Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno.

Equinócio do ócio

No dia 21 de março, o sol cruzava o equador celeste, mas o que era para ser apenas mais um fenômeno geográfico, virou cenário de filme apocalíptico.



desenho-natureza8-880x520.jpg

Era um dia como outro qualquer, rotina, exercícios, sofá, cerveja, café, até as chuvas de março chegaram, tudo sob a forma mais previsível. A única diferença é que se ouve falar de uma epidemia do outro lado do mundo, mas infalivelmente constatamos as voltas que ele da. Eu venho do futuro, aquele março não foi um mês qualquer, foi um marco histórico, mal sabíamos que dentro de alguns dias estaríamos implorando por uma rotina comum: pedir um pão na chapa, dizer saúde tranquilamente para quem espirrou no ônibus, relevar com os fones de ouvido a aglomeração diária de cidade grande ou média.

O calor humano passou a dispersar mais rápido do que a luz no prisma, a partir de agora, o contato implica contágio, aos que desacreditaram da disseminação desenfreada desse tal vírus, conseguiram transformar festinha infantil, em UTI pediátrica. Como um vírus narcisista, batizado pela sua coroa, poderia resumir tão bem, tudo do que já estávamos vivendo nos últimos dias? A natureza agradeceu, as tartarugas, a praia, a poluição se dispersou com a mesma rapidez que o maldito, mas sabe aquela sensação de arrumar a cama de manhã, sabendo que vai dormir de noite? É isso! No fundo sabemos que se não mudarmos as posturas diante da nossa casa, tudo não vai passar de uma chuva de verão.

Captura de Tela 2020-04-30 às 12.50.39.png

A frente fria vem chegando, as relações se sustentam da forma que podem, e se não puderem mais, é uma ótima fase para demissões, término de relacionamentos e fechamentos de negócios que já estavam em crise, foi dada a largada do vírus na terra do Pau Brasil, ele chegou dando xeque-mate, nem vou falar de política... Quem tinha cobertor estocado, pode lidar melhor com a queda da temperatura, por sinal, são nessas horas que se percebe o verdadeiro altruísmo, agora, enxergamos o outro, nem que seja pelo medo do contágio. A zona de conforto foi rebatizada como zona de proteção, o distanciamento salva vidas, nesse momento muitos estão na sua redoma de segurança, glorificando a produtividade, e com seu lugar reservado nesse banquete de autocentrados, afinal, introspecção é totalmente diferente, de egoísmo narcisista que anula o outro na dinâmica a dois, ou a dez.

O paletó de madeira é a última tendência fashion, não esperávamos tanto transtorno, aliás, o pânico já imperava em nossa sociedade. Nesses últimos dias, não ouvi falar de suicídio, a mídia não teve tempo pra isso, fiquei sabendo, que na ausência contato, existem sofás que abraçam, e cobertores que secam lágrimas, acariciando faces. Em cada um de nós, o confinamento dói de uma maneira diferente, a produtividade não é mérito de ninguém, a tendência para esse período, é de que tentemos simular a vida que estávamos tendo anteriormente. Quem estava deprimido, infelizmente tende a continuar assim, sorte de quem já havia despertado para o autocuidado, e está hábil a fazê-lo, agora temos tempo de sobra.

Sabe aquela história de livro de autoajuda, teoria do elástico, que o distanciamento faz o parceiro se aproximar mais rápido? A coroa do vírus talhou o elástico, quando tudo acabar, talvez alguns se aproximem, e outros se distanciem mais ainda. Para quem tiver matriculado nessa escola de viver o momento, eu vou passar a lista de chamada do curso: Como se manter são enquanto algo ameaçador te espera lá fora, pessoal, a disciplina de onipotência infantil foi cancelada. Na melhor das hipóteses vamos separar a mala, os óculos e roupas de banho, que o solstício de verão há de surgir, por enquanto o cosmos ficou de remarcar a data do evento, estamos eclipsados pelo brilho mórbido da décima nona coroa.

Captura de Tela 2020-04-30 às 12.51.28.png


Lia Holanda

O que eu carrego de mais valioso em mim são as palavras, elas mudam suficientemente rápido para acompanhar meu ritmo interno. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Lia Holanda