distração planejada

Entretenimento direcionado para preencher a mente

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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Exorcizando William Friedkin

O diretor fala sobre sua carreira, as produções de super herois, a polêmica acerca da ausência de mulheres na direção, racismo em Hollywood e suas impressões sobre a decadência do cinema e da arte em geral neste século XXI


Quando você é imune aos sentimentos dos outros, ainda assim pode ser um bom pai, marido e amigo?

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"Em 45 anos eu dirigi apenas 19 filmes, apesar de ter produzido ou tentado fazer mais; também dirigi dezenas de programas de TV ao vivo. Dirigi uma pancada de shows e até óperas. Alguns dos meus filmes são bastante conhecidos; outros foram esquecidos, perdidos na montanha russa de Hollywood, onde alturas estonteantes são seguidas por abismos profundos.

Após terminar um filme, entrego as cópias ao distribuidor e concedo entrevistas em vários estados, até o interesse passar e então estou de volta à vida real. As luzes se apagam, não há mais ninguém querendo autógrafos e tudo o que resta é a exaustão e o pensamento acerca do que farei depois. A idéia de desistir nunca me ocorreu, mesmo nos momentos quando percebia que havia alguém na porta pronto para confiscar todos os meus móveis e levar as chaves da casa.

Um diretor consegue fazer um filme apenas porque um engravatado de estúdio ou um produtor independente decide que pode ser lucrativo. É praticamente impossível escolher um projeto sem estar de olho no mercado. Ingmar Bergman, Fellini, Godard e Akira Kurosawa tinham de vender ingressos, e então quando seus filmes pararam de render nas bilheterias, eles não puderam mais continuar.

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Você pode ter prateleiras repletas de troféus e prêmios, aparecer nas listas de críticos, ser ovacionado em festivais de cinema por todo o mundo, mas ainda vai ter de passar por reuniões com jovens engravatados de estúdios que nunca produziram, escreveram ou dirigiram nada e ter de vender sua idéia de novo e de novo. Eu tenho cada vez menos reuniões, e ainda os engravatados apenas querem me dizer o quanto meus filmes os influenciaram. Eu sorrio, agradeço, saio e entro novamente na montanha russa."

As palavras acima foram extraídas do livro The Friedkin Connection: A Memoir, a autobiografia do diretor. Um cineasta lendário, parte do seleto grupo que desafiou e revolucionou Hollywood no final da década de 60 e década de 70, apresentando obras que desafiaram público e estúdios, Friedkin reconhece uma vida de altos e baixos, de fama seguida de anonimato, de glórias e de fracassos, porém, em uma síntese total, uma carreira sem arrependimentos que apenas pode ser traçada por pessoas determinadas.

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Ainda que sua filmografia não seja linear, é um diretor que vale a pena garimpar até a mais obscura de suas obras. O que dizer de Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and To Die in L.A, 1985), uma produção com sérias restrições, que começa de forma medíocre, vai se metamorfoseando ao longo da história e termina de modo impactante, com uma virada original, dando espaço para ótimas reflexões acerca dos personagens e dos acontecimentos? Um filme obscuro, mas que insistiu em se manter na mente de seus espectadores ao ponto de agora estar sendo transformado em série para TV, sob direção do próprio Friedkin. Ainda, o que dizer de um diretor que consegue imprimir doses geniais de realismo e loucura em seus protagonistas, que não são modelos para a sociedade, mas indivíduos questionáveis postos sob os holofotes cinematográficos? O treinador Pete Bell (Nick Nolte em Blue Chips), o policial Popeye Doyle (Gene Hackman em Operação França), o militar Aaron Hallam (Benicio Del Toro em Caçado), o esquizofrênico Peter Evans (Michael Shannon em Possuídos) ou o matador de aluguel Killer Joe (Matthew McConaughey em Killer Joe) são personagens que ficaram impressos nas mentes dos espectadores, especialmente daqueles que detestaram os filmes.

Friedkin ainda conseguiu duas façanhas incríveis. Ganhou Oscars em uma produção policial e em um terror, o gênero menos competitivo na Academia. Operação França levou a estatueta de melhor filme e melhor direção. O Exorcista perdeu para o insípido Golpe de Mestre, ganhando as premiações de melhor roteiro adaptado e melhor som.

