Larissa Peron

hay que endurecerse, Peron sin perder la ternura jamás

Barbarella no país das maravilhas

Há mais semelhanças entre a Barbarella de Roger Vadim e a Alice de Lewis Carroll do que sonha nossa vã comunicação comparada


Ambas do sexo feminino. No início, uma escuta a irmã mais velha a lhe contar histórias, enquanto a outra se despe por completo em uma sala de gravidade zero. Alice brinca com sua gata e dorme na grama. Barbarella, vestida como quem foi embalado a vácuo, cochila na pelúcia – o revestimento do interior de toda sua nave. Em 30 segundos, ou 3 páginas, já é possível notar a diferença básica entre as protagonistas.

barbarella.jpg À esquerda, na parede, um dos pontos altos do pontilhismo: o quadro Tarde de Domingo na Ilha de La Grande Jatte (1886), do neoimpressionista Georges Seurat. À direita, atrás do capacete, uma estátua de Ártemis (ou Diana), a representação máxima do feminino.

alice.png Alice e a pequena porta “38 centímetros aproximadamente” que aparece de repente. Ela consegue abrir com a pequena chave que aparece de repente em cima de uma também repentina mesa de vidro de três pernas.

Até então, em comum, apenas os cromossomos sexuais. E os delírios. Barbarella é psicodélica, de acordo com sua canção-tema. Alice então, nem se fala. Uma é menina, a outra, mulher. Apesar dos diferentes motes de suas fantasias – Alice com as lúdico-lisérgicas, Barbarella com os fetiches – as semelhanças, ainda que involuntárias, permeiam os enredos.

As sagas das loirinhas indefesas começam a partir de um ponto em comum: adentram um profundo e desconhecido buraco. Alice pelo mesmo que adentrara o coelho branco. E Barbarella, com sua nave revestida de pelúcia, vai parar nas camadas internas do planeta Terra. Coincidentemente, ou não, enquanto caía túnel adentro a menina de Lewis Carroll pensava alto: - I wonder if I shall fall right through the Earth!

Surgem, de repente, líquidos coloridos e não identificados que as duas consomem. A partir daí começam a experimentar situações nonsense e uma diversidade de personagens bizarros aparece por todo o decorrer das histórias. As moçoilas são atacadas. Alice, pelas flores – verbalmente (quando Através do Espelho), e por cartas de baralho a mando da Rainha de Copas – que quer que cortem-lhe a cabeça. Barbarella é fisicamente agredida por pássaros, bonecas e crianças – não necessariamente nesta ordem.

alicecardsdrop.jpg birds.jpg

A heroína de Vadim chega às crianças malvadas após ser sequestrada por um par idêntico delas. A pequena de Carroll também depara-se com gêmeos, na continuação de sua saga, quando atravessa um espelho até o mundo por dentro dele narrado em Alice through the looking glass. Barbarella, só para constar, também vai para outra dimensão, quando abre a porta invisível com a chave invisível que levava o tempo todo em seu colar invisível. (Uma chave que aparece de repente para abrir uma porta também repentina – parece familiar?)

alice twins.jpg twins.png

Mas nem só de cenografia conceitual é feita a comédia erótica dos anos 60, e além de portas e chaves instantâneas, Roger Vadim e Lewis Carroll usam outro objeto cênico em comum – ainda que com finalidades diferentes. Belas figurantes seminuas fumam essência de homem em um narguilé gigante na história francesa. essence man.jpg

No país das maravilhas, a lagarta azul tem um destes cachimbos de água a tiracolo, e põe-se a tragar entre suas filosofias e questionamentos. caterpillar narguilé_.jpg

Ainda é possível fazer mais uma (livre) associação de roteiros. Alice conversa com Dinah (Dinah era a gata) quando conversa sozinha. Dentro do país das maravilhas ou através do espelho, um gato risonho aparece e desaparece para Alice. Perto do fim do filme, Barbarella vestida de gato. Cheshire_Cat_JohnTenniel.png jane-fonda-barbarella-ii2.jpg

Contextos diferentes, mas ambas obras de fantasia. Só que Barbarella tem explosões e orgasmos.


Larissa Peron

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