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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Pelos Caminhos do Inferno – suor, poeira, cerveja e cangurus

A história da digressão de um professor, pináculo de qualquer civilização, em um ser bruto e irracional, guiado pelos instintos em direção à luxúria primitiva no outback australiano.


O modo correto de assistir Pelos Caminhos do Inferno é durante o auge do verão, em um dia de altas temperaturas, por volta das 14h. Acomode-se em frente à tv e deixe ao seu lado uma caixa de isopor com tanta cerveja quanto couber. Providencie algo que atraia uma boa quantidade de moscas, inicie o filme e deixe o suor escorrer livremente. Tente acompanhar a desventura do professor Grant bebendo tanto álcool quanto puder e, ao final da película, com alguma sorte, provavelmente será encontrado apenas desmaiado ao lado de uma poça de vômito. Mas tudo bem, terá sobrevivido à simulação de uma experiência antropológica controlada, conhecendo os estranhos seres que habitam o outback australiano.

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Saído em plena era do Ozploitation, uma era de renascimento do cinema australiano, Pelos Caminhos do Inferno se tornou um filme cult dos mais celebrados. No princípio foi encarado como uma espécie de bêbado invasivo e inoportuno que entrou nas mentes dos espectadores e se recusou a sair, até que todo mundo começou a gostar dele em algum ponto. O filme ficou em cartaz durante cerca de 10 semanas na Austrália, o mesmo ocorrendo em outros países. Em 1972, raramente foi exibido, e os anos seguintes o enterraram.

Em 1996, o filme original foi tido como perdido. Em 2002 foi encontrado em um galpão em Pittsburgh, pronto para a destruição. Foi então que a National Film and Sound Archive, em colaboração com a Atlab/Deluxe, trabalharam na digitalização da obra. Apenas alguns críticos, historiadores e alguns espertos sabiam que se tratava de umas das melhores obras cinematográficas já feitas naquela terra ardente.

De indesejado, passou a ter status de patrimônio cultural cinematográfico, uma pérola que projetaria o nome da Austrália para o mundo, país que teria a fama de produzir alguns dos títulos de terror mais perversos do cinema. Ironicamente, foi uma equipe bastante internacional que comandou a adaptação do livro no qual é baseado, Sobressalto (título nacional), escrito por Kenneth Cook.

O autor do livro o escreveu quando tinha 32 anos, em sua segunda tentativa no campo da literatura. Publicado em 1961, recebeu boas críticas. Todos os personagens foram baseados em pessoas que ele conheceu no outback, o deserto australiano, o que não é nada difícil de acreditar.

Bundanyabba, a cidade fictícia onde se passam os acontecimentos, foi baseada em uma cidade rural de cerca de 30 mil habitantes localizada a 1.110 km de distância de Sydney. Segundo o autor, “um caldeirão de horrores onde talvez o aspecto mais terrível seja a amizade agressiva dos moradores”.

O filme/livro conta a história da digressão de um professor, pináculo de qualquer civilização, em um ser bruto e irracional, guiado pelos instintos em direção à luxúria primitiva. Em apenas um final de semana o sujeito vai de um passante que despreza a comunidade local a uma espécie de autêntico selvagem australiano. John Grant (Gary Bond) é professor de uma minúscula escola situada em Tiboonga, um lugar literalmente no meio do nada, como mostram as tomadas panorâmicas das primeiras cenas. Ao terminar o ano letivo, planeja voltar para Sidney, onde sua namorada o aguarda, gozar as férias e retornar ao grande nada, até concluir seu contrato com o governo. Mas, para chegar ao seu destino, tem de passar uma noite em Bundanyabba.

Pensando em matar o tempo, resolve tomar uma cerveja no bar local, abarrotado numa sexta feira à noite. Lá, conhece Jock (Chips Rafferty), um xerife beberrão e com ar ameaçador que posteriormente o leva para uma espécie de espelunca clandestina onde se joga o two-up, um jogo de azar que consiste em atirar duas moedas para o alto, apostando no resultado.

