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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Abusado – Arquitetura de uma sociedade violenta

Livro reportagem de Caco Barcellos conta a história de um dos líderes do tráfico no morro Dona Marta, retratando a vida em uma comunidade afogada no descaso e na violência


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Qual a gênese da violência urbana? A causa motriz da perturbadora guerra entre traficantes e policiais que termina se alastrando por todo o país? Essa é uma discussão travada entre intelectuais, políticos e população em geral. Abusado – O Dono do Morro Dona Marta, livro reportagem de Caco Barcellos, pela Editora Record, não tem a proposta de lançar o argumento definitivo sobre esse assunto ou defender nenhum lado, mas permite que qualquer pessoa observe de perto o dia a dia de uma das favelas do Rio, conhecendo sua origem, expansão e os aspectos sociais diferenciados do local, acompanhando com intimidade as revoluções das guerras pelo poder e como a vida dos moradores é afetada pelo turbilhão de violência e caos que termina por arrastar para dentro de si toda a sociedade.

O personagem central do livro é o traficante Juliano V.P. (abreviação de “viado, puto”), que ganhou notoriedade no país durante a produção do clipe da música You Don’t Care About Us, do Michael Jackson, em 1996. Durante o forte hype gerado pela vinda do rei do pop, o morro Dona Marta foi o foco das atenções durante o período de produção do clipe. Nisso, alguns jornalistas conseguiram se infiltrar na área e, quando descobertos pelos traficantes, convenceram Juliano, na época um dos chefes da boca, a conceder uma entrevista, contanto que o sigilo em relação ao nome dele fosse mantido. O acordo não foi respeitado e logo Juliano, que apesar de ser integrante do Comando Vermelho e apenas um dos chefes do tráfico no local, foi revelado às autoridades como a face do mal, o marcando como um dos maiores inimigos públicos do estado e dando início à sua derrocada no crime.

Apesar de ser o personagem principal, Juliano não é o único foco do livro, que expande seu olhar para todos ao redor dele, incluindo sua família, seus vizinhos, amigos e demais moradores do lugar, permitindo conhecer a dinâmica das relações sociais em uma comunidade onde existem dois códigos de leis, um oficial, ditado pelo Estado, e outro ditado pelos líderes da vez no tráfico. Um não se revela necessariamente melhor que o outro. Ambos matam e mutilam os moradores, com casos de execução sumária e espancamento arbitrário. A injustiça continua existindo dos dois lados, e o cidadão comum termina aderindo a uma espécie de cinismo psicótico bipolar.

Para as mulheres, imperava um machismo nível medieval. Os garotos do tráfico frequentemente possuíam várias namoradas ao mesmo tempo. Costumavam passar os dias e noites de descanso na casa delas, alternadamente, as usando como esconderijo. Mas, caso uma namorada de algum integrante do tráfico se relacionasse com outro homem, a pena ficaria entre espancamento brutal ou execução.

Quando o crime organizado se enraíza no tráfico de drogas

“Os fundadores eram assaltantes experientes, que roubavam bancos, caminhões de transporte de valores, grandes empresas. Mas a partir de 1982 as primeiras pichações das letras CV sinalizavam a chegada da organização aos morros para controlar o tráfico de drogas. Durante toda a década de 1980, não parou de crescer também em outras áreas lucrativas do crime, como a do sequestro. Mas foi no comando das drogas no Rio que se tornou conhecida em todo o país.”

As histórias dos jovens de origem bastante pobre, que viram no dinheiro fácil do tráfico de drogas a solução para sobreviverem em um ambiente hostil, é deduzida como a origem dos traficantes e da violência como vemos nos noticiários, mas não é unanimidade. Alguns casos são apresentados de moradores que optaram por nunca recorrer ao crime, assim como outros que, após algum tempo, resolveram desistir e voltar ao asfalto como trabalhadores, optando por uma vida sem luxo. Aliás, a grande maioria dos moradores do Dona Marta não eram criminosos, apesar de terem de participar indiretamente, sendo também de certa forma vítimas de um sistema que se aproxima do fascismo.

A promessa de ganhos altos e fáceis, além da escalada de poder, são mostrados como os maiores atrativos para o crime, mas, ironicamente, apesar de ganharem muito dinheiro com as drogas, os traficantes pouco podiam usufruir. A vida de um criminoso que fazia carreira na boca não era necessariamente mais fácil que a de qualquer outro morador do morro que tivesse um trabalho comum ganhando pouco. Não podia desfrutar do dinheiro, tinha de viver se escondendo em locais diferentes todos os dias, alternando entre casas de parentes, namoradas ou o barraco de qualquer outro morador do morro, dormindo em sofás, no chão, escondidos por trás de caixas d’água ou até mesmo no meio do mato, em um estado de alerta constante, contra a polícia ou traficantes rivais. Raramente “descia para o asfalto” (expressão que significa ir à cidade), onde estaria desprotegido.

Como ratos em labirintos sob fogo cerrado

“O censo de um grupo de combate a leptospirose descobriu que a doença crescia na favela porque o número da ratos era dez vezes maior do que a população da Dona Marta.”

