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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

O cinema realidade em Rio 40 Graus

O marco zero do Cinema Moderno Brasileiro


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Em meados da década de 50, o coronelismo era comum no Brasil. Ou ainda mais comum. Dentre os acontecimentos políticos da época, Café Filho assumiria o governo deixado por Getúlio Vargas, sendo sucedido posteriormente por Juscelino Kubitschek. A industrialização brasileira engatinhava frente a um país predominantemente rural e socialmente dispare.

Mas raios fúlgidos de esperança reluziam no horizonte. Os movimentos sindical e estudantil ganhavam força e buscavam denunciar o que havia de podre no reino do carnaval, e o cinema teria seu papel de destacar as mazelas do país. Infelizmente, os raios iriam brilhar um pouco menos após o golpe militar de 64.

No universo cinematográfico, os estúdios Vera Cruz anunciavam falência. Oportunidade para reformulações. Lá fora, o cinema respirava novos ares com o Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa, escolas que iriam influenciar as cabeças pensantes tupiniquins. Aqui, não faltavam idéias e idealistas que passariam a operar sob o lema do Cinema Novo Brasileiro: “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. Uma nova geração de cineastas, inspirados nos movimentos italiano e francês, indicaria o que o cinema nacional deveria dizer, o que deveria focar e trazer aos olhos da sociedade. Diziam que o Cinema deveria ser realidade, evocar a discussão sobre violência, religião, política, cultura e os grandes problemas nacionais. Não importava se as obras fossem “ruins” frente às produções estrangeiras, se não havia equipamentos, dinheiro ou circuito para exibição. Para eles, filmar também seria escrever a história, com seus filmes feios e tristes, gritados e desesperados, mas com conteúdo relevante.

Para que esse movimento nacional pudesse engrenar, Nelson Pereira dos Santos, em 1955, precisaria mostrar que era possível desafiar capitalismo e comunismo, produzindo, de maneira totalmente independente, Rio 40 Graus, película considerada o marco zero do cinema moderno brasileiro.

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Nelson Pereira criticava as produções dos estúdios Vera Cruz. Achava que não retratavam a cultura brasileira em seus filmes. Resolveu fazer diferente e juntou um grupo de “não atores” desconhecidos e pessoas comuns. As filmagens duraram mais de um ano alimentadas por macarrão e sonhos de mudança. Vencidas todas as dificuldades financeiras e técnicas, o cineasta ainda teria de conseguir driblar a censura. Seu filme foi acusado de ter elementos comunistas e de ter recebido financiamento soviético. Ironicamente, ele próprio de ideologia comunista, encontrou resistência até mesmo dentro de seu partido, o PCB. Um dirigente dizia que cinema era um sonho pequeno-burguês. A censura oficial implicou até com o título, considerado mentiroso porque a temperatura nunca havia atingido os 40º no Rio.

Bebendo diretamente do Neorrealismo italiano (ver Ladrões de Bicicleta, 1948), Nelson Pereira queria mostrar não apenas os cartões postais, mas um retrato por completo do Rio de Janeiro e seus contrastes e contradições, habitado por personagens invisíveis e enxotados para o rodapé dos roteiros. Seriam eles que assumiriam o papel de protagonistas. Em Rio 40 Graus, cinco garotos negros do Morro do Cabuçu se espalham pela cidade para vender amendoim com o objetivo de comprar uma bola de futebol.

Copacabana, Morro do Corcovado, Pão de Açúcar e Maracanã são alguns dos cartões postais onde os garotos tentam sua sorte. Enquanto caminham por esses locais, o filme vai apresentando os contrastes sociais, alternando turistas e moradores que podem desfrutar os prazeres da cidade, em conversas fúteis e amenidades da vida carioca, com os garotos do morro, famintos e marginalizados, enxotados aos gritos de “moleque safado”, “malandro”, “vá trabalhar” e até ameaças de prisão.

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No Maracanã, os bastidores de uma partida de futebol, com um jogador tendo de encarar seu último ano de profissão devido à idade e a pressão da torcida em um momento de decisão. A figura do político, meio analfabeto, mulherengo e mais interessado em seus próprios interesses, surge na forma de um caricato coronel suplente de Deputado, “amigo do Ministro”. Esperado no aeroporto pela impressa e disputado por um sem número de aduladores, resolve visitar o Cristo Redentor para pagar uma promessa enquanto discute o futuro dos seus próprios interesses.

O malandro do morro, o cachaceiro, o político, a garota de família que engravida fora do casamento, o boa vida da praia e outras figuras símbolo da cidade são apresentados entre uma cena e outra. Envolto por polêmica e perseguições políticas, apenas intelectuais e artistas ficaram a favor da obra, que terminou sendo autorizada para exibição três meses depois de finalizado, com o slogan “o filme que abalou o país”, já sob a presidência de JK.

O conteúdo denunciador do filme é amargo, mas a obra não se entrega a um drama desmedido ou o puro miserabilismo, que viria a ser criticado no Cinema Novo, conseguindo apresentar os abismos sociais mas, ainda assim, imprimir uma espécie de bom humor apesar das adversidades. Apesar do conteúdo denso, o filme consegue ser divertido, encarnando a disposição do brasileiro frente às adversidades. Hoje, 6 décadas depois, notamos que os mesmos problemas persistem, mas os garotos do morro perderam a aura de inocência, sendo vítimas não apenas de uma elite conservadora, mas do tráfico de drogas, atuação de milícias e outros aspectos da violência, como apresentadas no filme Cidade de Deus, com um grupo que sofre das mesmas mazelas sociais, porém aumentadas exponencialmente pela violência urbana.

Rio 40 Graus, apesar de suas limitações estéticas e técnicas, até hoje é uma obra fácil de ver e continua relevante. Suas histórias soltas e personagens cativantes conseguem prender a atenção do espectador, entreter e ensinar um pouco de história, estimulando a reflexão e despertando a crítica social, especialmente quando comparamos a evolução do país após 61 anos. Um filme datado mas atemporal, digno de ser lembrado e indicado.


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