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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Vida, Morte e Morte em Vida de um Cinema de Bairro

A trajetória de um pequeno cinema de bairro de uma cidade do interior que acordou de um coma de 31 anos.


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Histórico das salas de cinema em uma pequena cidade do interior

Desde 1910, Campina Grande, na Paraíba, ao longo de sua história teve 13 cinemas. Destes, seis eram de menor porte, os chamados cinemas de bairro, uma espécie há muito em extinção em todo o país. Quando o primeiro Shopping Center de grande porte chegou, em 1999, trazendo o formato multiplex com várias salas, restava apenas o Cine Babilônia, localizado no centro da cidade.

Com capacidade para 1000 pessoas, o local há tempos sobrevivia a duras penas. Apenas um filme era exibido semanalmente em sua sala única. Caso se tratasse de um blockbuster de sucesso, como foi o caso de Titanic, este permanecia de duas a três semanas seguidas em cartaz.

Em uma época na qual o videocassete era artigo de luxo e a pirataria não existia, mesmo assim o cinema não atraia público o suficiente para sustentar suas atividades. O Capitólio, de mesmo porte e mais antigo que o Babilônia, se tornou um cinema exclusivamente pornô. Mesmo assim acabou fechando as portas.

Agora, com a concorrência de dvd’s piratas, downloads ilegais e o Netflix, os cinemas de um modo geral continuam a se lamentar da baixa lucratividade do serviço. Adotaram uma tática muito semelhante à do extinto Babilônia, dedicando várias salas a um único lançamento de sucesso, como foi o caso recente da estreia de Jogos Vorazes - A Esperança, que ocupou quase metade das salas de cinema do país. A estratégia motivou a Ancine, Agência Nacional do Cinema, a defender a medida de que um título só possa ocupar no máximo 30% das salas de um complexo, em uma tentativa de garantir a pluralidade de oferta de filmes.

A última sessão de cinema do Babilônia a que assisti foi A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999). Um público de cerca de, talvez, muito talvez, 30 pessoas, além dos grandes e gordos ratos que perambulavam pela sala, cavalgando pelas fileiras de poltronas. Vez ou outra era necessário levantar os pés para dar passagem aos roedores.

Sobre salas vazias, experimentei situações semelhantes no novo cinema, no shopping Center. A mais icônica foi a exibição de O Albergue (Hostel, 2005) em uma matinê de meio de semana. Apenas eu, um senhor e dois casais. Antes do final da sessão, os casais haviam sumido. Alguém poderia dizer que fora por conta do teor do filme, mas em outros títulos as salas não chegavam exatamente à metade da ocupação. Tentando reverter a situação, passaram a exibir títulos dublados. Deve ter dado algum resultado, uma vez que a infeliz prática perdura até hoje apesar de um novo grupo empresarial ter assumido as salas de cinema (que não mudaram muita coisa em relação à qualidade).

Cine São José, o filme que se recusa a apresentar os créditos finais

Foi em 1945 que nasceu o Cine São José, cujo proprietário era o mesmo do Capitólio e do Babilônia, o empresário Olavo Wanderley. No São José, eram exibidos os mesmos filmes do Capitólio, mas a um preço menor. Um para os pobres, outro para a elite. Vale ressaltar que ambos eram separados por uma caminhada de não mais de 10 minutos.

O Cine São José começou a enfrentar dificuldades já no final da década de setenta. Tentou sobreviver de reprises de filmes de faroeste, de lutas (subgênero que estava em alta na época), e das produções pornográficas, sempre o último recurso antes da falência total. Não deu certo. Devido a pouca frequência, em 1983 foi desativado após a exibição de mais um filme de artes marciais. Em seguida, alguns anos depois, seria a vez do Capitólio e, por fim, do Babilônia.

Já no mesmo ano houve o interesse do poder público, por iniciativa de um vereador, em desapropriar o São José com a intenção de dar destinação social ao prédio, transformando-o em uma Casa Cultural. Não aconteceu.

Em Setembro de 2001, por recomendação do Conselho de Proteção de Bens Históricos Culturais – CONPEC, parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba – IPHAEP, o velho cinema foi tombado como patrimônio histórico, passando assim à tutela do Estado, que durante muito tempo o tratou como um filho bastardo.

Durante a próxima década, nada aconteceu. O prédio continuou de fato abandonado. Vários projetos foram criados e esquecidos à despeito de algumas reformas superficiais. Em 2010, estudantes do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB, ocuparam o espaço. O propósito maior era impedir que o prédio passasse à responsabilidade do Município. Temia-se que a prefeitura utilizasse o São José para alocar comerciantes de rua. O movimento acabou mas o prédio continuou com o Estado.

