Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Sobre mortes repentinas, o Universo, e o acaso que nós somos

Não pensamos no acaso porque seria insuportável carregar o peso de não termos o menor controle sobre nossas vidas. Mas, se pensarmos bem, o acaso somos nós...


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Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez / A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu não sei em que esquina ela vai me beijar - Canto para minha morte - Raul Seixas

Semana passada a morte abrupta de Eduardo Campos causou uma grande comoção. Numa noite falava ao vivo para todo o Brasil no Jornal Nacional, e no dia seguinte os mesmos apresentadores anunciavam a sua morte. Num dia era alguém que projetava-se em expectativas para o futuro, no outro era a lembrança de um passado. O choque se dá porque tínhamos clara uma agenda que não era prevista ser rompida. Nessa semana começaria o horário gratuito eleitoral, depois debates, o dia da eleição. Campos apenas seguia o curso da vida como seguimos todos. Pensamos nas tarefas de amanhã, no que queremos fazer ainda esse mês, onde vamos virar o ano. Mas, óbvio, nada disso é combinado com o acaso.

Não pensamos no acaso porque seria insuportável carregar o peso de não termos o menor controle sobre nossas vidas. E porque, obviamente, não podemos imaginar como seria a vida sem a nossa presença. Afinal, a minha vida só existe porque tenho consciência disso. Não estando eu aqui, pensando sobre isso, não haveria, pra mim, o que se chama vida, mesmo havendo para outros. Para nós, somos a certeza, e o que está além de nós, o que rompe essa certeza, tomamos como acaso.

Mas pensar a existência de tudo a partir da nossa perspectiva em primeira pessoa é só uma versão da história, além de todas as outras possíveis. O Universo surgiu há quase 14 bilhões de anos. A Terra há 4 bilhões. Já alguém com 30 anos não tem nem 11 mil dias de existência. Ou seja, se para você a regra é estar vivo, para o Universo a exceção é você existir. Então, ao pensarmos na história de tudo, vemos que é a presença de cada um de nós aqui o verdadeiro acaso. O biólogo evolucionista Richard Dawkins, numa entrevista na FLIP 2009 bem resumiu dizendo:

“É só calcular a probabilidade que tínhamos para nascer. Nossos pais precisaram se conhecer[...], o mesmo processo ocorreu com os nossos avós, bisavós, seguindo essa peregrinação até a origem da vida. Nós existimos por um fantástico acaso. Não desperdicem a vida. Não haverá outra!".


Carlos Batalha

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