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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Quando Morrem os Posers

Quando os discursos caem e o som volta a se tornar a essência do rock n’ roll


Agora sinto o sol queimar a pele sob o tecido preto

“Os guerreiros ficaram no campo de batalha. Uns perdidos, vários corrompidos, viciados e tantos outros vencidos pelo cansaço, tornando-se esquecidos pelo heavy metal! A batalha continua, a conquista de novos territórios.” Propaganda de lançamento do álbum Guerreiros do Metal da banda Deadliness. Se não sentiu o chamado para a batalha no seu peito, talvez o metal não seja mais para você.

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No documentário Metal: Uma Jornada Pelo Mundo Do Heavy Metal (A Headbanger’s Journey, 2005), do antropólogo Sam Dunn, Bruce Dickinson fala a respeito da fidelidade dos fãs da música pesada. Ele comenta sobre o adolescente que, após muitas missões metálicas, começa a ter estranhos ataques de constrangimento por portar as sagradas mortalhas com estampas de logotipos ininteligíveis e demônios sorridentes. Do momento em que aquilo o faz ficar envergonhado como Eva e Adão (desculpem pela referência à Genival Lacerda em um texto sobre metal) no Paraíso quando tiveram a consciência de que estavam nus. É a vergonha da adolescência.

Esse fenômeno da vergonha adolescente tanto pode acontecer com funkeiros quanto com headbangers. Quem ouvia Led Zeppelin na adolescência, vai continuar ouvindo até ser bisavô. Geralmente bem verdade, mas provavelmente poucos irão manter aquele paiol de camisas pretas no guarda-roupa, ao menos não nos primeiros cabides. Talvez no fundo de alguma gaveta. O headbanger é bem semelhante aos vampiros criados por Anne Rice. Os mais velhos, solitários e exaustos de tantos anos ouvindo os mesmo riffs infinitas vezes, depois de verem sua turma abandonar o grupo um a um, tentam se aproximar de algum grupo banger mais jovem para se sentirem conectados ao movimento ou se adequarem ao novo enquanto que, ao mesmo tempo, ensinam os valores do antigo e verdadeiro metal. É aquele momento de apresentar o Manowar para os novatos. Na verdade não é absorver o novo, mas solidificar o velho.

Os estereótipos existem. Eu acredito neles. O headbanger é maconheiro, diziam eles. De fato, poucos que conheci não davam um tapa na pantera. O headbanger é satanista, diziam eles. Praticamente todos eram ateus blasfemadores e alguns se diziam satanistas mesmo. Só tem maluco nessa, eles diziam. Conheci muito maluco mesmo. Não tem mulher em show de metal, eles diziam. Bom, isso ao menos mudou um pouco aqui pelo interior do país.

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A música é talvez o elemento cultural mais unificador de todos. Ela convida à convivência. Shows, bares, casa de amigos, praça da cidade. Mais que isso, permite a comunicação entre pessoas com personalidades até bem diferentes. Não é algo que você vai ver em uma mesa de RPG, encontro de leitores de Marvel, DC ou em um grupo de Otakus, ainda que haja muitos headbangers nesse meio. Mas a prioridade deles não é mulheres, álcool, drogas e nem rebelião doméstica. Se você prioriza os gibis nas estantes durante sua adolescência, sua vida social vai ser pouco movimentada. A prioridade dos leitores de gibi não é o Metal, que deve ser a prioridade primeira de todo headbanger. Se não é o caso, então você não conhece o Manowar.

Metal Revolution

Em síntese, o que acontece é algo bem parecido com o videoclipe de I Wanna Rock ou We ain't gonna take it do Twisted Sister. O moleque se torna fascinado pelos riffs da guitarra e contraria toda a família deixando o cabelo crescer, aparecendo com amigos esquisitos em casa, preocupando os pais que pensam que o filho está entrando no mundo de drogas pesadas e assustando os vizinhos que perguntam por que ele só anda de preto. Aquele grupo se torna uma irmandade e os participantes começam a desenvolver uma paranoia crescente. Acham que há alguém que pode ser falso metal e ele pode ser você. Muitos nem conseguem se curar. Os vídeos do Twisted Sister são caricatos, mas essa fase da vida é bem caricata mesmo.

