Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

O duplo, Camus, e a dor e delícia de querer ser quem não é

Simon James é um carinha estranho que vai e vem sem gosto de viver e parece não achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou. E se fosse outro? Afinal, se a dor reside no que ele é, a delícia deve habitar o que não é.


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Caros, antes do texto, um aviso: há spoilers do filme, e o destino do personagem será revelado. Não que seja filme cuja descoberta do final anule a graça, mas é um aviso. Dito isso, sigamos.

O Duplo é baseado no romance homônimo de Dostoiévski. E como disse Camus: “todos os heróis de Dostoiévski se questionam sobre o sentido da vida”.

Simon James é um carinha estranho que vai e vem sem gosto de viver e parece não achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou. Um tipo invisível, absorvido por um trabalho burocrático, monocórdico e insignificante, e que só desperta a indiferença aborrecida dos outros. Bom seria se fosse como o cara da TV que vence a briga sem suar e ganha aplausos sem querer. Mas Simon nem chega perto do destemor do herói canastrão de quem é fã. E Simon James cometerá suicído.

Em “O Mito de Sísifo”, Albert Camus trata do absurdo da vida, e dedica boa parte a analisar o suicídio, pois como diz: “julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. E a vida é absurda. Ela não tem um sentido em si mesma. É o sentido que damos a ela. E nós? Somos quem somos, ou o personagem que inventamos para nós mesmos? E se Simon James inventasse para si outro personagem, o seu duplo antagônico? E se fosse carismático? E se não fosse tímido? E se tivesse coragem de se impor? Simon James é, então, James Simon, o seu duplo idealizado. Afinal, se a dor reside no que ele é, a delícia deve habitar o que não é. Mas a angústia de conviver com o que gostaria de ser só aumenta o absurdo do mundo e a falta de sentido de ser quem realmente é. Simon James percebe que o ator que interpreta outro papel não é o papel. Ele continua sendo ele mesmo. Por mais que pensemos que somos quem podemos ser, ainda há algo que permanece. Apesar do duplo ideal, Simon ainda segue a vida ordinária. E como em Camus, “levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo”. Mas “um dia apenas o 'por quê?' desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura [...] o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento”. No caso de Simon, o restabelecimento perdeu para o suicídio. Porque a angústia já havia tomado conta, e o absurdo tornou-se insuportável. E “um gesto como este se prepara no silêncio do coração, da mesma forma que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma tarde ele dá um tiro ou se atira da janela”.

Simon não suportava ser ele. Mas suportou menos ainda ser um outro. Não buscou a felicidade em quem era, mas no que ele nunca foi. Deixou de ser seu duplo ideal. E deixou de ser ele mesmo. E matou os dois, para se libertar da dor, sem nunca ter encontrado a delícia de ser o que é.


Carlos Batalha

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