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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Seremos Legião – Uma coletividade conectada por redes neurais

Enquanto em obras de ficção autores desenham um futuro no qual a internet seria simples e prática como telepatia, pesquisadores se debruçam sobre os efeitos negativos que o uso de redes sociais e do próprio smartphone podem causar aos usuários.


Em Anon, filme de ficção científica da Netflix, escrito e dirigido por Andrew Niccol, somos transportados a um futuro no qual a comunicação entre as pessoas é plena. O ambiente da internet é chamado de Éter, acessado diretamente pelas mentes dos usuários, que podem enviar e receber arquivos de vídeo, uma vez que tudo que eles enxergam fica disponível para fácil acesso em suas memórias. Nessa realidade, o crime se tornou praticamente impossível.

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A polícia pode acessar os arquivos de toda a população quando necessário, afinal, todos estão conectados ao Éter. A exceção acontece na forma de uma mulher, interpretada por Amanda Seyfried, uma espécie de hacker terrorista que consegue se conectar e desconectar da rede, se mantendo invisível. Ela pode inclusive obter acesso às mentes de outras pessoas controlando o que elas enxergam, podendo também acessar e apagar memórias, revelando as fragilidades e riscos de um sistema que era tido como perfeito. A sociedade funciona totalmente dependente desse ambiente em todos os níveis, reestruturada de acordo com ele.

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Em 1997, a DC Comics publicava uma minissérie chamada DC Um Milhão, protagonizada pela Liga da Justiça e se estendendo por outros títulos da editora. Idealizada pelo roteirista Grant Morrison, a ideia era mostrar como estaria o mundo no século DCCCLIII, especificamente no ano 85.271. Isso permitia um exercício avançado sobre futurologia, indo ridicularmente mais distante que produções cinematográficas como Blade Runner, De Volta Para o Futuro ou Minority Report: A Nova Lei.

No futuro projetado por Morrison, com a ajuda de outros roteiristas que se encarregaram de escrever as histórias dos outros títulos da editora que se conectavam com a minissérie principal, os seres humanos singraram o espaço, colonizando outros planetas. A tecnologia resolveu aparentemente todos os problemas técnicos da humanidade. Na Terra, o meio ambiente foi restaurado, pois as grandes cidades se localizam em espaços dimensionais chamado de hipercubos, dando espaço para a natureza se desenvolver sem interferência.

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De muitas maneiras, na Terra ou em Marte, os humanos vivem em uma utopia. Os super heróis, descendentes dos que conhecemos, ainda existem, mas praticamente não são necessários, são apenas símbolos. Nessa era, o Superman original é considerado como um deus, e ele não está morto.

Deixando de lado a Caixa Materna, abordada já aqui, ou o uso avançado da nanotecnologia, podemos apontar uma tecnologia que se destaca: a Neuronet. Trata-se da internet, mas funcionando diretamente nos cérebros das pessoas, por meio de implantes, de forma semelhante à do filme Anon. Não seria diferente de telepatia, ou ainda da concepção física da internet demonstrada na animação Wi-Fi Ralph, com as mentes das pessoas literalmente projetadas em um mundo virtual. Curioso apontar que muitos registros de contatos imediatos apontam que alienígenas falavam diretamente dentro das mentes das pessoas.

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No universo futurista de DC Um Milhão, o conceito de dinheiro moeda foi abolido. Como acontece agora nas redes sociais, onde o valor do indivíduo resta no número de seguidores que ele possui e nos comentários e reações a suas postagens, lá vale a mesma lógica. Os registros dos acontecimentos são transmitidos via Neuronet e deste fluxo de informações resulta a “remuneração”. Quem não possui o que relatar/transmitir, vive nas periferias das cidades, sendo chamados de “sem-dados”. São os marginalizados dessa realidade, vivendo em espécies de favelas.

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Outro ponto curioso é a vulnerabilidade dos usuários da rede. Na história, uma notícia falsa é implantada na Neuronet, se espalhando na rede neural instantaneamente, fazendo com que praticamente todos os habitantes daquele universo acreditem naquela informação. Um exercício imaginativo que foi bem além do seu tempo, numa época em que nem existia o Whatsapp.

Não temos ainda a Neuronet nem o Éter, mas o uso do smartphone já vem provocando mudanças físicas e mentais nas pessoas de acordo com alguns pesquisadores. Há diversos estudos que elencam o potencial prejuízo que o uso das redes sociais, especificamente no tocante ao Facebook, podem acarretar. Um estudo realizado pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, indica que o uso dessa rede social pode tornar as pessoas menos saudáveis, gerando insônia e ganho de peso.

Outro estudo, da Universidade de Nova York e Stanford, apontou que usuários que deixaram o Facebook por um período de até 30 dias passaram a relatar melhoras em sintomas de depressão, ansiedade e solidão, se sentindo mais felizes.

Na realidade, um estudo do tipo, quando inclinando sobre o uso de uma rede social específica, parece falho desde o princípio. Na era do smartphone, a influência do aparelho como um todo deve ser levado em consideração. Embora a maioria desses estudos sobre o Facebook soe superficial e de difícil mensuração, são indícios de que o uso intenso das redes de alguma forma, em algum nível, acarreta alterações comportamentais que podem repercutir na própria sociedade como um todo.

Ainda não está totalmente claro como o uso dos celulares e das redes sociais afetam nossa saúde mental. Como se trata de algo recente, é cedo para constatar as mudanças ao longo do tempo e das gerações mas, de acordo com os indícios fornecidos até então, é razoável supor que essas mudanças já estão em curso.

A socióloga e psicóloga norte americana, Sherry Turkle, estudou por 15 anos a comunicação por celulares, entrevistando centenas de pessoas. Concluiu que a tecnologia muda quem somos. Em uma palestra pelo TED, ela resume os resultados de suas pesquisas. De acordo com Turkle, um dos principais aspectos visíveis da mudança comportamental é que não damos mais atenção integral às pessoas com as quais interagimos. O hábito de estar em uma reunião de amigos e familiares enquanto, ao mesmo tempo, dividimos a atenção interagindo com outras pessoas por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais, está se tornando um padrão. Esse comportamento se espalha por outros ambientes e atividades. A divisão da atenção ocorre em salas de aula e no trabalho.

Turkle menciona a expressão “alone together” para explicar que, ainda que estejamos fisicamente sozinhos, devido ao celular, nunca nos sentimos, de fato, sozinhos. Uma das consequências é a perda da capacidade de refletirmos sobre nós mesmos. Toda uma geração está crescendo sem saber o que, de fato, é estar sozinho. Ao invés de conversa, temos conexão, o que gera perda de empatia. A consciência de estar sempre conectado gera ansiedade, uma busca constante pela verificação de novas notificações. O aumento global de problemas relacionados à ansiedade, depressão e déficit de atenção parecem corroborar essas conclusões.

Projetando as considerações da psicóloga para um futuro no qual não dependeremos mais de aparelhos para acessar a internet, tal como a Neuronet em DC Um Milhão ou o Éter em Anon, qual seria o impacto comportamental em uma sociedade conectada 100% do tempo? Nos tornaríamos uma coletividade melhor, mais organizada, padronizada e empática ou perderíamos a individualidade e todos os problemas apontados por Turkle seriam maximizados? Novos ensaios sobre o futuro da internet e suas consequências para a humanidade são muito bem vindos, tais como o filósofo social Francis Fukuyama fez em Nosso Futuro Pós Humano, voltado para a engenharia genética. Eventualmente, uma obra de ficção ou ensaio projetado por algum autor poderá ser profético.


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