distração planejada

Entretenimento direcionado para preencher a mente

celiosg

Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Esconda-se: você está sendo gravado

A vigilância eletrônica constante poderá tornar o indivíduo um ser humano melhor?


vigilância ética.jpg

Até que ponto a tecnologia pode moldar o comportamento humano? Não me refiro a oferecer transportes mais rápidos e seguros, ou novos meios de armazenamento de dados ou, ainda, uma panaceia que, finalmente, cure o câncer. Refiro-me a uma mudança mais íntima, uma alteração de consciência tão profunda que é praticamente uma quimera. A tecnologia pode modificar o comportamento do homem ao cercá-lo de mecanismos que o impeçam de mentir, criando uma sociedade mais ética, ou essa transformação só será possível via medicamentos tarja preta?

Eu não estive lá. Eu não o conhecia. Não fui eu. Eu? Eu, não!

Um corpo é encontrado em um apartamento. Assassinato. A polícia chega e começa a interrogar quem encontrou o cadáver, depois os moradores do prédio, a vizinhança, os parentes e amigos da vítima. Logo, o principal suspeito é apontado, mas ele nega que esteve no local. Nega até que conhecia a vítima. Cabe aos investigadores, e à perícia, reunirem o maior número de provas contra o sujeito para que sua condenação no tribunal seja bem sucedida. Um típico episódio de CSI, ou de qualquer outra série policial. Alguém em algum ponto mentiu, e o sistema - por meios indiretos - tem de revelar essa mentira.

A era da vigilância eletrônica já foi inaugurada. Casas, ruas e pontos comerciais instalam câmeras como se fossem lâmpadas. E sempre há a possibilidade de alguma testemunha estar registrando algum crime com o smartphone. O Google Glass ameaçou vir com tudo mas, estranhamente, ainda não aconteceu. Questão de tempo. A possibilidade de ter uma lente registrando tudo o que o usuário vê pode assustar a sociedade.

Trevor Hughes, repórter do USA Today, resolveu questionar como uma câmera pode mudar o comportamento das pessoas. Todo jornalista percebe o quanto a gravação em áudio ou vídeo anula a naturalidade do entrevistado. Até quando é com amigos de longa data ou familiares, o ato de registrar inibe, retrai o comportamento do outro. Agimos como índios primitivos que temiam que as câmeras sugassem suas almas. Durante alguns meses (MESES!) Hughes portou uma câmera gravando tudo o que fazia. Percebeu que, a partir de então, passou a dirigir mais cuidadosamente e passou a ser mais educado em público e com os colegas de trabalho. A tecnologia o lembrava de que ele poderia ser uma pessoa melhor. Mas ainda assim Hughes só respondia a si mesmo.

O fato gravado se torna inútil sem a lente de aumento da mídia

Claro que, sem uma supervisão adequada, a coerção do registro se torna nula. Pedófilos adoram gravações privadas. O motorista de uma empresa vai realizar seu trabalho de acordo com as normas porque há risco de demissão, uma vez que seu supervisor tem acesso às filmagens. A brutalidade policial estará em evidência. As gravações dos cidadãos durante as jornadas de Julho foi um dos fatores que convenceram a mídia e a opinião pública a reconhecerem a atuação beligerante das forças policiais contra os participantes.

No mínimo, as câmeras irão evitar que o profissional extravase quando cansado e frustrado. A filmagem dos policiais executando uma pessoa na favela e em seguida plantando uma arma em sua mão foi mais eficiente na prática que todo o trabalho de investigação e apuração desenvolvido pelo jornalista Caco Barcellos no livro Rota 66, onde denuncia o que vêm ocorrendo desde a criação do grupo Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar.

Quando as placas de “Sorria, você está sendo filmado” começaram a se tornar comuns, o cidadão imaginava que o crime iria diminuir. Não aconteceu. Criminosos continuam assaltando lojas, ônibus e casas. Alguns se preocupam em usar capacete ou boné. Outros nem se importam. Roubaram a câmera de vigilância da casa de um vizinho duas vezes. Apenas quando o caso foi matéria do jornal local a polícia localizou o criminoso. Sem a pressão da mídia, o caso não teria repercussão nem mobilização das autoridades competentes.

A criança na presença dos pais se comporta de modo diferente. O olhar paterno retrai seus impulsos, faz com que guarde aquelas ideias passiveis de censura para um momento mais apropriado. Ao menos era assim até a geração passada.

Quando ser ético não dependerá da tecnologia

Se tudo o que ocorresse do lado de fora de seu domicílio fosse registrado, possivelmente essa prática provocaria uma mudança de comportamento forçada pelo temor à exposição da mídia, gerando um linchamento virtual, ou demissão do emprego por sujar a reputação da firma. Fatos já corriqueiros, onde as redes sociais funcionam como lentes de aumento dos acontecimentos registrados. A pressão constante seria capaz de gerar uma mudança comportamental artificial, motivada por fatores externos que, a grosso modo, não impediriam uma explosão de sentimentos negativos represados. O indivíduo como uma usina nuclear em vias de superaquecimento.

Uma prisão psicológica é para onde a humanidade está migrando?

Os religiosos, especialmente os cristãos, acreditam que Deus os observa 100% do tempo e tudo gravado depois será cobrado no julgamento do juízo final. Curiosamente, a vigilância do pastor e das ovelhas parece funcionar melhor que o olhar divino. O budismo trabalha com o conceito de carma, uma espécie de auto-vigilância, onde a carga negativa de nossos atos é responsabilidade nossa e conseqüência natural das leis da vida, não dependendo da observância e julgamento de uma criatura divina.

O Bing Maps agora pode mostrar câmeras de rua em tempo real, acessíveis pela internet. O recurso está disponível em 11 países, contando com 35 mil câmeras disponíveis. Ideal para localizar aquele motorista que bateu e fugiu. Em um mundo no qual tudo é gravado e qualquer cidadão pode ter acesso aos arquivos, então teríamos possivelmente uma sociedade fantasma, onde apenas o comportamento superficial do indivíduo seria mostrado. Sua verdadeira índole, represada pelo temor do olho público, formando uma muralha moral ilusoriamente intransponível. Em uma realidade assim, os crimes não seriam extintos, apenas se tornaria mais fácil prender os criminosos.


celiosg

Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //celiosg