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E falar sobre ele é falar sobre O Exorcista, sua obra máxima. Consequência do destino, a Warner chegou a oferecer a direção do filme a Mike Nichols, Arthur Penn, John Boorman e Peter Bogdanovih. Todos, por uma razão ou outra, recusaram. Agora, mais de 40 anos depois, o tema da garota possuída por um espírito do mal continua relevante graças ao empenho da pessoa certa para o trabalho. A pessoa que teve coragem de enfrentar os executivos e inflar um orçamento de 7 para 30 milhões de dólares, liberando um pandemônio histérico nas salas de exibição do mundo, onde pessoas desmaiavam, vomitavam e saiam aterrorizadas com o poder do mal.

Friedkin era um sujeito espontâneo, que dizia a primeira coisa que vinha à cabeça. Uma atitude que lhe custou muito ao longo de sua carreira. Segundo relatos, chegava a espumar pela boca quando estava gravando, tal qual um cão raivoso. Levava os atores ao limite físico e psicológico para conseguir extrair deles a emoção e empenho necessários para as cenas. Demitia e recontratava as pessoas em 24 horas. Tinha o hábito excêntrico de disparar tiros no estúdio para assustar os atores. Um pato Donald de pavio curtíssimo.

Havia algo de explosivo em seu comportamento desde criança. O homem já fora preso por assalto à mão armada, mas a devoção e respeito à sua mãe foram suficientes para corrigi-lo.

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William começou de baixo, como mensageiro na WGN de Chicago. Aos 22 anos dirigiu o primeiro programa ao vivo. Com o comportamento típico de um gangster, se vingava de qualquer um que tentasse destratá-lo, até mesmo Alfred Hitchcock. No dia em que teve a oportunidade de conhecê-lo, levou uma reprimenda do mestre do suspense por não estar de gravata nos estúdios. Deu o troco jogando uma gravata borboleta na mesa de Hitchcock durante a cerimônia de premiações da DGA (The Directors Guild Of America), onde ganhou um prêmio por Operação França. No dia seguinte ao receber seu primeiro Oscar por essa produção, resolveu procurar um psiquiatra.

Na entrevista reproduzida abaixo, concedida ao site Cinephilia & Beyond, Friedkin dá sua opinião sobre o fenômeno das produções de super heróis, alimenta a polêmica acerca da escassez de mulheres na direção e em papéis de destaque e ainda sobre o suposto racismo contra atores negros em Hollywood. O polêmico diretor também conversa sobre o universo da crítica cinematográfica e dá suas impressões sobre a decadência do cinema e da arte em geral neste século XXI.

Uma conversa com William Friedkin (Por Sven Mikulec)

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Você afirmou por várias vezes que, quando fez O Exorcista, sua intenção nunca foi fazer um filme de terror. O fato de que as pessoas o consideram como um dos melhores filmes do gênero já feito diz muito sobre o quão assustador é explorar a natureza dos seres humanos.

Agora, obviamente, eu reconheço que por gerações o público tenha considerado como um filme de terror. Eu não vou negar isso, mas quando me propus a fazê-lo, o escritor e eu nunca tivemos a idéia de que era um filme de terror. Nós consideramos como sendo uma história poderosa, emocionante e perturbadora. Mas nós não pensamos nisso nos parâmetros de um filme de terror, muito menos um filme clássico de terror, ou no monte de coisas que passam pelos filmes desse gênero. Nós dois apenas achamos essa história, inspirada em um caso real, era muito impactante, e eu pensei que poderia ser levada para o cinema. Mas nunca pensei nos moldes de um filme de terror como alguns que gosto, como Psicose (Psycho, 1960) e Diabolique (1955), e Onibaba – O Sexo Diabólico (Onibaba, 1964), e tantos outros. Estes são claramente filmes de terror, e eu não pensei que O Exorcista seria um deles quando o fiz. Agora eu entendo que o público pensa dessa forma, então não vou contestar.

E o que você acha que mais assusta o público?