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Em 2012 foi a vez de o movimento punk ocupar o local. O Heresia Coletiva organizou a Feira de Zines e Material Libertário, um evento que promovia trocas de roupas, lançamento de zines, venda de comida vegana e algumas oficinas. O grupo limpou o local, tentou dar vida aos escombros, mas logo se depararam literalmente com os muros do Estado: uma parede de tijolos foi erguida na entrada do prédio para impedir que “vândalos” entrassem. Nenhum obstáculo para um grupo subversivo. Destruíram o muro e tentaram dar continuidade aos trabalhos. Tentaram por um tempo.

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Levanta-te e anda

Finalmente, no início de 2013, o Governo Estadual da Paraíba assina uma ordem de serviço para restaurar o antigo cinema. Três milhões e setecentos mil reais e pouco mais de um ano depois, o São José abriu novamente as portas de forma oficial. A fachada do prédio manteve suas características originais referentes à arquitetura Art Decó. Internamente, ganhou quatro espaços distintos: A Galeria Saguão, o hall de entrada, um espaço para a exibição de desenhos, pinturas, quadros e esculturas; a Sala Limite, uma sala de cinema e teatro com 148 lugares; o Anfiteatro Geraldo da Rabeca, uma área a céu aberto para apresentações artísticas; o Café Literário, um espaço no qual o público pode se alimentar nos intervalos entre as atrações e ainda com uma pequena área para apresentações mais intimistas.

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Gestão Horizontal, uma nova forma de administrar a cultura

O Cine São José opera agora opera gerido pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba - Funesc. Não há presidente, não há ordenador de despesa, mas uma gestão compartilhada integrada por um diretor de Ação Cultural, um diretor de Áudio Visual e um diretor de Cultura Popular. As ideias são discutidas em reuniões com participação de um Conselho Consultivo representando a sociedade civil, as produções são preparadas e então levadas para a Funesc, que dá encaminhamento às contratações artísticas.

O músico Toninho Borbo, o atual diretor de Ação Cultural, comentou acerca do papel do Cine São José no movimento cultural da cidade. “Temos a missão de fazer duas linhas de atuação. Uma é a difusão de bens e serviços culturais. É fazer com que a gente consiga fazer uma circulação artística aqui pelo cine da produção de Campina Grande. A outra ação é a parte de formação. Trazer um pouco do padrão, do balizamento, da circulação artística que está acontecendo no Brasil, fora do Brasil, quais a ações que ocorrem por incentivo e iniciativa de várias empresas como BNDES, BNB, BB, e trazer um pouco dessa tecnologia cultural para os artistas que estão aqui galgando algum espaço, de alguma forma dando continuidade às produções deles.”

A produção audiovisual de Campina Grande tem tido uma prolífica produção devido, principalmente, aos cursos de Arte e Mídia da UFCG e de Comunicação Social da UEPB, sendo o agora reformado Cine São José um local perfeito para a apresentação dos curtas devido à localização central e à estrutura adequada.

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Cícero Alves, o diretor de Áudio Visual, falou a respeito da importância de uma sala de cinema não comercial para a cidade.“Temos muitos teatros. O Municipal, o Elba Ramalho, o do Sesc, o Lourdes Ramalho, mas sala de cinema que não seja comercial, não temos nenhuma. Então, ter o Cine São José faz com que essa produção à margem da Indústria, tanto a campinense, quanto a paraibana, quanto todas as outras, possam ser exibidas aqui para que o público que gosta de cinema e o que trabalha na área, possa conhecer todas essas produções. Ter o Cine São José é de extrema importância para fomentar e difundir a cultura brasileira, nordestina e campinense.”

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Grupos de teatro, conjuntos musicais, coletivos literários, artistas plásticos de menor expressão agora possuem um local próximo ao público para escoarem suas produções. Um espaço público, gerido com participação da população.

Mostra Cine Cultural em cartaz indefinidamente

No último final de semana de cada mês, o Cine São José tem aberto as portas oferecendo de forma gratuita eventos diversos que seguem ininterruptamente começando geralmente no meio da tarde até a meia-noite. Espetáculos de dança, teatro, exibições de curtas metragens realizados na cidade e em todo o país, apresentações musicais em formato acústico e elétrico, mostras de arte e pintura e sarais poéticos.

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Apesar da riqueza e diversidade das apresentações, o público tem comparecido de forma tímida. O fato não é exclusividade das atividades promovidas no São José nem muito menos uma maldição do local, mas reflexo da dificuldade em promover segmentos culturais que não são unanimidade entre uma população que alterna seu tempo ocioso entre bares e igrejas em uma cidade com pouco mais de 400 mil habitantes. Mesmo assim, em sua terceira edição, a Mostra Cine Cultural já apresentou uma evolução de público e, certamente, irá marcar mais uma fase do movimento cultural da cidade.


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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas..
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