Um dos indícios para saber quem é o traidor é verificar se o sujeito é verdadeiro em sua devoção, se sente o metal no coração ou é poser e mercantilista. Para isso sua turma pode cercar um camisa preta que começou a curtir som dois meses depois que você e fazer uma sabatina como a que certos ministros sofrem no Senado Federal. Se o moleque não souber qual foi o primeiro nome do Motorhead, podem confiscar a camisa. (O Motorhead se chamava Bastard).

A coisa pode se tornar estranha a quem não está familiarizado com os diversos segmentos dentro do metal. O Black Metal não se dá bem com o Thrash, odeia mais ainda o Power Melódico. Fãs de hard farofa eram perseguidos pelos thrashers da Bay Area. O Heavy Tradicional e o Gothic não convivem bem. Aliás, o Black Metal detesta a todos sem grandes distinções. Se o Death tem teclado, não é Death. Punks não são bem aceitos.

Death to false Metal

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Havia uma lojinha no centro da cidade que vendia cd’s piratas. Era o ponto zero de disseminação de clássicos e novidades na música pesada. O novo do Iron Maiden você comprava lá. O primeiro do Rainbow também. O fornecedor ganhou tanto dinheiro com a venda dos cd’s que alguns anos depois abriu uma loja própria, legalizada, só material original. A loja logo se tornou um point de encontro dos metalheads, patrocinava e promovia shows na cidade. Daí veio a disseminação da internet banda larga e a decadência do comércio. No primeiro sinal de problema, sua esposa o trocou por outro, as dívidas subiram e as suspeitas de que ele fosse falso metal começaram a aumentar, até que o sujeito foi visto em um show do Chiclete com Banana. Falso metal.

Alguns músicos riem dos outros. Alice Cooper, com todo o seu teatro, ri da atitude de alguns grupos de Black Metal. Alice sabe que o que faz é encenação e não esconde isso. Ian Gillan, Joe Bonamassa e David Gilmour são, acima de tudo, músicos. A música de gente como Joey DeMaio e Mortuus se torna mais atrativa quando aliada a um discurso com características religiosas, com espadas, corpse paint e pregando a morte de alguma coisa, sejam dragões, cristãos ou do falso metal.

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O tempo passa e fidelidade continua firme apenas ao Estado Islâmico, porque ali é literalmente até morrer. É algo comum na cadeia quando se quer diminuir as influências das gangues afastar os integrantes em pavilhões e cadeias de estados diferentes. Universidade, trabalho em outras cidades, casamento e outras situações típicas da vida adulta desorientam a gente. De repente você se vê trocando a intransigência pelo respeito, especialmente se seus amigos estão longe e aquele novo grupo começa a reclamar e te xingar muito quando você coloca o Slayer para rolar em uma reunião etílica. Andar no visual sozinho não parece mais tão divertido. É hora de se disfarçar e não chamar muito a atenção.

A natureza chama e uns aceitam Jesus de forma tão radical que queimam seus discos hereges. Outros simplesmente os vendem, trocam ou doam, porque já estão com a mente aberta a outros sons e percebem que os acordes da MPB também podem ser tão complexos e gratificantes quantos as fritadas do Yngwie Malmsteen. E tem aqueles que adotam a tática alienígena. Estão entre nós, mas sua aparência é acima de qualquer suspeita. Em suas casas, longe de ouvidos indiscretos, resistem às implicâncias das esposas a respeito do som alto e continuam ouvindo Van Halen, Black Sabbath, Deep Purple, Kiss, Slayer...


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