Coisas ruins acontecem a pessoas boas. Uma menina de 12 anos de idade, inocente, que passa por sintomas extraordinários que representam claramente uma doença que não pode ser tratada por médicos. Isso é extremamente preocupante para as pessoas. Porque a maioria quer ter uma criança, ou foi uma criança ou é uma criança. Então sempre que seu filho apresenta os sintomas retratados em O Exorcista, é uma grande preocupação para todos. E eu acho que o fato de eu ter feito o filme de forma realista foi o que realmente conquistou as pessoas. Não é feito como se acontecesse em um planeta distante ou algo assim, ou ainda em um mundo inatingível – se passa no mundo real, com personagens humanamente possíveis. Então eu acho que o fato de a história ser retratada de forma realista é o que perturba as pessoas em relação ao que acontece nela. Foi um período muito produtivo e animado para trabalhar com William Peter Blatty em sua grande criação.

Os personagens de Sorcerer (O Comboio do Medo, 1977) são forçados a trabalharem em equipe para se salvarem, mas sem confiar totalmente uns nos outros. Eles são jogados juntos em uma tremenda série de problemas e para sair são necessárias confiança, fé e colaboração. Você estava traçando um paralelo com o mundo atual? Especialmente nos últimos dois anos?

Sim, e é ainda mais relevante hoje. Mas no momento em que fiz o filme, em 1977, eu senti isso, dessa forma que você descreveu. Que o mundo tinha chegado a uma encruzilhada, onde as maiores potências explodiriam tudo se não conseguissem estar juntas. E eu achei que Sorcerer seria uma metáfora para essa idéia. Eu acho que é muito, muito mais perigoso hoje. Eu penso que o mundo está em um precipício atualmente. Eu não vejo nenhuma liderança forte para neutralizar o terrorismo que existe no mundo, assim como vários outros problemas. Eu acho que se o mundo não se unir, ele vai explodir. E isso tem afetado pessoas inocentes que se sentam em um café ao ar livre, que não se metem com política, sabe, não possuem nenhuma filosofia particular que seja perturbadora para alguém. Há apenas o mal no mundo, e é isso que Sorcerer mostra para O Exorcista. Existe uma força do mal no mundo que causa todos esses problemas. A vida é realmente um belo presente, mas as pessoas não a consideram como algo vulnerável e sim como algo que lhes foi dado. As maiores potências do mundo se mantêm ameaçando umas as outras, atacando umas as outras, e vai chegar a um ponto onde haverá armamento nuclear o bastante para destruir o mundo. Então sim, existe uma metáfora por trás de O Comboio do Medo.

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Voltando a um tema mais atual, eu ficaria extremamente feliz em saber o que você pensa sobre a transmissão de conteúdo via streaming, como a Netflix.

Ah, sim, há muito mais coisas interessantes sendo feitas, infelizmente, mais na televisão por assinatura e em serviços via streaming do que nas telas de cinema. Neste país, assim como em muitos outros também. A audiência de filmes artísticos ou experimentais, praticamente desapareceu dos Estados Unidos e de tantos outros países, exceto nas periferias. E quando eu estava crescendo essa era a parte mais importante do cinema.

Você disse que tudo que Hollywood produz atualmente é só Star Wars, que o filme contempla tudo o que consideramos como filme norte americano desde que foi lançado. Quão grande é a responsabilidade de Star Wars para o cenário atual do cinema americano?

Bom, foi um sucesso enorme, além dos sonhos mais selvagens de qualquer um. Incluindo dos cineastas. Há filmes que ocasionalmente apresentam uma mudança completa do espírito da época, e assim foi com Star Wars. Se tornou o objetivo de todo estúdio fazer um outro Star Wars, ou uma outra versão. Então eles começaram a analisar, o que é Star Wars? Bom, é um tipo história em quadrinhos. Então agora, a produção em massa de filmes de estúdios de Hollywood são histórias em quadrinhos. Batman, Superman, histórias como Jogos Vorazes, Homem de Ferro... Eu não estou falando que esse é um caminho ruim, isto é o que o público quer ver. Em toda parte. Estes são os filmes mais populares, e eles muitas vezes atraem uma multidão em relação a outros tipos de filmes. Eu imagino que seja assim na Croácia, não é?

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Sim, aqui acontece o mesmo. Mas o que torna a televisão o local adequado para a narrativa visual de qualidade nos dias de hoje?

