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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Traficantes do Futuro

Como os mercados negros da Deep Web podem forçar a sociedade a modificar suas políticas sobre drogas


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Chefão da Boca. Druglord. Dono da Morte. Líder do Tráfico. A figura central de um comércio ilegal de distribuição de substâncias não autorizadas em geral é alguém conhecido da comunidade. O titular do cargo pode se projetar ao ponto de se tornar uma espécie de celebridade controversa como Pablo Escobar ou El Chapo ou ainda o Fernandinho Beira Mar, falando localmente. Cada região tem seu comandante. Os vizinhos sabem de suas atividades, a polícia é ciente, a imprensa divulga e, tendo provas ou não, o cidadão comum, apático e careta fica sabendo quem é o Chefe. Logo se forma uma rotina televisiva de confrontos entre traficantes e polícia e entre as várias facções pela disputa do controle da região. É Estados Unidos contra Okaida.

Debates acerca da legalização de algumas drogas são cada vez mais constantes. O principal argumento é a ineficácia dos meios repressivos do Estado, gerando apenas mais violência. Pode então a tecnologia da informação ser mais eficaz que qualquer debate social ou lei federal e de fato diminuir a violência gerada pelos traficantes? Entusiastas dos mercados negros da Deep Web acham que é possível.

O personagem Fring na série Breaking Bad se comportava como um alienígena infiltrado na Terra. Um insuspeito dono de uma rede de fast food que na verdade era um fabricante e distribuidor de drogas em nível industrial. Preservar sua identidade era sua maior preocupação. É justamente a possibilidade de manter o anonimato o que faz com que as pessoas usem a Deep Web para navegar pela internet. Utilizando redes “invisíveis” e recursos de criptografia, internautas surfam por sites não indexados por buscadores como o Google, utilizando navegadores que acessam outras redes e traçam uma tortuosa rota mundial buscando burlar tentativas de localização.

Foi esse ambiente obscuro que possibilitou o florescimento de projetos como o WikiLeaks, no qual milhares de documentos secretos do governo dos Estados Unidos já foram expostos. Possibilitou também a ascensão de mercados negros de vendas de drogas, contratos de assassinato, refúgios de pedófilos e outros tipos de negócios que a mídia sensacionalista adora enfatizar.

É tipo um Ebay

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Foi nesse ambiente que surgiu o Silk Road, o Ebay das drogas lícitas e ilícitas, o paraíso dos viajantes astrais, uma espécie de continuação virtual dos valores do verão do amor da São Francisco da década de 60, habitado por hippies geeks. No ambiente virtual, o cliente não precisa ir pessoalmente ao traficante pegar sua droga. Basta uma transação financeira utilizando Bitcoins, Anoncoins, DarkCoins, DogeCoins, LiteCoins ou outra moeda das profundezas da internet, e logo sua mercadoria é entregue pelos correios ou algum serviço similar.

Vendedor e comprador não precisam se ver. O consumidor não se arrisca a acabar a noite em uma delegacia tentando convencer o delegado que é apenas usuário e não traficante, ou ainda ser metralhado pela Rota em uma blitz desastrada. Não que encomendas não tenham sido interceptadas pelos correios, o que terminou por chamar a atenção das autoridades americanas no caso Silk Road e também no seu similar alemão.

A “Rota da Seda” se tornou muito mais que um local de transações comerciais. O site reunia verdadeiros entusiastas da cultura das drogas. Vendedores que não se consideravam traficantes tradicionais, os típicos sanguinários psicóticos das séries de televisão, prontos a decepar cabeças e explodir pessoas. Os fóruns do site permitiam uma interação estreita entre usuários e comerciantes, um ambiente no qual podiam discutir acerca das drogas e seus efeitos sem nenhum tipo de censura. A princípio essas ideias fazem tanto sentido que geram discussões infinitas e artigos acadêmicos.

Não é só um eBay

Judith Aldrige, professor de direito da University of Manchester, e David Décary-Hétu, criminologista da University of Montreal, pesquisaram o assunto e escreveram o estudo “Not a eBay for drugs: The cryptomarket Silk Road as a paradigm shifting criminal innovation”, onde defendem que o comércio no ambiente virtual resultou em uma queda na violência gerada pelo tráfico convencional de drogas. Sem possibilidades de contato físico, a violência se tornaria impossível ou simplesmente desnecessária, inviabilizando o roubo do dinheiro ou da mercadoria.

Os dois estudiosos reconhecem que a violência entre fornecedores é maior que entre comerciantes e clientes, fato que joga algum descrédito na teoria da redução do derramamento de sangue. Porém, de acordo com os dados observados por eles, o Silk Road também comercializava ingredientes para fabricação de drogas. Na verdade, apontaram que a maior parte das transações eram realizadas entre revendedores. Qual o seu prazer?

