Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Bernini, musa de Carnaval, e a alquimia de carnes e pedras

Entre as carnes do Carnaval e as pedras das esculturas de Bernini, nem sempre as coisas se mostram como são


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A palavra carnaval vem do latim carnis levale, algo como “retirar a carne”. Tirar o item do menu é uma preparação para a Quaresma, período de abstinência e resguardo cristão. A quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas ao domingo de Páscoa.

Indícios sugerem que o povo já tocava fogo lá na Bailônia numas festinhas anuais de verão bem animadas por volta de 2000 a.C. Durante cinco dias todo mundo era igual e ninguém era de ninguém. Numa das brincadeiras, um prisioneiro tomava o lugar do rei. Ele podia comer o banquete real e até dançar o Lepo Lepo com as esposas do majestoso. Mas, sabem como é, um dia a farra acaba. E quando acabava o cara era chicoteado e empalado. Pois é, e você aí reclamando de sua Quarta-feira de Cinzas...

A festa foi se disseminando entre os povos, cada um com sua loucura, até que a Igreja Católica resolveu freiar o troço. Veio com o papo de que véspera de quaresma era tempo de acalmar a alma, que precedia o período sem carne pré-Páscoa, coisa e tal. Mas o povo pensou: se haverá escassez de carne, nada mais lógico do que se esbaldar. E aí aquela história de Paulo pros gálatas de que quem praticasse orgia, bebedeira, libertinagem, fornicação entre outras seria expulso do camarote de Deus foi esquecida. Pelo menos nesses dias de festa.

Então, apesar do Carnaval ser data Católica que precede um período de resguardo e supressão da carne, na prática se tornou a farra da carne e da esbórnia. De carnis levale, virou um vale-carne.

Bem, a introdução foi longa e nem pretende esgotar o assunto. Até porque há muito mais coisa sobre o tema e outras teorias acerca da origem do Carnaval. Quem quiser contribuir nos comentários, agradeço. Sigamos.

Gian Lorenzo Bernini foi um gênio da escultura. Escultor prodígio, bem cedo já produzia obras incríveis. Mas, pra mim, a mais impressionante é O Rapto de Proserpina. Nela, Bernini alcançou tal perfeição nos detalhes das mãos de Plutão que seguram o corpo de Proserpina que o mármore frio, duro e imóvel, se transforma numa carne de pele macia que cede ao toque. O mármore, então, perde sua condição de signo, e se desvela como o próprio significado, como explicou Ferreira Gullar: "A realidade material do signo está quase sempre oculta pelo significado. Por exemplo, na Ressurreição, de Pietro della Francesca, percebemos o Cristo como Cristo, mas também como uma imagem que possui determinadas características. advindas da superfície onde ela está pintada: luminosidade, lisura, transparência, etc. É certo que, quanto mais me atenho ao que o signo significa, menos distingo o que nele é especificamente material". Ou seja, quanto mais vemos em uma escultura o que ela representa, menos percebemos a pedra de que ela é feita. Gullar avança mais e diz: "quando o pintor imita à perfeição um braço, de tal modo que nenhum traço do pincel se percebe ali, ele apaga o seu próprio fazer e apresenta o que pintou como uma aparição, um milagre". A alquimia milagrosa de Bernini, a pedra se transmuta em carne.

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Em um site qualquer, eis que me deparo com uma musa de Carnaval. A reportagem exaltava a dimensão e volume das carnes descobertas. E me chamou atenção a forma da carne. Ao dizer que um corpo é escultural, tomamos como elogio. Mas, se escultura fosse, o corpo da musa seria algo oposto a Bernini. Na moça do Carnaval a matéria-prima é carne, mas ela não se revela assim. Ao contrário do mármore de Bernini, a carne se expõe mais bruta. A maciez cede espaço a uma dureza, um entalhe mais cru, contornos menos orgânicos, e uma consistência que parece ceder menos ao toque. Assim, na alquimia da escultura do corpo, a carne chama atenção por se revelar como uma pedra.

Então, de forma tão paradoxal quanto a história do Carnaval, Bernini e a musa se opõem. Nele, o sagrado que deveria suprimir o carnal transcende em carne e prazer convidativos. Na musa, a carne exposta no profano se oferece como uma pedra bruta, imponente e difícil de transpor.

A deusa de Bernini e a musa do Carnaval, cada uma com sua alquimia de carnes e pedras...


Carlos Batalha

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