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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Revisitando a sombria Hollywood da década de 70

Livro de Charles Taylor explora a história do cinema na década de 1970, considerado o último grande período do cinema norte-americano.


O crítico de cinema Charles Taylor lançou uma coletânea de ensaios chamada “Opening Wednesday at a Theater or Drive-in Near You: The Shadow Cinema of the American ’70s". O livro explora a história do cinema na década de 1970, uma época que, segundo ele e muita gente, foi um dos melhores períodos dessa arte desde sua criação.

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Taylor aproveita também para fazer comentários acerca do porquê cineastas como Jonathan Demme, Walter Hill e Irvin Kershner não continuaram tão populares hoje nas bilheterias quanto eram naquela época. O crítico tece comentários acerca do conceito moderno do blockbuster, taxando esse tipo de produção como sem sentido e destruidora do próprio conceito de conteúdo, o que provavelmente vai deixar essa nova geração bem zangada.

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O final da década de 1960 e a década de 1970 ficaram marcadas pela ascensão dos cineastas da geração Nova Hollywood, uma época que é considerada o último grande período do cinema norte americano. A década de 1920 nos deixou a poesia dos filmes mudos. Da década de 1930 até a de 1950, a linguagem clássica do cinema hollywoodiano tomou fôlego e os gêneros assumiram suas formas definitivas, como o western, os filmes de gângster, as comédias românticas, os musicais, filmes de guerra, dramas e as tramas noir de detetives.

Na década de 1960, esses gêneros pareciam intocáveis. Ao mesmo tempo em que os grandes estúdios tinham receio em apostar em outras fórmulas, percebiam que a nova geração não se interessava mais em tramas que agora soavam ingênuas. Os tempos estavam mudando e os códigos de censura retrocediam frente a um exército de hippies cabeludos em ascensão. Era o momento ideal para jovens como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Sam Peckinpah, Hal Ashby, Arthur Penn, Paul Mazurrsky, Alan J. Pakula, Brian De Palma e Robert Altman aliarem os conceitos clássicos do cinema americano aos da Nouvelle Vague francesa, com uma singela pitada do Neorealismo Italiano para terem como resultado obras que refletiam os novos tempos. Produções que não davam espaço ao otimismo desenfreado. Chega de finais felizes. Acabava o otimismo.

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Esses cineastas fizeram variações do western (Meu Ódio Será Sua Herança, Onde os Homens São Homens), de filmes de detetive (Um Perigoso Adeus, A Última Investigação), de filmes de gangster (O Poderoso Chefão, Renegados Até a Última Rajada), de comédias românticas (Bob, Carol, Ted e Alice), de musicais (Cabaret), de drama (Alice Não Mora Mais Aqui), de filmes de cidadezinha (A Última Sessão de Cinema), de comédias picantes (Shampoo) e comédias envolvendo militares (M*A*S*H , A Última Missão).

Ao contrário de protagonistas de filmes clássicos do gênero gangster como Scarface: A Vergonha de uma Nação (1932), Alma no Lodo (1931) e Inimigo Público (1931), o Michael Corleone de Al Pacino ao invés de acabar morto ou na cadeia, aperfeiçoava sua organização criminosa, modernizando suas operações e deixando para trás os tempos do seu pai. A velha moralidade dos estúdios estava ruindo e o novo público tinha agora a sensação de que estava vendo histórias sobre a vida como ela de fato era.

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E assim Taylor prossegue contando como toda semana algo surpreendente estreava nos cinemas e os críticos se redobravam para escolher para qual obra dedicariam espaço em suas colunas nos jornais e revistas. Então, os filmes considerados B, como os blaxploitation, terminavam meio que ignorados. Mesmo assim, apesar dos exageros apelativos para violência e nudez excessivos, também esses filmes menores podem ser vistos atualmente sem que o público se sinta menosprezado pelo conteúdo.

Tanto os clássicos da Nova Hollywood quanto os blaxploitation não são encarados hoje como produtos descartáveis frutos de uma produção industrializada com data de validade, ao contrário dos filmes americanos atuais.

E como começou essa infantilização? Seguindo o crítico, começou com Star Wars, uma obra realizada por um dos diretores da Nova Hollywood. Com uma fórmula básica, a saga intergaláctica conquistou jovens e crianças na época e o fenômeno continua funcionando hoje mais do que nunca graças a novas tecnologias em efeitos especiais e ao marketing monstruoso dos estúdios.

Apesar do pessimismo que autor parece expressar pelo estado atual do cinema americano, o também crítico Peter Biskind já se debruçou sobre o fim da Nova Hollywood e ascensão dos blockbusters, apontando que não necessariamente o cinema de qualidade estava perdido. Biskind comentou que, com o dinheiro arrecadado pelas grandes produções, os estúdios podem se arriscar a financiar filmes menores, com mais liberdade criativa.

