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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Colóquio Silencioso Sobre a Eutanásia

Uma reflexão sem conclusão sobre a autodestruição


O britânico Tony Nicklinson teve seu desejo de morrer negado pela justiça inglesa. Com o corpo completamente paralisado devido a um derrame, podendo se comunicando apenas com o piscar dos olhos, pedia por uma morte em paz visto que não poderia desfrutar de uma vida digna. Sua família, esposa e duas filhas, o apoiavam. Nem morder a própria língua, como Maggie Fitzgerald, a boxeadora do filme Menina de Ouro, Nicklinson podia. Cerca de uma semana depois do pedido negado, morreu após uma pneumonia por consequência de uma greve de fome.

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“É sempre o Satanista que decide por sua própria vida, e se ele decidir partir com um largo sorriso nos lábios quando tiver atingido o pico de sua existência e conseguido tudo que sempre almejou, então precisa transcender a existência terrena. É claro que é completamente anti-satânico acabar com a própria vida porque este é triste, infeliz, miserável ou doente. O verdadeiro satanista morre forte, não por doenças, idade ou depressão. É ele quem escolhe a morte antes da desonra! A morte é o orgasmo da vida! Então viver é saboreá-la tão intensamente e sem limites, quanto for possível!”.

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Essas foram palavras do músico sueco Jon Nödtveidt, guitarrista, vocalista e líder da banda de Black Metal Dissection. Jon foi encontrado em seu apartamento, morto com um buraco de bala na testa, em meio a um círculo de velas. Partiu coerente com sua filosofia, em um momento no qual sua vida profissional estava novamente em ascensão. Não sou especialista em Satanismo, mas me parece uma filosofia na qual o conhecimento traduzido em liberdade se torna a verdadeira força.

A magia Drakoniana propagada por Aleister Crowley, por exemplo, mostrava o homem como um ser envolto por uma redoma de vidro na qual sua própria respiração produz uma névoa que o faz enxergar não mais que sombras do lado externo. O segredo é ser capaz de atravessar essa redoma, de ver o mundo como ele realmente é, sem desvios. A mesma da alegoria da caverna de Platão. A mesma sapiência que o Budismo Zen procura apresentar, uma linha reta apontando para a verdade.

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Para o Budismo, aquele que se mata para escapar de um sofrimento nesta vida, estará apenas gerando ainda mais sofrimento, sem que possa se libertar da roda do Dharma e atingir a iluminação. A parábola abaixo, contada por um monge, ilustra bem essa situação:

Num lugar, havia um boi que era obrigado a puxar uma carroça sempre sobrecarregada, de manhã até a noite. O boi não parava de pensar: “Por que eu tenho de sofrer tanto, todos os dias? Afinal, o que me faz sofrer assim? É isso! Eu sofro por causa desta carroça! Se eu me livrar dela, não terei mais de sofrer. Vou destruí-la!”

Certo dia, o boi correu loucamente em direção a uma grande rocha e destruiu totalmente a carroça. O dono ficou furioso. “Esse boi é muito rude. Se eu não arranjar uma carroça bem resistente, ele a destruirá de novo.” Então, o dono mandou fazer uma carroça de ferro, dezenas de vezes mais pesada que a anterior.E o boi teve de continuar puxando a carroça cheia todos os dias, mas seu sofrimento agora era centenas de vezes maior. Sem poder mais destruir a carroça, o boi arrependeu-se profundamente, mas era tarde demais.

O boi achava que sofria por causa da carroça e que, destruindo-a, deixaria de sofrer. Assim como o boi, você acha que destruindo seu corpo não sofrerá mais e que poderá ser feliz. Embora não saiba, ao morrer, você terá de partir para um mundo muito mais assustador e sofrido, sendo que este sofrimento será muito pior do que qualquer outro pesar do nosso mundo.Nem o boi nem nós temos qualquer escolha.

Escolher a morte enquanto se está no auge da vida é exatamente o oposto do que prega a doutrina Cristã, que parece dizer que, mesmo no pior momento da vida, estamos no auge dela. Aparentemente todas as doutrinas e religiões são contra o suicídio em momentos de fraqueza, sejam espirituais ou físicas. Tony Nicklinson também não poderia apelar para as filosofias orientais. Taoísmo, Budismo, Confucionismo parecem dizer para você aceitar a vida como ela é. Mas encontrei uma ligação do Taoísmo com o Satanismo. Nas palavras de Lao-Tsé “Árvores que parecem possantes sempre se aproximam do fim. O que está grande e forte já está a caminho da decadência.” Após o auge, segue o declínio, e é nesse ponto que o Satanista pode acabar com sua própria vida. Antes ou depois ele é considerado um fraco. Mas não tenho idéia de quantas correntes seguem esse conceito.