A TV a cabo e os serviços de streaming forneceram uma alternativa ao cinema. E o que eles começaram a produzir, felizmente, a maior parte, não todas, são histórias bem escritas, com personagens verossímeis em situações que são tensas, dramáticas e críveis. Claro que isso não se aplica a tudo que a televisão produz. Mas o tipo de trabalhos que me chamam a atenção são 24 Horas, Homeland, Arquivo X, Família Soprano e muitos outros exemplos de obras que não poderiam ter sido realizadas pela indústria cinematográfica. E há várias produções que vi realizadas por outros países como Israel, Suécia, Inglaterra e França. Vários filmes produzidos por esses países chegam por aqui no formato de série. Esse é o motivo porque a televisão se tornou uma alternativa a ir ao cinema para ver um filme sem nenhuma criatividade. Com raras exceções, claro. E há exceções – não posso dizer que não há bons filmes sendo feitos. Existem, mas são em menor número que há, vamos dizer, trinta anos atrás. Mas há uma boa chance que esse nicho cinematográfico de super heróis em breve se esgote, o mercado ficará saturado em algum momento. Eu não concordo. Penso que não irá saturar, acho que é o novo zeitgeist. Se não forem esses filmes de super herois, será algo parecido. Algo totalmente irreal, seja sobrenatural ou qualquer coisa assim. Fantasias saídas de histórias em quadrinhos. Temo pelo futuro do cinema. Ao menos até que veja alguma mudança. Quando você diz que o nicho vai se esgotar – não vejo isso acontecendo. Esse tipo de produção é o que o público se acostumou a ver. E o público nos Estados Unidos é totalmente voltado para as produções de super heróis, que para mim são completamente superficiais.

Os filmes de pequenas produtoras e cineastas independentes atualmente são os mais próximos do que era feito na década de setenta.

Sim, mas eles são muito desconsiderados atualmente. Levar um grande público aos cinemas para ver uma produção séria não se tornou possível apenas na década de setenta, antes também acontecia. O motivo é que as pessoas não querem mais ver esse tipo de filme hoje em dia. Principalmente porque a maioria das pessoas que ainda vão aos cinemas são jovens. Pessoas entre 15 e 25 anos. É o que eles querem ver. Até mesmo adultos.

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Mas além da televisão, pode indicar algumas produções que gostou nesses últimos anos?

Bem, posso te dizer que não gostei de vários. Mas recentemente vi Creed, outra versão de Rocky. Achei incrível, muito bom. Roteiro, atuação, uma grande história. Eles conseguiram se reinventar. Sensacional. Estou tentando me lembrar de outros filmes que tenha visto no cinema e que eu tenha gostado tanto quanto os do passado, mas nada se compara àqueles que realmente amo. Mas Creed é muito bom. E você provavelmente sabe que vi o australiano The Babadook (2014)? Você falou sobre ele no Twitter. Gostei daquele filme. Me pegou completamente de surpresa. Um pequeno filme de terror, mas achei maravilhosamente bem feito, muito convincente e perturbador.

Algum outro filme contemporâneo de terror?

Nada. Zero.

Os resultados das bilheterias definem as carreiras dos cineastas, e a sua não é exceção. Mas você deve se sentir bem ao ver O Comboio do Medo e Parceiros da Noite (Cruising, 1980) ganharem o reconhecimento que mereciam, mesmo após tanto tempo?

Veja bem, me sinto bastante feliz quando meus filmes ainda são reconhecidos por quem quer que seja, décadas depois que foram lançados. Claro que me sinto feliz. Mas na maior parte das vezes você cria um filme para um público contemporâneo, daquela época. O motivo de eu não fazer tantos filmes quanto antes é que não tenho encontrado nada que me interesse o suficiente. Não é que não tenha me esforçado para encontrar, mas é que não vou trabalhar em nada que não me desperte paixão o suficiente para fazer e depois pedir que as pessoas comprem ingressos para assistirem. Se eu mesmo não quero ver, não tenho interesse em fazer.

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E o que o chamou a atenção no livro The Winter of Frankie Machine, bestseller de Don Winslow?

