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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

A Necessidade de Partir

A jornada de 90 mil quilômetros de Neil Peart para superar a morte de sua família


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Em 1997, sua única filha morre em um acidente de trânsito. Pouco menos de dois anos depois, sua esposa falece vítima de câncer. Quando as pessoas mais importantes de sua vida deixam de existir, qual a motivação para prosseguir? Restam os parentes próximos e os não tão próximos, os companheiros de trabalho e os amigos. No caso de Neil Peart, resta também uma carreira vitoriosa. Baterista da banda Rush, um grupo que atingiu o reconhecimento mundial. A maior banda do Canadá. Mas, o que importam o sucesso, o reconhecimento e a estabilidade financeira se nos sentimos sozinhos no mundo, sofrendo de uma forma que todos podem reconhecer mas ninguém pode ajudar? Essa é a questão que Peart teve de responder quando estes fatos aconteceram a ele.

Peart precisava encontrar uma nova motivação para sua vida. Precisou se reinventar, aprender a encarar o mundo sob novas perspectivas. Na verdade precisou encontrar novas perspectivas para continuar encarando o mundo. Definiu a sua situação como alguém que involuiu à alma de um bebê. Tornou-se frágil. Como tudo à sua volta lembrava constantemente sua perda, decidiu se afastar e, como um motociclista fantasma, partiu em uma longa viagem pelas estradas do Canadá e dos Estados Unidos.

Neil perdeu sua família. Acidente e doença. Apesar de restar as companhias do pai, mãe, irmão e amigos, se sentiu solitário, desconectado da vida. Naturalmente. Há muito adulto, se tornou emocionalmente independente daqueles com os quais conviveu diariamente sob um mesmo teto durante dezoito, vinte anos. Sua esposa e filha se tornaram as pessoas mais próximas de si. Eram elas que davam sentido à sua carreira, a atravessar o mundo em longas jornadas com o Rush, tocando para milhares de pessoas. A admiração de estranhos não é suficiente para suprir o contato

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Sua tragédia e recuperação foram registradas em A Estrada da Cura, um tomo de 500 páginas no qual o próprio Neil conta de forma intimista tudo o que aconteceu no período mais negro de sua vida. Durante 14 meses singrou 90 mil quilômetros pilotando uma BMW R1100GS vermelha, passando por Quebec, Alasca, costa americana e México.

A jornada não foi tão solitária ou perigosa quanto parecia. Poucos problemas sérios foram encontrados na estrada. Entre um ponto e outro, o baterista visitava amigos e familiares para se distrair. Aparentemente a solidão que buscava não o aliviava do sofrimento. Ao contrário, nos momentos em que se encontrava mais sozinho, como os pernoites em hotéis e pousadas, não raro chorava copiosamente. Na estrada, interagia o mínimo possível com outras pessoas. Mantinha um distância segura. Quando regressou ao lar para esperar a passagem do inverno e continuar a jornada, criou uma rotina de atividades que o mantivessem afastado dos maus pensamentos. Caminhadas em trilhas na floresta, jantares, livros, visitas.

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No geral, as reflexões de Peart beiram o trivial. Seu comportamento por vezes lembra a definição budista dos Deuses Orgulhosos. Sua carreira consagrada o permitiu ficar pouco mais de um ano sem trabalhar, pagar bons hotéis e restaurantes por onde passou, inclusive para impressionar uma garota que conheceu durante a viagem. O sofrimento do pobre é igual ao sofrimento do rico, mas este último tem mais opções para aplacar sua tragédia. Ao final da jornada, a sua dor foi anestesiada ao conhecer outra mulher com a qual viria a se casar rapidamente. Então, veio o retorno ao Rush e a vida prosseguiu. Simples assim. Vida real.

Após adquirirmos a independência financeira e emocional nos desgarramos primeiramente de nossos pais. É o primeiro vínculo forte que quebramos. Esse ao menos ocorre de forma natural. Quando algum ente querido morre, nos divorciamos ou simplesmente terminamos um namoro, passamos por um período de luto devido ao afastamento imposto. A jornada de Neil me fez refletir sobre a idade adulta, sobre a transitoriedade de nossas necessidades e o foco de nossos sentimentos. Concluí que, assim como ele naquele momento, sinto cada vez mais constantemente a necessidade de partir. Não porque perdi alguém, mas porque ninguém mais me impele a permanecer.

É bom ter um desafio, uma busca, mesmo que barata e sem muito sentido. (Neil Peart)


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