Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

A crença no mafioso Deus-Pai, o Godfather

Que modelo de deus é esse que pune com brutalidade aqueles que ousam não se submeter aos seus desígnios? Seria deus, então, uma espécie de poderoso chefão?


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Não acredito em religiões. Nenhuma delas. Tenho simpatia por algumas, acho bonitas, mas não configura fé. Mesmo na hipótese da existência de Deus, religiões são apenas invenções humanas para tentar rotular algo que, por definição, não é cabível de entendimento pleno pelo homem. Como disse Ferreira Gullar "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". Ao adjetivar Deus de misericordioso, justo, fiel (nunca entendi o que significa “Deus é fiel”), o homem reduz a Condição Divina Infinita à condição humana restrita. Então, mesmo que haja Deus, isso não significa que alguém tenha procuração para falar em nome Dele ou saiba Seus desejos.

Em The Godfather II, é contada a história de como Vito Corleone se tornou o poderoso chefão. No início do século passado, em uma Nova York cheia de imigrantes italianos, Vito assume o comando do bairro após matar o chefão da área. Assim, impõe a regra de que todos podem “voluntariamente” contribuir com seus negócios. E, quem não quiser pagar, sofrerá as consequências pela inadimplência. Ou seja, todo mundo é livre pra concordar com ele. Em paralelo, segue a história de Michael Corleone, filho de Vito e novo chefe da família após a morte do pai. Em uma cena, um capanga de Michael, antes de tentar matar um desafeto tido como traidor, diz: "Michael Corleone manda lembranças".

Há um tempo, vi um vídeo com a atuação de um autoproclamado procurador de Deus. Não vou postar o vídeo porque o objetivo é discutir uma prática geral, e não uma pessoa e/ou segmento religioso específico. Enfim, sigamos. O cara tava lá, naquele stand-up show, gritos, epifania, êxtase, e tudo mais que um espetáculo dramático exige. Até aí, beleza. Mas, lá pelas tantas, eis que o representante da divindade decide dar um exemplo pop da sua teologia. E, nada mais pop do que Beatles, e especificamente John Lennon. Depois de explicar porque Lennon era coligado do capeta e merecia levar três tiros, fez a singela confissão: "Eu queria estar lá no dia em que descobriram o corpo dele. Ia tirar o pano de cima e ia dizer 'me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai, esse é em nome do Filho, e esse é em nome do Espírito Santo'". A voz aumentando o tom, o drama do braço estendido simulando a arma apontada para um corpo já sem vida no chão e, no ato final da cena, no momento máximo de tensão do freak show, termina gritando:

"Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar!"

Assim como os Corleone, o deus inventado e vendido por muitos é um mafioso que acolhe quem lhe paga, e assassina quem decide questioná-lo. Um deus que exige submissão dos coagidos, e que faz questão de usar a brutalidade como um método de adestramento do rebanho. E o pregador é, apenas, o capanga que manda lembranças antes de executar o infiel.

Nesse modelo religioso, o Deus-Pai é o Godfather. Mas sem o charme de um Corleone...


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