Achei um personagem bastante interessante, em um meio que conheço e entendo muito bem. Gosto muito do trabalho do autor. Acredito que é muito mais que um escritor de suspenses. Acho que há uma profundidade na sua escrita e um tipo de realismo proveniente de suas próprias experiências de vida. Sabia que ele já foi um detetive particular? Possui raízes no mundo real. É um personagem que acho que entendo. Terá um ótimo elenco. Paul Newman seria o ator ideal, mas infelizmente não está disponível. Mas quando eu tiver o roteiro, será o tipo de coisa que poderei dar para Matthew McCounaughey. Um close-up de Steve McQueen vale muito mais que a fotografia de qualquer paisagem. Sua fala. Não há mais atores como antigamente, mas levando carisma, talento e charme em consideração, quem poderia preencher a ausência de McQueen ou Newman? Ninguém. E não atores americanos, mas também profissionais como Lino Ventura, Jean Gabin e Marcello Mastroianni e tantos outros. Muitos de gerações passadas tinham um tipo de mágica. E muitas mulheres também. Não acho que haja muitas atrizes hoje em dia tão interessantes quanto as do passado. Assim como também não existe um outro Orson Welles por aí. Deus sabe que poderia dizer o nome de muitos atores, não apenas as estrelas, mas atores cuja luz já se apagou. Pessoas como Alec Guiness e Peter Sellers e poderia continuar dizendo outros, mas seria apenas um exercício de citação de nomes. Por exemplo, tudo o que vi que Humphrey Bogart fez era interessante por si só. Atores como Peter Lorre quando trabalhou na Alemanha e fez coisas como M para Fritz Lang. Não temos mais atores e atrizes como esses. Você percebe atuações obviamente boas. Eu assisto basicamente os mesmos filmes de novo e de novo, leio e releio os livros e ouço a mesma música diversas vezes. Nunca me canso de ouvir a Quinta Sinfonia de Beethoven conduzida por Carlos kreiber. É uma obra-prima onde, a cada vez que a ouço, descubro algo novo, um detalhe que não havia percebido antes. Deus sabe que, se pudesse, eu desejaria viver na Holanda, em Rijksmuseum, onde eu poderia caminhar todos os dias apreciando um Vermeer ou um Rembrandt. Isso não é fácil de fazer onde moro (Los Angeles). Se morasse em Nova York poderia ir ao Museu Metropolitano e ver cinco Vermeers e mais de uma dúzia de Rembrandts. Porque hoje ninguém pinta como eles. Vejo todas as formas de arte se enfraquecendo. Vai me dizer que a pintura se aprimorou desde os tempos de Vermeer e Rembrandt, desde o século XVII? A habilidade dos pintores e o interesse do público aumentou? Acho que não. A mesma coisa com o cinema e com a música. Quem compõe como Beethoven? Ou Bartok? Quem toca jazz como Miles Davis? Quem é tão bom na música popular como Frank Sinatra foi? E quando falo esses argumentos a respeito de como me sinto acerca da arte, pareço alguém preso ao passado. Não é verdade, tento me inspirar nos trabalhos de hoje em dia. E não os vejo em museus, casas de shows ou muito menos no cinema.

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Então você quer dizer que a situação se tornou trágica a partir do momento em que a tecnologia possibilitou aprimorar a arte, mas a qualidade dos artistas diminuiu?

Acho, mas é apenas minha opinião. Sim, a tecnologia te possibilita criar quase qualquer coisa, em três dimensões, em widescreen...certamente existem agora mais possibilidades de pintura e de composição de música que antes. E há um público bem maior para apreciar. Beethoven fazia composições no século XIV apenas para os europeus. E essas obras ainda vivem. Não sei quantos trabalhos serão lembrados no futuro, não posso prever, mas não são muitos que me chamaram a atenção. E não estou me lamentando. São apenas fatos. Sempre busco e tenho esperança de encontrar algo que me desperte a atenção. Como o filme Babadook, que foi totalmente inesperado, ou Creed, que é uma reinvenção de Rocky, uma obra que já tem 40 anos. Um filme muito bem feito, com atuações maravilhosas. A melhor coisa que Stallone fez desde o primeiro Rocky.

Ainda aguardo a estréia dele na Croácia.

Tenho certeza que você verá. Tento ver muitas coisas, assistir o máximo que posso. Há muitos que não me atraem, mas também há muitos que quero ver, e fico regularmente desapontado. Mas escuto músicas novas, vejo novas obras de arte e novos cantores. Na América há mais coisas interessantes acontecendo nos palcos que no cinema. Claro que não tem mais trabalhos na categoria dos que foram realizados por Arthur Miller, Tennessee Williams, William Inge, Clifford Odets e outros. Mas Tracy Letts, que escreveu Possuídos (Bug, 2006) e Killer Joe – Matador de Aluguel (2011), é um dramaturgo que eu colocaria na mesma categoria de alguém como Edward Albee.

