Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Bauman, o guru do bom-mesmo-era-antigamente, e a demonização do hoje

A cada geração vemos a onda do saudosismo da era romântica do passado, como se o agora fosse um demônio, e a felicidade só fosse possível no antigamente...


carlos-batalha-texto-bauman.jpg

Hoje em dia, ao contrário de antigamente, não se tem mais... e segue a lamentação pela não existência de alguma coisa que nunca existiu, mas que foi romanceada como se algum dia tivesse existido. É sempre assim. A cada geração uma onda de nostalgia toma conta e vemos um saudosismo do bom-mesmo-era-antigamente. E a vítima da comparação é o que for mais comum no momento. Tenho visto por aí um clima desse embate relações x tecnologia.

E nesses debates se confunde a plataforma com as pessoas. Já vi amigos dizendo “ah, o Facebook está muito besta”, e logo pergunto “É? Que funcionalidade besta lançaram que não vi?”. O Facebook não existe como um ser. É só um suporte. São as pessoas que o fazem. Há quem poste homenagens a Zico, o Deus-Supremo da Gávea, e há quem comemore a volta de Eurico ao Vasquinho. O Facebook, coitado, não tem culpa pelo Eurico, nem mérito pelo Zico. E assim é o Whatsapp, o Instagram, o Orkut, o telegrama, o pombo-correio, e as pedras com hieróglifos. São só plataformas para mensagens de pessoas que desejam se conectar a outras pessoas. Se a pessoa tem uma mensagem a enviar, ela escolhe se postará na rede social ou nos Correios. São só opções de postagem. A existência de um aplicativo para mensagens em tempo real não impede que você escreva uma carta à mão.

O guru do bom-mesmo-era-antigamente é o sociólogo Zygmunt Bauman. No seu Amor Líquido, onde fala “sobre a fragilidade dos laços humanos”, logo no prefácio ficamos sabendo que as novas relações virtuais “ao contrário dos relacionamentos antiquados, parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as “possibilidades românticas” surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. As relações virtuais, claro, são as feitas sob o manto da tecnologia, esse mal da nossa modernidade líquida, e que sequestra nossa essência humana. Ao longo do livro o celular também leva sua porção de culpa, assim como algum dia a máquina de escrever deve ter sido demonizada por matar a caligrafia. Então temos a curiosa situação de que não são as pessoas que valem, mas os meios...

E nessa romantização das relações longas de antigamente, esquecemos, por exemplo, das moças prometidas ao bom partido que convenceu-se das qualidades da futura esposa quando soube do dote de alguns mil contos de réis, e que viveram pra sempre, até porque gente direita não se separa para tentar ser feliz em um outro relacionamento. Da infelicidade das Emma Bovary presas nas convenções, dos Brás Cubas que ficam por fora do que tá rolando porque foram fazer faculdade em outro lugar...

Mas estamos nesse momento onde há várias plataformas para que as pessoas se conectem e desconectem livremente e de comum acordo, tentando apenas usar dos meios que possuem para buscar a felicidade. Agora recebemos fotos dos filhos dos amigos que moram longe, mandamos uma mensagem de voz, compartilhamos momentos... Triste modernidade.

Bom mesmo era quando mandávamos cartas que nunca sabíamos se chegariam, perdíamos contato com pessoas queridas apenas porque mudaram de bairro, e não reconhecíamos velhos amigos na rua porque não os víamos há anos nem por fotos...

Melhor ainda naquele tempo em que esse texto seria escrito à mão e distribuído na rua após ser reproduzido por monges copistas. E onde todos poderiam opinar sobre ele através do... do... no... não faço ideia de como funcionava nessa época, mas morro de saudade dela.


Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Carlos Batalha
Site Meter