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Os fóruns mantidos no site sugerem um clima de entrosamento entre os usuários, uma comunidade de entusiastas liderados pelo Dread Pirate Roberts, que afirmavam que somos donos de nossos corpos e defendiam o uso saudável de entorpecentes. É possível ser usuário recreativo de drogas e se manter funcional? O jornalista Hunter Thompson conseguia. Jordan Belfort, a banda britânica UFO e toda uma geração de atores e diretores de Hollywood conseguiram (ao menos por um tempo). O fato de usuários de drogas pesadas como heroína, meta anfetaminas e crack não suportarem a espera entre o pagamento, a postagem e a entrega da mercadoria fortalecem essa teoria de um público consumidor saudável e auto controlado.

Mas o comércio criptografado também tem seus problemas. Há sempre o risco da fuga de traficantes com os Bitcoins dos compradores e o vazamento de dados de usuários. Mesmo assim, nada que não possa acontecer com usuários da surface em sites legalizados.

O Silk Road se tornou o mercado ilegal mais conhecido, especialmente após a repercussão da prisão de seu suposto mentor, o homem apontado pelo FBI como o operador do avatar do Dread Pirate Roberts, o jovem Ross Ulbricht. Se a mídia já possuía a tendência de apresentar o mundo da Deep Web como um universo aterrorizante habitado por monstros saídos dos piores sanatórios da humanidade, o caso enfatizou e estimulou essa abordagem sensacionalista.

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A aliança entre o Tor e o Bitcoin sugere a criação de uma ideia nova que tornaria o combate às drogas definitivamente impossível, levando a uma mudança de posicionamento dos governos em relação ao consumo de substâncias ilícitas. O Silk Road foi até comparado ao Napster, site da década de 90 que disponibilizava o download ilegal de músicas e terminou sofrendo uma derrota milionária na justiça em uma ação que teve o Metallica como ponta de lança. A ação gerou um impacto simbólico, mas na prática foi completamente inútil na tentativa de barrar downloads ilegais de músicas.

O Senador americano pelo Estado de Nova York, Charles Schumer, não entendeu bem esse novo conceito de hippies geeks e incentivou a formação de uma verdadeira coalização entre FBI, DEA, IRS e Departamento de Segurança Nacional para localizar e destruir o site.

Após uma série de ações questionáveis e mal explicadas, prenderam o Dread Pirate Roberts. Ross Ulrich, um jovem acima de qualquer suspeita era o pirata. Aos 31 anos, foi condenado à prisão perpétua devido a acusações de ter negociado 200 milhões de dólares em transações ilegais, dos quais 95% fora fruto de negociações de drogas. O argumento da diminuição da violência não foi bem aceito pela juíza, que considerou fantasiosa especialmente por acusar o site de não ser parte da cadeia de suprimentos, mas simplesmente um distribuidor.

O combate virtual logo se revelou tão prático quanto o combate corpo a corpo. Vieram o Silk Road 2.0, Agora, Evolution, Pandora, Hydra e Silk Road 3.0, com movimentações estimadas entre 300 a 500 mil dólares diários. As drogas mais vendidas seriam a cannabis e o MDMA, com 25%, e estimulantes, com 20%.

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O mito da invisibilidade da deep web caiu também na Alemanha, quando a polícia conseguiu localizar e prender a mente de 20 anos por trás do Shiny Flakes, um mercado negro que lucrou cerca de 1 milhão de Euros em uma operação basicamente one-army man. Mortiz morava com a mãe e mantinha, de alguma forma, 320Kg de drogas diversas (com um valor de mercado avaliado em 4,1 milhão de euros) em seu quarto e ainda 48 mil euros em espécie.

Guerra virtual

A beligerância entre os narcotraficantes também parece continuar no mundo virtual. As armas são mudanças de chaves PGP, forçando a mudar o domínio dos sites, e outros tipos de ataques virtuais. Métodos convencionais ainda podem ser empregados, mas o difícil é identificar e localizar o alvo. Ross Ulritch foi acusado pela polícia de ter realizado contratos de assassinato para liquidar rivais. Ainda assim, é um nível bem menor de violência que o empregado pelo Cartel mexicano, que manda matar toda a família, o cachorro, os vizinhos e até incendeia a casa do concorrente. E o que dizer do notório Pablo Escobar e suas ações explodindo casas, prédios públicos e aviões?

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A tecnologia estremece os limites conhecidos da sociedade. Altera a realidade e apavora especialmente aqueles que são afetados diretamente pelas inovações. Parte pelo medo natural do desconhecido, parte pela resistência às mudanças. O ser humano com o passar dos anos costuma desenvolver uma teimosia obtusa contra a reaprendizagem. Máquina de Escrever X Computador; Charrete X Automóvel; Táxi X Uber; A Justiça, especialmente, não sabe lidar com situações novas. Não é designada para usar a imaginação.

Talvez seja uma espécie rara de alarmismo positivo que propaga o anúncio antecipado de um fim radical do combate repressivo às drogas graças a uma tecnologia incompreensível à maior parte da sociedade. Talvez, inicialmente, os mercados negros da Deep Web não tenham expressividade suficiente para forçarem essa mudança e sofram um trauma semelhante ao que as empresas ponto com sofreram com o estouro da bolha da internet no ano 2000.


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