Você disse que foi fácil trabalhar com Tracy Letts por compartilharem a mesma visão de mundo.

Encaramos as pessoas e a sociedade de uma forma bastante parecida. Nenhum de nós é particularmente envolvido em política, o que é algo estranho para se dizer a alguém da Croácia, onde a política é vital. Mas agora mesmo, nos Estados Unidos da América, não sinto que a política seja séria ou importante. Não acho que a maioria das pessoas está realmente prestando atenção ou se importando com quem é eleito pro mais alto ou menor cargo da nação. E, infelizmente, por conta da imprensa, pessoas melhores e mais inteligentes não querem concorrer porque a mídia imediatamente iria colocá-los numa balança e fazer uma lista de razões pelas quais eles não serviriam para o cargo. Muita gente não topa passar por isso. Não era o caso antigamente, quando muitas pessoas brilhantes se lançavam em disputas políticas. Ao contrário de sua região, não tivemos ditaduras. O progresso que fizemos durante a Guerra Civil, por exemplo, foi incrível. Esqueça a Guerra da Independência, quando os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra. A Guerra Civil foi executada por um grupo de rapazes vestindo ternos de lã e uniformes militares, fumando charutos em salas pequenas e bebendo uísque direto da garrafa. E esses caras estavam tomando decisões sobre coisas que reverberam até hoje em nosso país, como os direitos civis. Eles lutaram e morreram pelos direitos civis . 750.000 pessoas morreram na guerra civil americana durante esses cinco anos. Quem fez isso acontecer não tinha tanto conhecimento e inteligência quanto as pessoas agora, mas o que eles tinham era uma paixão, uma crença e uma fé que eu simplesmente não consigo ver hoje. Hoje nós temos um monte de caras bem vestidos em ternos de dois mil dólares e belas gravatas, comendo os melhores pratos da china e bebendo os melhores vinhos. São cavalheiros, se sentam em salas e discutem coisas para as quais não há solução.

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Você mencionou os direitos civis e como a sociedade mudou ao longo do tempo. Queria perguntar acerca da posição da mulher na indústria cinematográfica. Já houve várias discussões acerca da mulher enquanto diretora ser preterida. Qual a sua opinião?

Falarei o que penso disso. Tenho trabalhado em Hollywood já há cinqüenta anos e nunca encontrei um executivo de canal de televisão ou empresa de cinema, ou uma agência de talentos que tenha agido com preconceito contra pessoas de cores diferentes ou contra mulheres. Nunca encontrei um profissional assim. Agora, qual a razão pela qual existem mais diretores que diretoras, não sei dizer. Mas não é por conta de preconceito. A melhor diretora de filmes de ação e outros gêneros para mim é uma mulher chamada Kathryn Bigelow. Ela é uma grande cineasta. É como tentar descobrir o motivo pelo qual existem mais jogadores negros de basquete ou futebol americano na América. A maioria deles são negros ou de outros estados. Por quê? A única razão é que são melhores. Onde quer que as mulheres disputem, elas conseguem o emprego. Eu não conheço ninguém que tenha agido com preconceito contra afro-americanos ou mulheres, nunca vi isso. Por que existem mais atletas negros que brancos? Porque eles são melhores. Então o que deveríamos fazer? Criar alguma legislação ou regras que digam que deve existir mais atletas brancos? Não, você não pode fazer isso. Por que os maiores pintores que já viveram são homens brancos? Não sei. As mulheres são livres para pintarem. Você não pode criar leis que forcem a diversidade em uma forma de arte.