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Outro que já expressou seu descontentamento com a atual invasão blockbuster, especialmente centrada nos selos Marvel e Dc, foi William Friedkin. O diretor apontou que a televisão hoje é mais criativa que o cinema. Não à toa, têm atraído grandes nomes, como Nicolas Winding Refn, David Lynch e o próprio Friedkin.

Na introdução de seu livro, Taylor esclarece um pouco melhor sua visão acerca do mercado cinematográfico atual:

“Atualmente, as produções consistem quase que exclusivamente de filmes de super herois, sequências, remakes e comédias centradas em círculos de amizades, muitas apenas desculpas para espremer alguns dólares a mais vendendo ingressos para salas 3D, voltadas para espetáculos e efeitos. Filmes empacotados pelo departamento de marketing de um estúdio na esperança de gerar uma nova franquia ou sustentar uma já consolidada para vender merchandising. Reboots, a periódica reciclagem de algo para atrair novas gerações para filmes que possuem apenas quatro ou cinco anos de lançamento, mas já são velhos e antiquados, são fabricados de acordo com um calendário de lançamentos com datas de cinco anos ou mais à frente. O cinema se tornou uma parada temporária no caminho para o mercado de vídeos, que se tornou uma parte substancial do lucro de um filme. O descarte é o objetivo, a determinação constante de tornar a audiência faminta por um novo produto.

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Consequentemente o que está acontecendo com os filmes contemporâneos não é apenas a destruição do conteúdo, mas da ideia de conteúdo. O que conta mais na maioria dos filmes mainstream são explosões, batidas e imagens geradas por computador. A narrativa é sem sentido, assim como o filme. A incessante movimentação de câmera e a edição que deixa os takes com não mais que dois ou três segundos elimina qualquer possibilidade de dizer onde estão os personagens em relação aos outros, arruinando qualquer tipo de suspense e nos privando de interesse emocional com o resultado. Não estamos mais assistindo histórias ou personagens, mas apenas marcas. Nem mesmo estamos vendo os astros. O derrame de trailers que precedem os lançamentos no cinema e as propagandas nos outdoors e cartazes em ônibus quase nunca nem mencionam quem vai estar nesses blockbusters.

Os filmes B da década de 70 possuíam uma conexão com o mundo, com emoções reais, sem mencionar a construção da obra, que os blockbusters de hoje e seus remakes e franquias dão duro para evitar. Os melhores filmes de gênero, não importa o quão profundas são suas raízes, seja no western, filmes de detetive, aventuras, ou noir, sempre envolveram emoções adultas: tentação, culpa, desejo sexual, o peso da responsabilidade. A violência nesses filmes é construída em uma escala que vai além das explosões espetaculares e massacres de desconhecidos dos grandes filmes de ação de hoje. Nos melhores filmes de gênero, somos levados a um mundo no qual decisões devem ser tomadas e as consequências enfrentadas. Ninguém confundiria Lutador de Rua (1975), uma história sobre lutadores clandestinos na época da grande depressão americana, de Walter Hill, com um documentário. Mas, quando a garçonete diz ao personagem de Charles Bronson que sua moeda só dá direito a uma única

xícara de café, você imediatamente tem uma noção do desespero daquela época, na qual se deveria economizar cada centavo. As cidadezinhas, os postos de combustível, as estradas de duas vias, as lanchonetes de Corrida Contra o Destino (1971) e Corrida Sem Fim (1971), estão quase ausentes das telas de hoje, assim como as visões das cidades americanas que você conheceu em A Marca da Brutalidade (1972) ou Cisco Pike (1972).

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Os novos blockbusters, aproveitando vantagens de 3D ou IMAX, parecem que estão encolhendo conforme vamos assistindo. Os filmes classe B da década de 70, sem ostentação, apresentavam uma visão que não poderia ser contida apenas por uma tela de drive in. Por anos, cineastas têm assistido personagens nas grandes telas caminharem para o pôr do sol ou adentrando na névoa noturna da cidade. Dentro de seus carros, em um drive in, ou em assentos de cinemas de terceira categoria que exibiam westerns e filmes de ação, suspenses, trhillers e filmes de rock, o público podia sentir que estavam adentrando em algo maior: a visão de uma América cheia de problemas e desfigurada mas, ainda, assim, um grande país”.

Charles Taylor já escreveu para veículos como New York Times, Salon.com, the Los Angeles Times, Newsday, Dissent, The Nation, the New Yorker, the New York Observer, Lapham’s Quarterly e outras publicações.


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