Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno.

Ante sala do vazio

Era uma vez um abismo que me separava de algo que nem eu mesmo sabia o que era, ao contemplá-lo olhando pro nada, o nada se revelou a mim,e no meio de tudo isso o que ainda adormece?

“E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche


el_abismo.jpg

Na geologia, abismo define-se como uma depressão natural, no relevo de uma paisagem, também pode ser definido como uma caverna com desenvolvimento predominantemente vertical. A imagem da caverna frequentemente nos remete a proteção, introspecção, e esse crescimento vertical do abismo, está diretamente relacionado a sustentação que essa caverna terá. Desde sempre acreditamos em coisas que nos ajudam levar a vida e ir preenchendo nossos vazios que se metamorfoseiam com o passar dos anos.Algumas vezes perdemos um pouco de vista esse objeto que faz um mimetismo com esse vazio,contamos as horas,que se transformam em dias,anos e em nós que nos atamos aos nós da existência de diversas formas.

maior-caverna-do-mundo-3.jpg

Voltando para a caverna,se ela tem uma grande sustentação, as chances de crescimento vertical serão maiores,assim como quanto mais buscamos por significados e sentidos, essa nossa caverna torna-se base de um abismo cada vez maior, longe de querer celebrar a ignorância, temos que estar conscientes desse abismo,e se utilizar de maneiras de torná-lo mais revelador e menos fugidio.Quando chega a meia noite e os abismos saem para confraternizar, ou se reviram num colchão que parece ficar cada vez menor,aparecem os primeiros sinais de que algo necesita ser mudado,imagine só, se permanecessemos anestesiados nesse joguinho de complexidade e coincidências da vida.

A existência nos proporciona certos distanciamentos e cabe a nós construir algo que nos aproxime de nossas realizações. A imagem de um abismo nos sugere uma ruptura, término, algo que deveria continuar, mas está geograficamente acabado, e essas descontinuidades de nós mesmos são moradas desse vazio regado a rotinas previsiveis,supervalorizações banais, desapego a realidade e outros mecanismos de tentar tornar a existência mais suportável.A parte boa é que ao acordar todos os dias buscando sentidos, nos deparamos com as nossas habilidades para sonhar e ter ideias para transpor essas lacunas, que como Guimarões Rosa bem nos lembra: “Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”

141.jpg

Enquanto não encontramos esses barquinhos existênciais,experimentamos diversas sensações e dúvidas e se encontramos, a má noticia é que também meu amigo, porque isso está inerente a nossa condição humana, lutamos por uma aproximação maior daquilo que nos trás vida,embora nunca cheguemos ao enigma maior da existência,fazemos uso de alguns paliativos para superar essa dor de existir, numa eterna busca de algo que desconhecemos.Essa cosmogonia fajuta de si mesmo,ocasiona essa sensação de angústia,e angústia é coisa de gente com medo, do alemão angst significa medo , mas lembrando do nosso português, a palavra abismado,que descende de abismo aqui em questão, possui uma conotação de surpreso, sem julgamentos quanto para o bem ou para o mal,e são nessas surpresas que a vida prepara, que nós podemos experimentar os prazeres sem garantias posteriores.

E nessa brincadeira de conviver com o inesperado, e de desvendandar os mistérios desse abismo, a vida pode ficar muito mais próxima de nós,afinal não viemos para seguir um roteiro e sim para criá-lo se utilizando de todo o material que dispomos, e de todas as nossas melhores intenções. Permitir-se renovar é para poucos,alguns tentam insisitir em coisas antigas ,mas como Nietsche nos ensina a respeito do verdadeiro despertar:“ Acordo todos os dias porque aprendi a dançar na beira do abismo” E nessa coreografia dos dias,eu desejo que essa troca de olhares com o abismo ,nos surpreenda e traga o direito de sonhar com algo além do que nos cerca, o novo,de novo,quantas vezes for preciso,para nos darmos conta.

abismo.jpg


Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Lia Holanda