Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Neymar, o Messias inexistente da Guerra Santa que não haverá

Neymar começou a Copa como candidato a heroi, e agora termina como Messias enviado para salvar nossas almas do mal inimigo que invade nossa Terra Santa...


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Neymar está fora da Copa. Diante de tamanho choque, só nos resta pensar: E agora, quem poderá nos defender? E torcer para que a resposta venha dos céus, e não do Chapolin.

Gosto muito de futebol. Desde o início da Copa vejo unicamente resenhas esportivas em canais fechados especializados em esportes, além dos jogos, claro. Debates, análises táticas, mapa de calor com movimentação de jogadores, retrospecto de confrontos. Mas eis que Neymar se machuca, e decido ir ver o mundo fora desses nichos. E percebo que uma Guerra Santa está em curso, motivada pela construção do mito do messias.

Desde o início da Copa, a Seleção vinha inconstante e insegura. A cada jogo parecia que tudo iria acabar, mas na hora certa Neymar salva o jogo e renova nossa esperança. E, de bom jogador e craque do time, ele se torna a encarnação da vitória. Nele confiamos, com ele venceremos, independente de quaisquer outras coisas. Neymar é o nosso heroi. Se ele estiver em campo com a cueca da sorte, tá tudo beleza. É tudo nosso, é nóis, é tóis. Mas o heroi se fere e, para a Copa, está morto. Tudo perdido? Nada. Neymar agora é o nosso Messias.

Messias vem do verbo hebraico “aplicar óleo em”, “ungir”. Na Bíblia Hebraica, com frequencia, os reis de Israel eram chamados de messias, os ungidos de Deus. Até o surgimento de Jesus, o messias era o enviado de Deus que guiaria o povo rumo à vitória contra o mal. Mas, com Jesus, um problema se deu: a morte. Afinal, se ele era o enviado divino, como poderia ser morto por infiéis? A morte do messias era um problema. Porque, se morto, não era messias. Foi aí que o Cristianismo deu o salto teológico que propiciou sua expansão. A introdução do Reino dos Céus e a revisão das palavras do messias fez com que a morte que parecia sepultar a crença se tornasse a força motriz que a perpetuaria. Diz em João 3:16 “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único...”. Antes, o comum era que os deuses recebessem os sacrifícios. Agora, o Deus não só dispensava os sacrifícios rituais como oferecia o Filho para o sacrifício derradeiro que salvaria os que Nele acreditam. A morte do Messias virava, então, o sinal, e o ponto de convergência da fé.

A Seleção vinha titubeante. Os apóstolos amarelos eram incapazes de mobilizar o povo para aderir à fé na vitória. Mas eis que Deus, provando ser brasileiro, sacrifica o Messias enviado de forma brutal, com sofrimento, dor, covardia, e o toma pra si no Reino dos Céus, à espera da conversão do povo que, unido, caminhará rumo ao triunfo final.

O que antes era medo e choro, se torna coragem e grito. E se antes a motivação parecia dispersa, agora somos fortes pois lutamos pela honra e glória do Cordeiro sacrificado.

Como dito no comunicado oficial do comando da Nação “Um grande guerreiro que interrompe brevemente sua marcha, mas que já deixou sua marca insuperável na batalha vitoriosa que trava a nossa seleção. […] mais rápido do que se imagina, estará de volta, enchendo nossa alma de alegria ...”

Amanhã lutaremos em nome daquele que voltará para encher nossa alma de alegria. Após matarmos virtualmente o colombiano infiel e toda a sua família, travaremos a Guerra Santa contra os Bárbaros Cavaleiros Germânicos que tentam conquistar nosso povo cantando alegremente o hino do Bahia, talvez em nome do imperador ferido Schumacher, o falso Dom Sebastião deles.

Amanhã eles virão para nos matar. Ou apenas pra fazer mais gols mesmo, sei lá. Afinal, tem gente estranha que acha que Copa é só futebol.

Foto: AGIF / Shutterstock.com


Carlos Batalha

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