Se você tivesse de escolher fazer uma mostra de obras de Vicent Van Gogh ou uma pintora do mesmo período, qual você iria escolher? Porque as coisas são assim, não sei. Não sou mulher ou afro-americano, então não posso falar desse ponto de vista mas posso dizer que é um jogo em campo aberto. E atualmente há muito mais mulheres na indústria do entretenimento que estão na direção dos negócios. Minha esposa esteve à frente de um estúdio trinta anos atrás, e há dez anos dirigia dois estúdios. Por quê? Não porque era mulher, mas porque tinha competência. Quando alguém faz uma audição para disputar uma vaga em uma orquestra sinfônica, o candidato toca atrás de uma tela para os avaliadores. Eles não sabem se é um homem ou uma mulher, ou qual a cor da pessoa – o candidato apenas executa o que foi preparado, ele não fala. Hoje, por exemplo, se você for a um concerto da Filarmônica de Los Angeles, verá um grande número de mulheres asiáticas tocando. A maioria dos componentes de uma orquestra ao redor do mundo são mulheres, e mulheres asiáticas. Não consigo explicar isso, mas é um campo de disputa aberta, assim como no cinema. Nunca fiquei sabendo de um diretor de estúdio, agência de talentos ou outro grupo de trabalho no meio que tenha dito que não queria contratar uma mulher. Mas as mulheres têm de se apresentar, mostrar o trabalho. Recentemente foi aprovada uma lei na América dizendo que as mulheres agora estarão presentes em todas as áreas de combate. Haverá mulheres no campo de batalha, se houver uma, iguais aos homens. Então isso quer dizer que, entre outras coisas, houve progresso para as mulheres. Posso dizer que muitas pessoas enfrentaram dificuldades para conseguir reconhecimento em diversas formas de arte e nos esportes. Fui muito bom jogador de basquete na escola quando era um garoto, mas nunca conseguir entrar em um time profissional. Não havia maneira de alguém aprovar uma lei para que eu pudesse se aceito. Eu não era bom o bastante. Isso é difícil para as pessoas encararem. Se você for mesmo bom, vai conseguir trabalho. Todo o resto é apenas cortina de fumaça.

O sujeito que dirigiu Creed e foi um dos roteiristas é um afro-americano. Ele é talentoso, fez apenas dois filmes sendo basicamente recém-saído da faculdade. Mas é talentoso e ninguém se importa com qual é a cor da sua pele. Já tive afro-americanos e mulheres em meus filmes e não apenas por essas características, mas porque achei que mereciam. Não conheço ninguém que agiria diferente. Qualquer pessoa que negue um trabalho a uma mulher ou afro-americano talentosos é um cuzão e não deve estar em um cargo responsável por contratações. Existem pessoas assim em todo tipo de trabalho, em toda indústria, em todos os lugares? Pode apostar. Mas isso não vai ser solucionado por alguma lei.

Maryl Streep recentemente declarou que na crítica cinematográfica, o número de mulheres é extremamente inferior ao número de homens. Oh, que se foda isso! Jesus Cristo! Nem consigo comentar uma besteira destas. Ela é uma atriz muito talentosa que sempre consegue trabalho e escolhe em quais filmes atuar. Infelizmente, nem todas as mulheres são tão talentosas quanto ela. É apenas o que posso dizer. E quem se importa com o gênero do autor de uma crítica? Que é isso? Estamos agora reivindicando por diversidade entre os críticos? Meu Deus! Para onde o mundo está indo? Deixe-me dizer isso. Acredito que nos Estados Unidos, e só posso falar daqui, há provavelmente mais mulheres que homens. Então todo o sistema de quantas mulheres serão críticas de cinema, ou diretoras ou qualquer coisa será obrigado a mudar. Em relação aos afro-americanos, há um número menor deles que de brancos e, a medida que esse número aumenta, haverá naturalmente mais afro-americanos envolvidos em todas as formas de arte. Apenas falando em números.

Qual a importância da crítica cinematográfica atualmente em comparação com a de décadas atrás?

Vamos nos ater apenas a filmes neste momento. Hoje em dia há muito mais bons críticos por conta da internet. Tenho visto resenhas e críticas de filmes – muitos deles em seu site e em outros sites também. Houve um aumento no interesse em escrever acerca de cinema desde o surgimento da internet. Queria que existissem filmes melhores que justificassem esse aumento. E hoje os críticos possuem mais conhecimento sobre cinema por conta da disseminação de informações acerca de todos os tipos de cinema. Existem mais críticos hoje que quando eu comecei. Há também muitos idiotas escrevendo sobre filmes e também idiotas fazendo filmes. Os críticos profissionais neste país agora aplaudem os lançamentos que nem se comparam às produções do passado. Mas como um crítico de cinema, você está apenas dando sua opinião. A análise de um filme pelo New York Times não é mais impactante globalmente que uma que leve seu nome, do Rotten Tomatoes ou do Cinephilia and Beyond. Apenas representam a opinião do autor.