O Espiritismo fornece uma explicação para todas as dúvidas, como toda religião, aliás. Sobre a razão da existência das pessoas que nascem com alguma deficiência física é bem estranha. “Na visão espírita, o corpo espiritual ou perispírito traz de outras encarnações, alterações energéticas ou desequilíbrios que vibram em uma determinada frequência e ,por isto,sintonizam, favorecem, ou atraem situações de distúrbios mentais ou físicos.” Um outro praticante complementou informando que, quando algúem sofre uma morte violenta seu perisírito (envoltório da alma) pode ser danificado ou até mesmo destruído. Esse fenômeno, quando decorrente especialmente em casos de suicídio violento, poderá resultar em deformações na reencarnação.

A Reprogramação Quântica diz que somos seres compostos de energia (KI). Emoções positivas como alegria e gratidão expandem essa energia. Dor e inconformismo a contrai, gerando a depressão, literalmente abaixamento de nível por peso ou pressão. O encolhimento do KI joga as pessoas nas trevas, na dor, no desespero e na desilusão. Suicídio é a solução dos fracos exatamente porque a pessoa se encontra mesmo fragilizada.

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Até a ciência proíbe a autodestruição. A terceira Lei da Robótica determina que um robô deve preservar a si mesmo .Também eles não podem se matar, ainda que não tenham vida. Mas ficção científica e religião não possuem alguma espécie de parentesco? A indústria da medicina trata a depressão como uma doença e desenvolve remédios capazes de evitar o suicídio mas que, se tomados em excesso, o provocam ou transformam o paciente em um zumbi. Os cidadãos do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley não precisavam se preocupar com as cruéis mudanças de humor a que estamos sujeitos. Eles tinham o Soma.

A floresta do suicídio

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Na base do Monte Fuji, no Japão, os indecisos podem se isolar algum tempo em Aokigahara, a floresta do suicídio. Fria, desoladora e distante, um lugar perfeito para se matar sem o perigo de surgir alguém para te impedir. A cultura japonesa, desde os tempos dos samurais, vê o suicídio como uma saída honrosa. Acontece que jovens que não conseguem emprego, que fracassam profissionalmente, não suportam se tornarem um peso para suas famílias e procuram a floresta. Não concordo ou reprovo quaisquer das visões, atitudes ou filosofias que citei. Apenas procurei dialogar com as que conheço ou acho mais interessantes. Esse é o mais básico princípio do Livre Pensamento, da filosofia perene. Sou a favor da Eutanásia. O ser humano privado de uma vida plena é uma condenação cruel. Em certos casos, o direito a uma morte indolor é a mais justa e digna permissão. Que venha o Mahapralaya, a dissolução final do universo.

Eutanásia Universal

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De acordo com a cosmogonia hindu, o universo se alterna entre um dia e uma noite de Brahma. Durante o dia, todos os seres vivem. À noite, quando Brahma dorme, todo o universo desaparece. O problema é que um dia de Brahma dura mais de 4 bilhões de anos e esperar esse tempo todo para descansar em paz pode ser um tormento. Um dia e uma noite, somam pra lá de 8 trilhões de anos. Multiplique isso por 360, número de dias do ano, e depois por 100, que é o tempo de vida de Brahma e teremos algo como 300 trilhões de anos. Após esse período passageiro, o universo mergulhar na inexistência por 100 anos de Brahma. Imagine então se houvesse a possibilidade de acelerar esse processo? Uma eutanásia universal para um cosmos doente. O ex-guitarrista do Cacophony agradeceria.

Jason Becker era um guitarrista fenômeno. Aos vinte anos de idade, em 1990, substituiu Steve Vai na banda de David Lee Roth, ex-vocalista do Van Halen. Justamente quando estava em seu auge, o universo decide intervir. Durante as gravações do novo álbum, Jason foi diagnosticado com ALS (esclerose lateral amiotrófica), uma doença degenerativa, incapacitante e sem cura. Com uma expectativa de vida dada pelos médicos de apenas 5 anos, Becker sobrevive resiliente até hoje. Sem poder mover nenhum membro, o artista prossegue compondo músicas com a ajuda de softwares. Becker escolheu a vida.

Deveria ser natural que pudesse escolher também a morte. Tenho respeito pelas pessoas que tem a coragem de tomar a própria vida. Admiração em alguns casos. Ignoramos a dor do próximo, renegamos as teorias e comportamentos que fogem aos nossos dogmas ou ao simples senso comum, e definitivamente não toleramos a morte. Não há conclusão, não houve Satori, apenas um diálogo não concluído, uma frase viva, como diria um monge zen budista.

Para o universo, você tanto faz.


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