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Eis que após conversar com um estranho sujeito que anotava os resultados da noite (Tydon, vivido por Donald Pleasence), Grant resolve tentar a sorte, e a imprevisível deusa sorri para ele. Porém, diante da perspectiva de ganhar dinheiro o suficiente para pagar suas dívidas contratuais, volta ao local para mais uma última grande aposta. Claro que perde tudo.

A partir de então, envergonhado e sem dinheiro, resta vagar pelos bares da cidade, onde sua jornada pelo tal inferno do título nacional começará, até ser cuspido de volta do deserto australiano como um farrapo humano, com corpo e mente em frangalhos.

A jornada de Grant é a do estranho em terra estranha. Embora também australiano, o professor não se identifica com os caipiras do outback, uma terra maldita, onde a maioria das pessoas ganha a vida como mineradores ou fazendeiros e o único alento nas horas de folga é beber como se fosse a véspera do apocalipse.

Grant é um representante da capital, um homem do mundo moderno, preso em um local que parece mesmerizado, com pessoas que considera, no máximo, uma espécie de junção de homens primitivos com palhaços de circo, feras risonhas que passam a impressão de que vão atacar a qualquer momento, em surtos de fúria alcoólica. Sem perceber, acabará se tornando aqueles que despreza.

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O único homem que aparentemente possui traços de autoconsciência, reconhecendo a insanidade do local, se apegou a ela. O médico Tydon (que indiretamente instigou o professor a apostar no two-up) vive como um vagabundo, morando em um barracão imundo e sorvendo a hospitalidade etílica dos moradores locais em troca de consultas grátis. Alcoólatra confesso, está em um local no qual ninguém percebe isso. “Todos os diabos têm orgulho do inferno”, afirma. Ele se torna uma espécie de cicerone do inferno para Grant e para o espectador, explicando por meio de sua visão cínica, o comportamento das pessoas daquele lugar. Tydon ainda alerta o novato que, se continuar em Yabba, terminará da mesma forma. Partem dele os melhores diálogos do filme.

Enquanto todos os homens da cidade se divertem passando as horas de folga bebendo e caçando, as mulheres parecem à parte, tristes e depressivas, a julgar pela recepcionista do hotel e pela filha do homem que abriga John durante o sábado. Isso é explicado pela cultura local, na qual as mulheres não bebem junto aos homens. Sóbrias observadoras, aparentam ser as únicas que percebem a prisão ensolarada em uma terra na qual o índice de suicídios é alto.

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Essas impressões sociais estão estampadas na expressão de desilusão de Jannete (Sylvia Kay, a esposa do diretor), garota que fica observando seu pai se embriagar durante todo o dia com o grupo de amigos e termina se interessando por Grant, uma espécie de contato com o mundo exterior.

O momento mais tenebroso do filme é a cena da caçada aos cangurus. Quatro bêbados e um cachorro no meio do deserto atirando nos animais que ficavam indefesos quando expostos às luzes do carro. Essa cena é importante porque mostra a transformação total do protagonista, se tornando um autêntico cidadão de Yabba, bêbado e insensível, abraçando a selvageria ao ponto de lutar fisicamente contra um canguru ferido. Depois, o grupo ainda volta para um bar, no meio da madrugada, tirando o dono da cama, e continuam a beber até chegarem ao ponto de quebrarem tudo em um frenesi insano, mostrando que a transformação de homem em fera está completa.

São momentos chocantes. Até aquele ponto, Pelos Caminhos do Inferno era um drama com tons indiretos de humor negro. A partir do massacre dos cangurus, apresentado de forma tão real, o filme assume ares de terror, um Apocalypse Now australiano. As cenas pareciam tão reais e cruéis porque eram, de fato, reais. Ted Kotcheff, o diretor, instalou câmeras no carro de um grupo de caçadores australianos e pediu que agissem normalmente. Partes mais suaves dessas gravações foram utilizadas no filme. Esse foi apenas um dos pontos, embora o mais impactante, que mostraram o esmero na criação de um filme que conseguisse traduzir da maneira mais fiel possível a natureza do local.

“Eu tentei recriar o que senti e vi, o calor, a poeira, as moscas”, comentou o diretor. A película não deveria ter azul, verde ou qualquer outra cor fria. Apenas vermelho, amarelo, laranja, ocre e marrom.” Kotcheff queria que as pessoas vissem o filme e começassem a suar inconscientemente.