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Você costuma ler análises sobre seus filmes?

Sim, leio. Não todos, naturalmente. Geralmente os que são enviados para mim ou os que chamam minha atenção. Boas e más. E leio muitas críticas negativas se achar que são interessantes, contanto que não sejam desrespeitosas. E leio também críticas positivas que não ajudam tanto. Mas existem muitos bons escritores sobre cinema hoje em dia. Em todo o mundo. Não sabia que você, por exemplo, era da Croácia. Então aí está você, escrevendo sobre cinema há milhares de milhas de distância. Você escreve ensaios e escreve longos textos sobre filmes. E isto é, em essência, uma crítica. E por que você escreveria um longo texto sobre um filme que detesta? Qual é a finalidade? Para que desperdiçar trabalho em um iPad, computador, iPhone ou o que quer que use para escrever? Pra quê perder tempo se não gosta do filme? Escrever sobre filmes é tão variado quanto fazê-los. Existem filmes ruins, e filmes bons. Há bons textos sobre filmes e há coisas sem sentido. Para mim, a motivação para escrever sobre um filme deveria ser convencer o máximo de pessoas a vê-lo. Há um cara que escreve para o Wall Street Journal, suas críticas são tão negativas e pessoais que se tornam inúteis para mim. Quando vejo alguém escrever tantos ataques pessoais às pessoas que fazem os filmes fico imaginando o propósito por trás de suas intenções. E a conclusão que chego é deve ser algum tipo de inveja de pessoas que estão fazendo o que ele gostaria de fazer. E não fazem porque não podem. Mas há também aquelas críticas que fazem você realmente querer participar. Se eu fosse escrever uma crítica, apenas faria sobre filmes que sentisse que mereciam. Qual o mérito de escrever sobre uma produção que você não se identifica, a odeia e só quer atacá-la? Alguns títulos estão fora do alcance do poder da crítica. Alguém pode dizer que Star Wars é a maior porcaria do mundo e não vai afetar o público em nada.

Então escrever críticas negativas é um desperdício de tempo e espaço que poderiam ser usados para indicar um filme que realmente merece atenção?

Exatamente isso. Por que desperdiçar espaço? Por que deveria sentar e ler um texto sobre um filme que o crítico detestou? Não faço isso, é uma completa perda de tempo. Do escritor e meu.

Viver e Morrer em LA se tornará uma série de TV em breve. Em que fase está o projeto?

Terminamos o primeiro roteiro. Foi escrito por Bobby Moresco, mesmo de Crash, ganhador do Oscar, e também de Menina de Ouro (Million Dollar Baby).

Está satisfeito com o roteiro?

Muito. Adorei. Acredito que seja o melhor roteiro que já li.

Dirigirá os episódios?

Pretendo, mas convidei alguns de meus amigos, como Walter Hill, para dirigirem alguns episódios. Vou pedir a Nic Refn para fazer um, e talvez a mais uns dois diretores. Não que eu não queira fazer todos, mas alguns amigos cujo o trabalho adoraria ver o que eles fariam com esse material. Serão dez episódios de uma hora de duração.

Está pensando em voltar para a TV?

Bem, não chamaria de retorno, porque trabalhei para a TV periodicamente durante minha carreira, não muito. Mas o tipo de trabalho que fiz antes do cinema foram programas de variedades, dramas, esporte, todo tipo de coisa. Mas não dramas para televisão. Quer dizer, dirigi um Hitchcock Hour que, na minha opinião, é péssimo. Foi a primeira coisa que trabalhei em um estúdio de som, em um dos últimos episódios, e não achei bom.

Sobre as produções que você gostou dentro de sua filmografia, você disse que nunca se incomodou com os resultados das bilheterias, mas valorizava seus filmes de acordo com o quão perto eles chegaram de sua visão original deles. Com base nesse critério, quais dos seus filmes considera mais bem sucedidos?

Poucos. Fiquei muito satisfeito com Jade, Regras de Conduta (Rules of engagement), Killer Joe, Bug, O Exorcista...também tenho de falar de Sorcerer e Conexão França (The French Connection). Esses são os que vêm imediatamente na minha mente. E Viver e Morrer em LA (To Live and to Die in LA). Não porque eu consegui fazê-los perfeitamente, mas porque cheguei bastante perto da visão que tinha deles.


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