Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno.

Clariceando Parte 1 -Escrever pra que(m)?

Colocar em palavras e tornar visível aquilo que chega por outros sentidos,decodificando emoções através de uma folha vazia,longe de ser mera literatura e sim um estilo de vida que preenche espaços,dando vida ao que anseia por um significado.


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“Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.”

Longe de qualquer falsa modéstia, Clarice fala do potencial libertador da escrita ,e como tudo isso se mistura a sua própria vida, sendo ela mesma aquilo que escreve já que hesita tentar se encontrar .Essa busca, sugere se aproximar aos poucos ,escrevendo e apagando ,ou simplesmente sendo.Mas como uma folha em branco traz tamanha liberdade, e para alguns até mesmo angústia ,ela optou por preencher vazios, a folha não era mais a mesma assim como ela também não o era.

O escritor é um preenchedor de vazios,por muitas vezes tem o costume de achar que fala melhor escrevendo,esse fragmento de um texto de Clarice aparentemente despretensioso, mostra esse significado da palavra, do nome, remetendo inclusive ao significado do nome próprio, nome que te trouxe ao mundo, mas mudando de assunto, qual é o lugar que a palavra ocupa no mundo do escritor?

Nem sempre as palavras remetem ao que são , alguns utilizadores da palavra gostam até mesmo de brincar com esse significado ,quem quer entender o óbvio usa o dicionário ,alguns escritores mostram que vocabulário não basta ,tem que ter vivido,tem que querer viver a experiência,esse diálogo de vivências é aquilo que leva o escritor pra próximo de seu leitor e de sua verdade,que é um tanto contraditória,porque se remete a uma dúvida.

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E mesmo quem tem certeza, nunca deixa de duvidar um pouco,alguns filósofos concordam que essa dúvida trata-se da verdadeira inteligência,como diz Aristóteles: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.

O escritor,ignorante e sábio ao mesmo tempo, passa por esses três processos ,não se atêm a uma identidade, passeia na dúvida em suas reflexões, e por vezes chega até a afirmar algo que para ele é real,mas nada impede que mude de ideia e reconstrua o pensamento algum tempo depois. Quem é esse dependente da palavra escrita ,que se organiza em um espaço em branco e registra os pensamentos ? Para Clarice é aquele que sente tudo na pele e no papel as vezes misturando a sua própria identidade a um espaço em branco,o papel não deixa de ser sua segunda pele ou primeira já que oscila entre todas as camadas da existência,metaforizada na pele.

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Escrever é um eterno contraponto, é aprender a ver ou a deixar de ver, já que você pode limitar o que é visto através dos limites da folha, e por outro lado ampliar, indo além dela ,contudo não deixa de ser poder esquecer algo contido no pensamento e na memória pois pode ser lembrado mais tarde ao visualizar o papel, é um esquecer para lembrar depois.A escrita meu amigo,é um exercício dos contrários.

´Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.

Clarice ao falar dessa alienação do nome,palavra que distancia o sujeito dele mesmo torna esse nome, longe de fragmentador ,como uma chance do sujeito de pensar por ele mesmo,colocando em palavras num espaço visível aquilo que ele não consegue dizer , ele diz sem precisar dize-lo pois não verbaliza,é essa contradição que marca o escritor ,ele se mistura nas palavras e acaba sendo um só.

Clarice coloca uma dose de drama e realidade ao dizer que o ato fatal dela viver é escrever, e considera que tem dúvidas se é nesse processo de se perder entre as palavras que esse escritor se encontra, não importa quem ele é, e o que verbaliza porque ele desvirtua o destino da palavra ,com a chance divina de apagar e escrever de novo e ao mesmo tempo a consequência de quando finalizado não poder voltar atrás já que tudo fica registrado,gerando por muitas vezes uma certa insatisfação e culpa,afinal se eu ver por ai algum escritor satisfeito talvez ele não teve a chance de se reler. “Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar”,é Clarice deixa pra lá mesmo, que a gente te encontra nos livros carregando todos os ser e não seres do mundo.

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Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno. .
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