Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Bonsai, Ferreira Gullar, e a invenção do sentido da vida

O que é a vida senão as vidas que inventamos para nós mesmos? É nesse ponto que o romance "Bonsai", de Alejandro Zambra, encontra Ferreira Gullar


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Há um tempo, fui perguntado se conhecia o romance "Bonsai", de Alejandro Zambra, um jovem chileno. O livro possui pouco mais de 90 páginas na diagramação peculiar da Cosac & Naify, e não alcançaria as 60 páginas se num formato tradicional. Sendo totais desconhecidos para mim, o livro e o autor, fui pesquisar, e as resenhas que passei o olho me despertaram curiosidade. Como um livrinho tão pequeno, escrito por um cara de pouco mais de 30 anos, pode render tamanho alvoroço?

Logo no início do livro é comunicado: Emilia morrerá. Julio não. Dito o fim, vamos ao meio. Conhecem-se de maneira natural, e esse acaso vira necessidade. Como gostam de literatura, criam o hábito de ler juntos à cama. Em dado momento, mentem que leram Proust. Não podendo retroceder, levam adiante a mentira até lerem "Em Busca do Tempo Perdido", criando a aparência de releitura. Mais adiante, Julio, agora com María, inventa que traballhará como digitador de um famoso escritor, por não ter coragem de revelar a ela que o trabalho foi negado. Sem saída, escreve manuscritos do romance que o escritor não escreveu, e trabalha nele como digitador, como se tudo fosse real. Depois, interessa-se por bonsais, e os cultiva como quem cultiva a própria realidade. Para financiar seu novo sentido da vida, vende os livros. E o que antes era protagonista, se perde como um figurante.

Ferreira Gullar, no livro "Em Alguma Parte Alguma", tem poemas incríveis que abordam de existencialismo a astronomia, coisas que muito me interessam. Logo no texto de abertura, "Fica o não dito por dito", escreve: "O poema / antes de escrito / não é em mim / mais do que um aflito / silêncio / ante a página em branco".

Assim como a criação do poema, a vida de Julio é essa página em branco onde tudo pode ser escrito, e que ele escreve da maneira que convém, sem amarras.

Numa entrevista na Flip, sobre o livro, Zambra disse que o fim tem menos importância do que se cria no meio. E assim também é na vida. Afinal, todos sabemos que no fim o protaginista - nós - sempre morre. Resta-nos, então, inventar o que se dará até lá.

Como disse Gullar: "o sentido da vida é inventado a cada momento"...


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