Em dezembro de 1969, Kotcheff e sua família desembarcaram na Austrália. O diretor queria sentir a atmosfera do continente, pesquisar os hábitos da comunidade, e outros aspectos da cultura local mencionados no roteiro, como as garçonetes dos bares e o jogo ilegal. Uma das primeiras coisas que fez foi reunir o assistente Howard Rubie e John Shaw, o australiano que seria o responsável pelas locações do filme, e saírem explorando a região.

Os três se mandaram em direção ao outback até que encontraram um bar no meio do nada. O lugar tinha um gigantesco barril inflável de cerveja no teto do estabelecimento. Shaw explicou aos colegas que não era permitido que mulheres bebessem no interior do bar, ainda que, na verdade, elas nem se interessassem.

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Kotcheff era um quarentão corpulento com um bigode que lembrava o de Stálin. Shaw aconselhou que ele não entrasse no lugar, mas o diretor ignorou o aviso e terminou vivenciando uma cena estilo western. As cerca de 50 pessoas que estavam lá o encararam. Ao pedir uma cerveja no balcão, escutou um “merda” de um bêbado local. Resolveu ignorar. Em seguida, o sujeito soltou um “Ei Stálin!”. Kotcheff esperou um pouco e respondeu: “Adoraria conversar, mas estou morto.” Primeiro se fez um silêncio opressor, mas em seguida começaram a gargalhar. O sujeito então deu um tapa nas costas do diretor e logo eram bons amigos. Era esse o tipo de clima de amizade hostil e sufocante que ele conseguiria transmitir depois no filme.

O ator Chips Rafferty, o xerife Jock, que puxa conversa com o protagonista na história, foi um dos responsáveis por traduzir esse clima que Kotcheff experimentou. E sabe todos aqueles copos de cerveja que vemos o personagem engolir em suas cenas? Era cerveja de verdade. Segundo Kotcheff: “Ele bebeu muita cerveja nessas cenas. Muita mesmo. Eu pedi ao assistente para comprar cerveja sem álcool. Na primeira cena do dia, ele teve que beber dois copos. Ele engoliu o primeiro e então cuspiu fora. Falou: ‘Ted, o que é isso?’. Respondi: ‘É cerveja sem álcool’. Ele: ‘Não posso atuar com cerveja sem álcool. Preciso de cerveja de verdade'”. Rafferty entornou até 30 canecas somando todas as cenas. Mesmo assim, o ator nem mesmo tropeçava nas suas falas. Chips morreu no mesmo ano em que o filme chegou aos cinemas.

Para continuar com a pesquisa, Ted teve desentendimentos com George Willoughby, um dos produtores. Ele não queria liberar a grana para que apostasse no tow-up, o jogo de azar ilegal que faria a ruína do personagem principal. Willoughby também iria pegar no pé do elenco por conta da quantidade de cerveja que era consumida durante as filmagens, deixando muita gente bêbada de verdade no set. As cenas do jogo duraram três dias. No primeiro, um monte de dinheiro sumiu do set. Depois alguns figurantes chegaram a ser presos por passarem notas falsas para comprarem bebidas e pagarem prostitutas. Os problemas financeiros no momento da edição do filme quase impossibilitaram sua conclusão.

A polêmica cena da caçada aos cangurus gerou muita discussão, chegando a ser mais chocante que a violência contra os animais apresentada em Canibal Holocausto. Para muitos australianos, o animal é um símbolo nacional, uma espécie inofensiva e indefesa que deveria ser protegida e preservada. Willoughby chegou a desmaiar vendo as filmagens da carnificina perpetrada pelos caçadores. Ted Kotcheff, à época vegano e posteriormente vegetariano, não tinha intenção de promover a violência contra os animais, ao contrário. Tanto que, posteriormente, o filme até contribuiu para criação de leis que proibiram a caça indiscriminada aos cangurus. Porém, até recentemente, têm sido noticiados verdadeiros massacres da espécie, promovidos pelo próprio governo alegando combate à superpopulação e gerando revolta de entidades protetoras.


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