O número assustador de ratos, o esgoto a céu aberto e a intimidade dos moradores, totalmente exposta, com as portas e janelas dos barracões sempre abertas devido ao calor, além dos labirintos intrincados que terminaram se formando após anos de construções improvisadas são alguns dos aspectos que impressionam um visitante que nunca esteve em um morro como o Dona Marta. Isso é descrito em detalhes pelo próprio Caco e por meio dos olhos de pessoas que subiram o morro pela primeira vez.

O normal são pessoas que, por não terem condições de ir para outro local, acabarem tendo de morar no morro. Outros nasceram lá e, por não conhecerem outra realidade, aprendem na prática que dizer seu endereço é arriscar passar por constrangimentos em entrevistas de emprego ou acabar com a oportunidade com alguma garota de fora da comunidade. Mas o livro narra também casos de pessoas que largaram tudo na cidade e se mudaram para o morro, como o adolescente rebelde, que resolve se aliar aos traficantes, e sua mãe, funcionária pública, que acompanha o filho em sua loucura. Depois do choque de realidade, começa a se readaptar, chegando até a namorar um traficante como em um enredo de qualquer novela das nove. Outro personagem nessa linha é Kevin Vargas, o jovem que deixou o exército para se tornar missionário evangélico atuando em programas sociais no Dona Marta e, no processo, se tornando um dos amigos mais próximos de Juliano.

Cortar as cabeças dos inimigos não é invenção do Estado Islâmico

“Nos últimos anos da década de 1990, os Animais de Patrick eram conhecidos em todas as favelas do Rio por causa dos horrores que praticavam para impor a disciplina na administração dos pontos de vendas de drogas e afastar os inimigos. O uso de um estranho instrumento de guerra, um enorme machado, ajudou a dar notoriedade ao grupo de Patrick no universo do tráfico no Rio.”

Como chefe da boca, o traficante era procurado pelos moradores para resolver qualquer tipo de problema da comunidade, propondo soluções e aplicando penas e castigos, que iam da expulsão do morro, agressões físicas extremas ou execução mesmo. A organização do negócio do tráfico exigia dedicação e responsabilidade, escalando soldados, vapores, olheiros e pessoas que trabalhavam na endolação (empacotamento da droga, para venda). Uma verdadeira empresa que volta e meia dava dores de cabeça aos dirigentes, que respondiam a autoridades maiores. Quando o dinheiro da venda de drogas diminuía por conta de ações da polícia ou de disputa com outros grupos, realizar grandes assaltos se tornava uma opção para reforçar a renda.

Ao invés de eleições democráticas como no asfalto, é mostrado que o poder nos morros é tomado à força, em guerras entre facções rivais pela disputa dos melhores territórios. Quando o inimigo era poderoso demais, era necessário pedir a ajuda de aliados. Em uma destas guerras, para retomar o poder do Dona Marta, Juliano recorreu a Patrick do Vidigal e seus animais. O grupo do morro do Vidigal usava uniformes pretos com a insígnia de um machado de cor amarela no peito para aterrorizar os inimigos. O próprio Patrick comandava a turma empunhando um machado de um metro e meio de comprimento para decepar a cabeça dos inimigos. As famílias dos perdedores, quando poupadas, tinham de abandonar seus barracos e procurar outro lugar para morar. Medieval.

Juliano por vezes fora vítima da violência urbana . Perdeu um de seus melhores amigos, no tempo em que serviu ao exército, por conta de um assalto. O colega foi assassinado por um grupo de ladrões que também ameaçou estuprar a garota que estava com ele. Durante sua estada na Argentina, quando já foragido da justiça, Caco Barcellos o acompanhou a uma partida de futebol. Dentro do estádio, um grupo de punguistas atacou Caco, chegando a esfaqueá-lo. O caso não foi mais grave porque Juliano interviu a tempo.

“Tatau teve os olhos perfurados e sofreu várias mutilações antes de ser metralhado. A companheira Katinha teve uma das pernas quebrada por tiros de fuzil. Só depois de horas de sofrimento permitiram que ela fosse levada para um hospital.”

A obra poderia render uma temporada da série Narcos, produzida pela Netflix. Juliano não possui fama mundial como a de Pablo Escobar, muito menos foi tão sanguinário como o fúnebre colombiano, mas sua saga no “lado certo da vida errada”, como o próprio costumava citar, é um raio-x social que revela uma série de aspectos acerca da complexidade do universo do tráfico.

Não é exatamente uma leitura agradável, apesar de algum alívio cômico devido a expressões que os personagens utilizam, ou por algumas situações tão absurdas que se tornam engraçadas. Outras tantas vezes é chocante, enojante e triste. As páginas contêm relatos ácidos e cruéis de um estilo de vida totalmente aquém do conhecido por um cidadão que more em um bairro renomado, com toda a estrutura do Estado, mas justamente por isso permite que este teça suas reflexões acerca da violência urbana e suas causas de forma mais ponderada. Abusado deveria ser o tipo de leitura recomendada pelas escolas, como catalisador de discussões mais aprofundadas sobre as drogas, o descaso do Estado e as consequências da violência urbana.


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