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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas.

Dark Waters – O terror moderno das grandes corporações

Como regulamentações falhas, fiscalização condescendente e corrupção empresarial deram origem a um dos maiores casos de envenenamento químico do mundo moderno.


Um homem retorna às suas origens e encontra o verdadeiro propósito de sua vida. Tem a oportunidade de exercer a sagrada retribuição, empregando seus conhecimentos para ajudar uma pequena comunidade, terminando por perceber que se trata de uma batalha com repercussão global, com todo o planeta envenenado por um composto sintético.

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Rob Billot (Mark Ruffalo) é o que se pode apontar como exemplo moderno de um homem de sucesso. De origens modestas, ascende no mundo da advocacia, chegando a ser sócio de uma grande firma. Sua vida pessoal também produz bons frutos perante a sociedade convencional americana, casado com uma mulher que o apoia ao ponto de deixar o trabalho para ser dona de casa em tempo integral, cuidando do filho recém-nascido. A reviravolta acontece quando o espírito de suas origens bate à porta na forma do fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp), um homem simples, rude e prático, à procura de auxílio. Sua fazenda está literalmente morrendo.

Atendendo a um pedido de sua avó, Billot resolve investigar o caso de Tennant, descobrindo um grave esquema de envenenamento por descarte indiscriminado de produtos químicos praticado por uma das maiores empresas desse ramo no mundo: a DuPont. À medida que o caso vai sendo aprofundado, Billot entra em conflito com seus sócios da firma, cujos principais clientes são justamente empresas do mesmo ramo que a DuPont, e com sua esposa, Sarah (Anne Hathaway), que apesar do apoio e incentivo inicial, percebe os efeitos destrutivos, físicos e psicológicos, que o embate causa ao seu marido com o passar dos anos.

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Dark Waters – O Preço da Verdade consegue com primor condensar uma história que se movimenta durante anos, começando na década de 1970, apresentando de forma sutil o primeiro contato do protagonista ainda jovem com o que viria ser a luta de sua vida, uma longa batalha jurídica que se iniciaria em 1999 e que terminaria por se dividir em várias outras batalhas legais. O filme levanta várias questões pertinentes para entendermos como funciona o moderno mundo industrial, onde grandes multinacionais detêm tanto poder que são capazes de dobrar nações, driblando legislações e fraudando dados, com capacidade para se entranharem nos mecanismos de poder estatais mesmo que o custo de suas ações sejam danos ambientais ou morte de empregados e clientes.

Quando o governo é incapaz de proteger as pessoas, as próprias pessoas têm de se proteger. Essa mensagem é entregue ao protagonista por alguém que representa suas raízes, que participou de sua formação, o fazendeiro cuja terra foi criminosamente envenenada. Ao perceber a verdade dessas palavras, Billot finalmente compreende com clareza a posição a ser adotada, conseguindo um surpreendente apoio de seu chefe imediato, Tom Terp (Tim Robbins), que por sua vez passa uma dura lição de moral aos demais associados, homens práticos que temiam pela reputação da firma e consequente saúde financeira frente a um caso daquela magnitude contra uma potencial cliente.

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O filme dirigido por Todd Haynes aborda, como tantos outros do subgênero, o poder das grandes empresas e como elas manipulam o governo e os próprios trabalhadores para continuarem encobrindo práticas ilegais mesmo que mortíferas ao solo, à vida vegetal, animal e humana. A DuPont tenta por todos os meios evitar o processo, seja calando testemunhas por suborno ou ameaças veladas ou emperrando o sistema judiciário. No livro A Era do Capital Improdutivo, o economista Ladislau Dowbor elenca algumas práticas empregadas pelas grandes multinacionais, sendo algumas o lobby, o financiamentos de campanha e a captura da área jurídica, quando a empresa faz um acordo pagando indenizações sem ter de admitir culpa, além do controle da informação, exercido por meio de pagamento de anúncios e propaganda nos principais veículos de comunicação.

Em casos envolvendo empresas tão grandes, é quase impossível dar um rosto ao culpado, à pessoa que autorizou, conscientemente, arriscar a destruição de tantas vidas em nome do lucro. Em Dark Waters essa figura é representada por um dos presidentes da companhia, Phil Donnelly (Victor Garber), o magnata anônimo nas multidões. Quando as provas e dados são apresentados, Donnelly esboça uma mistura de ceticismo, isenção arrogante e um tipo de vergonha, não pelo que causou, mas por estar sob a luz. Dowbor também apresenta estudos que mostram como as grandes corporações formam sistemas tão complexos que se torna praticamente impossível descobrir de onde parte determinada ordem ou como decisões específicas fogem do controle geral.

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Graças ao próprio gigantismo, as grandes empresas enfrentam problemas de corrupção interna e fraudes que as fazem pagarem bilhões de dólares por atividades ilegais, mas ao custo de exaustivas disputas jurídicas. Estudos ainda dissertam que é mesmo possível que o topo da empresa de fato não tenha ciência de crimes cometidos no lastro, o que não é desculpa ou porta de saída para se eximirem de culpas ou escaparem a penalidades. “Nunca se sabe realmente quem foi o responsável por determinado crime corporativo, quem alertou para algum problema.” Longe de servir para isentar pessoas físicas, a constatação serve para termos ideia de como o sistema funciona por dentro e como essa complexidade é usada como salvaguarda de pessoas que tecem crimes contra a humanidade tão severos quanto os de um ditador de país subdesenvolvido.

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Baseado inicialmente em um artigo escrito por Nathaniel Rich e publicado na New York Times Magazine em 2016, Dark Waters foi alicerçado sob um ótimo roteiro, capaz de condensar uma longa e complexa história em apenas duas horas. Conduzido por uma direção segura e um elenco que, se não se destaca aqui, cumpre com competência seus papéis. É um retrato, até onde li, bastante realístico de como uma grande corporação pode ser o maior terror de uma comunidade, envenenando seus corpos e lares, comprando suas consciências com empregos baratos e prêmios de produtividade que disfarçam ameaças veladas ou até mesmo sentenças de morte com oportunidades. Foi o caso real, retratado no filme, do experimento que a DuPont fez com alguns empregados, oferecendo cigarros com teflon para observar o que aconteceria com eles ao se expuserem à substância. Quase todos adoeceram.


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Nada deu certo, me tornei escritor de histórias desconhecidas..
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