse modo, o scan talvez funcione para atrair um novo leitor, e é pensando nisso que as grandes editoras estão apostando em disponibilizar títulos para download em seus sites. Se haverá um retorno considerável, só o tempo dirá, pois as apostas no meio estão arriscadas. Interessante que, como qualquer forma de arte, as histórias em quadrinhos acompanham os eventos da humanidade, retratando eventos históricos. Assim foi durante a guerra fria, quando a ameaça de uma guerra nuclear era tema presente nas aventuras da liga da justiça, homem de ferro e do herói atômico Nuclear. E diria que, assim como o mundo, agora os super-herois estão em uma crise de identidade, com dificuldades de distinguir o bem e o mal, como foram retratadas em Civil War pela Marvel e em Crise Infinita pela DC. Aparentemente, os uniformes coloridos colantes parecem estar cada vez menos sendo aceito, se tornando um conceito ultrapassado. Se é fruto da maturidade precoce da nova geração, deixo para os castradores freudianos afirmarem. Mas uma coisa é certa, hoje vivenciamos o paradoxo da aparência em detrimento do conteúdo. Temos edições de luxo apresentando histórias triviais de modo geral. Isso em relação aos comics americanos, ao menos. Mas nesse exato momento, em algum lugar desse planeta, alguém está com uma revista em quadrinhos tentando copiar a arte de Frank Cho, Claudio Castellini, Nobuhiro Watsuki, Maurício de Sousa ou até mesmo um mais ousado ainda tenta absorver as técnicas de Moebius. Muitos vão crescer e desistir, outros irão descobrir que se saem melhor escrevendo histórias, alguns mais irão seguir uma carreira de algum modo relacionada ao mundo das artes gráficas, e alguns poucos, apenas aqueles que enfrentarem a rejeição e persistirem, irão criar e dar forma a novos personagens e universos ou ainda assumir as lendas que os acompanharam durante uma vida.


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