Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Sobre os macacos que somos, mesmo sem nunca termos sido

Não somos macacos. Nem nunca fomos. Não sejamos todos iguais naquilo que herdamos do primitivo. Sejamos todos iguais naquilo que nos faz especiais. Sejamos todos humanos.


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Não somos macacos. Nem nunca fomos. Nem surgimos num dia de criação aborrecida do Big Brother Supremo. Somos apenas uma sucessão incrível e singular de acasos e acasos no universo. Da origem da vida primitiva numa sopa primordial, centenas de milhões de anos de evoluções seletivas, de extinções que favoreceram os sobreviventes, de condições atmosféricas especiais... Enfim, o milagre improvável de existirmos.

Bem, não preciso relatar, todos viram o que aconteceu com Daniel Alves num jogo do Barcelona pelo campeonato espanhol. Diante de uma atitude asquerosa que insiste em acontecer nos gramados europeus, o jogador brasileira teve uma presença de espírito incrível. Há um simbolismo em comer aquela banana que valeria outro texto. E tudo de uma forma blasé, numa altivez sensacional. Mas eis que uma atitude muito boa descambou em algo que se perdeu. Pessoas manifestando apoio comendo banana, ok. Repetir uma ação, transformando-a em ícone, sempre houve. Mas a imagem precisava de um slogan, de uma hashtag que pudesse medir o alcance da ação. E aí surge o #todossomosmacacos. Pois é... Prontamente a hashtag foi alçada ao sucesso, e todos a multiplicaram sem refletir sobre a frase. Cheguei a postar duas imagens ironizando a campanha, uma da capa do disco do Velvet Underground com uma banana feita por Andy Wharol, e outra com uma imagem de Darwin e a frase do momento. Era um dito pelo não dito, uma galhofada do troço. Mas, confesso, ficou uma galhofa meio non sense. Então, voltemos ao papo sério.

Fiquei pensando o que significaria bradar que somos todos macacos. Há certo sentido, parece dizer que somos todos iguais, e que viemos todos do mesmo lugar, uma coisa meio poeira das estrelas. É daquelas frases que no primeiro momento cativam por parecer algo, mas que aprofundando podem se revelar justo o que não gostaríamos que fosse. Então, mudemos. Nunca fomos, nem nunca seremos macacos nos termos científicos. Segundo a evolução, houve um ancestral comum entre o homem e o chimpanzé que gerou cadeias evolutivas distintas até o ponto em que estamos hoje, nós e eles. Mas nunca fomos eles, nem eles nunca serão nós. Caso evoluam, em centenas de milhares de anos, a uma forma inteligente darão origem a outra espécie, que não a nossa. Pela biologia evolutiva, não somos macacos. Mas...

Os chimpanzés são uns carinhas simpáticos que às vezes parecem sorrir, divertidos, afáveis e dóceis, correto? Bem... melhor não se deixar levar por carinhas simpáticas. Chimpanzés são animais bastante violentos. Jane Goodall, famosa primatóloga, descobriu comportamentos nos chimpanzés que são assustadores. Os chimpanzés organizam-se em grupos, e tomam como inimigos membros de comunidades que não a sua. Ou seja, apenas por não fazer parte do seu círculo social, outros indivíduos são tomados como algo a ser exterminado. E geralmente não há lutas entre animais ou grupos com forças equivalentes. Os chimpanzés atacam com força desigual. Quando um grupo encontra um macho solitário, eles o imobilizam, arrancam dedos e genitália a mordidas, espancam, matam e bebem seu sangue. Quando chimpanzés eliminam machos rivais e sua prole tomam para si as fêmeas, os territórios, os alimentos, e avançam em batalhas subsequentes para manter o poder, eliminando quem for uma ameaça. Ou seja, para os chimpanzés todos são macacos, mas uns são mais macacos do que os outros.

Até aí, nada muito diferente de boa parte da história humana. Mas macacos não amam, não tem pensamento abstrato capaz de gerar maravilhas como a matemática, não desenvolveram a escrita, não inventam as ficções que nos fazem existir em filmes, livros, cinema, música, não refletem a respeito de si mesmos e dos outros. Isso só nós, isso nos faz humanos.

Sermos todos macacos é sermos o que de primitivo nos iguala a nossos “primos” chimpanzés.

Sejamos o que nos faz especiais. Sejamos todos humanos.


Carlos Batalha

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