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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Civilização X Selvageria em Senhor das moscas

Obra da literatura universal apresenta crianças em uma cruel disputa de poder em uma ilha deserta


Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião britânico cai em uma ilha deserta. Os únicos sobreviventes são crianças e adolescentes que tentam se organizar para sobreviverem. Diante de uma situação na qual são jogados na natureza crua, sem supervisão de nenhum adulto, serão capazes de organizar um novo modelo de sociedade, sem os vícios e defeitos do mundo em guerra do qual vieram, ou seguirão os mesmos erros das gerações anteriores?

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Escrito por William Golding, um inglês veterano da Segunda Guerra, Senhor das Moscas foi lançado em 1954 e conquistou um lugar relevante na literatura mundial, ganhando inclusive o prêmio Nobel de Literatura. O romance se constrói sob uma espécie de experiência sociológica, colocando crianças de várias idades, mas homogêneas em relação a nacionalidade e outras características, em uma ilha laboratório, onde, sem a presença de adultos, tentam estabelecer um sistema de governo que assegure a sobrevivência de todos os indivíduos. Não há muitas explicações sobre o motivo da viagem da tripulação nem do acidente, tampouco do motivo de não haver nenhuma menina dentre o grupo, ou até mesmo haver alguém ferido ou mesmo morto por conta do acidente. Esses elementos parecem não importar para o autor compor seu experimento.

Senhor das Moscas é um romance sombrio sobre crianças que vieram de um mundo agonizando pelo nazismo, ficam isoladas entre iguais em uma ilha mas, mesmo assim, terminam em um conflito entre elas mesmas. Na tentativa de se organizarem, elegem uma concha como símbolo do poder e começam a discutir acerca da existência de um monstro na ilha, um ser que alguns juram ter visto, mas que não conseguem descrever com precisão. Ao invés de se tornar o inimigo em comum do grupo, provoca uma espécie de histeria e se torna mais um fator de cisão entre as duas lideranças.

A trama gira em torno de quatro personagens principais. Ralph, o loiro, se torna por eleição o líder das crianças. Fica responsável por dizer a todos o que fazer, quando fazer e lembrar porque devem fazer. Jack, o ruivo, se torna o líder do grupo de caçadores, responsáveis por providenciar carne para o grupo e proteger de ameaças. Simon, o moreno, assume a função de uma espécie de escudeiro do rei. Por fim, temos Porquinho, um garoto acima do peso, que usa óculos e é motivo de piada para todos os outros mas, em várias ocasiões, se mostra o mais inteligente do grupo, agindo como conselheiro. Porquinho se preocupa com as crianças menores, sabe a importância de manter uma fogueira acesa como sinal de socorro e consegue perceber o ódio a princípio velado que Jack sente por ele e por Ralph. Dele, provavelmente Jack despreza sua fraqueza física. De Ralph, tem ressentimentos por ter perdido a disputa pela liderança. Apesar disso, Porquinho procura manter o equilíbrio entre Ralph e Jack, até que o relacionamento entre ambos termina por sair do controle e descamba em uma verdadeira guerra pelo poder, fazendo vítimas fatais.

“(...) a descoberta de que tinham sido mais inteligentes que outra criatura viva, impondo-lhe a vontade deles, tirando a vida do animal como quem se sacia com um longo gole de bebida.”

A ilha desabitada passa por vários modelos de governo. Primeiro, a simples anarquia, com todos fazendo o que querem. Depois, um processo de democracia, com a eleição direta de um líder e divisão de grupos de trabalho com tarefas específicas. A democracia começa a falhar quando os indivíduos não seguem as regras combinadas até que, pela força, um tirano assume, instaurando uma espécie de monarquia absolutista.

“Você precisa gritar com eles. E obrigar todo mundo a fazer o que você manda.”

O título macabro já sugere que não se trata de uma obra voltada para o público infantil. Em uma analogia, poderia ser classificado como uma espécie de selo Vertigo da série Vaga Lume, famosa no Brasil por seus livros infanto-juvenis. Já nas primeiras páginas o autor vai apresentando traços sutis no comportamento de alguns garotos, indícios de que um caráter cruel poderá aflorar e que vão se acentuando à medida que os eventos vão ocorrendo. A narrativa constrói então, gradativamente, um clima sombrio como conjuntos de nuvens escuras que, quando olhadas com mais atenção, se revelam enxames de moscas.

“Eu tenho medo dele”, disse Porquinho, “e é por isso que eu sei quem ele é. Quando você sente medo de alguém, odeia a pessoa mas não consegue parar de pensar nela. Você se engana, diz que no fundo ele é bom, mas então, da próxima vez que encontra a pessoa, parece que tem uma crise de asma, e não consegue respirar. E vou dizer mais uma coisa. Ele detesta você também, Ralph.”

O leitor sente crescer cada vez mais uma sensação de perigo página a página. Essa sensação é sentida de forma mais intensa à medida que mostra o endurecimento de Jack, o caçador. A princípio, o garoto hesita em golpear um porco, o deixando fugir. Em uma outra oportunidade, consegue cravar sua faca no animal. Por fim, já com a sensação de poder em si, e aliado a uma máscara de tinta tal qual um índio, seu grupo de caçadores massacra uma leitoa que amamentava seus filhotes.

A partir deste ponto, a história assume de vez a fatídica jornada ao coração das trevas, um Apocalypse Now de crianças em uma disputa vazia de egos levando a constituição de uma sociedade tribal, entorpecida em superstições e rituais próprios, com rei, carrasco, soldados e um Deus maligno, o “Monstro”, que passa a ser apaziguado por partes dos porcos caçados, formando uma saga de involução que deixa um gosto amargo na boca do leitor.

O simbolismo em Senhor das Moscas é bastante forte, com o uso de objetos e fenômenos que funcionam como indícios das personalidades dos personagens. A concha representa a civilidade, com regras e deveres. Serve para reunir as pessoas e fazer com que sejam ouvidas. Os óculos de Porquinho, são a razão da ciência sob o barbarismo. O fogo que os garotos acendem na esperança de serem localizados por algum navio, funciona também como um sinal do nível de civilidade na ilha. Quando, aceso e regular, tudo flui ordenadamente. Quando apagado, é sinal de que há tumulto, desentendimento. Ralph, portador da concha, insiste em manter o fogo aceso. Jack não se importa que o fogo apague. O Monstro também funciona com um barômetro da civilidade, mas do interior das crianças. Quanto mais selvagens se tornam, mais creem em sua existência.

“A pilha de vísceras se convertera num enxame negro de moscas que zumbiam como uma serra. Empanturradas, pousavam à beira dos filetes de suor para beber. Faziam cócegas debaixo do nariz do menino, e brincavam de saltar carniça em suas coxas.”

Considerado um clássico da literatura universal, naturalmente a obra foi adaptada duas vezes para o cinema, em 1963 e em 1990, ambas produções norte-americanas de baixo orçamento e não exatamente um sucesso de público.


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